Mucho Flow no CAAA (10/10/2015)

Mucho Flow no CAAA (10/10/2015)

MuchoFlow2015

Portugal é um país estranho. É frequente o queixume sobre a falta de apoio à cultura, mas a verdade é que a cultura acontece como deve acontecer: por iniciativa de malta que não se resigna ao desabafo “nunca se passa nada”. O Mucho Flow é um bom exemplo de quem se recusa a aceitar o centralismo ou a falta de alternativas às propostas mais mainstream.

À terceira edição, o cartaz cresceu e dividiu-se em dois palcos, duas salas no interior do Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, uma antiga fábrica têxtil em Guimarães – herança de quando a cidade foi Capital Europeia da Cultura. Doze concertos em oito horas, que não defraudaram o espectador, muito graças ao bom cumprimento de horários, mérito da organização que (uma vez mais) foge ao estereótipo.

O dia foi grandemente ocupado por música exploratória e experimental, assumindo diversas formas. Num bonito leque de talento nacional, vimos Acid Acid a abrir as festividades e  LAmA (Riding Pânico, PAUS) a encher-nos de sons etéreos para sonhar. Ricardo Remédio (Löbo e RA) apresentou ao mundo o seu novo trabalho, terminando numa feliz recuperação do álbum “Rancor” de 2012. Já tínhamos saudades e muitas!

Vi Galgo, El Rupe e Sun Blossoms pela primeira vez, cada um no seu estilo – os primeiros claramente produzidos nos Black Sheep Studios (o som não engana) e os segundos a cruzar jazz e pós-rock. Vi também pela primeira vez Smartini: como sempre, pouco me disseram, pelo que o regresso aos palcos chega a ser pouco relevante numa época em que a música nacional transpira inovação.

Recuso-me a revelar quantas vezes já vi Pega Monstro ao vivo, mas isso também não interessa nada. O que interessa é que as manas Reis estão cada vez mais perto do trono do universo lo-fi, com uma voz que entoa mais mantras que palavras e instrumentos vorazes. “Alfarroba” é um álbum mais maduro, que apenas antecipa um futuro muito risonho.

O muito talentoso Ricardo Martins é o rosto comum a dois nomes que se reinventaram ao vivo: Filho da Mãe e Jibóia. Ambos os concertos foram electrizantes e até diferentes do registo habitual. Um Filho da Mãe que deixou a guitarra acústica em casa, e um Jibóia que fez bem em dar folga à parceira Sequin.

Mas os momentos altos do dia, haveriam de chegar com a noite fria e chuvosa que se sentia em Guimarães. Não é fácil descrever Circuit Des Yeux de forma original depois de se ler no bancamp das miúdas que “embodies the complexity of human emotions, juxtaposing tenderness and grief, ecstasy and horror, using sounds as representations of the emotional spectrum that we all experience“. A inesperada voz grave e cavernosa de Haley Fohr, suportada pela guitarra acústica, um violino e instrumentos de sopro, resultaram num concerto como há muito não se via, do qual ninguém saiu indiferente e que nos arrasou a todos. Foi uma espécie de antecâmara até chegarmos ao grande ringue.

Os irlandeses Girl Band regressaram a Portugal, depois de uma estreia há coisa de um mês no Ignition Fest (Penafiel), e vieram para nos dar uma grande sova. Não é por mero acaso que são uma das grandes apostas da Rough Trade. O rock volta a ser o que era, incendiário e cru. Vieram apresentar sobretudo “Holding Hands With Jamie” e três anos de carreira. E que bem que tudo soou em palco, naquela sala de paredes e chão pretos, em que o fumo e o calor tornaram tudo ainda mais incrível.

Foi um fim de noite exemplar e um fim de festa que honrou o compromisso do Mucho Flow em trazer ao Minho uma mostra de talentosas alternativas. Resta apenas esperar que 2016 cumpra ainda mais e melhor. Eu deixo já aqui a minha aposta numa edição de dois dias, pois tem tudo para dar esse passo em frente.