Homem Irracional (Irrational Man)

Homem Irracional (Irrational Man)

Homem Irracional

Continuando a saltarilhar entre a Europa e os EUA e a cumprir à risca o objectivo de realizar um filme por ano, Woody Allen regressa a casa (depois da visita à Côte d’Azur em Magic in the Moonlight), ao território do romance policial e a um dos temas óbvios do seu cinema – a dicotomia culpa/castigo. De facto, muitos dos seus filmes podem ser vistos como variações narrativas de uma mesma história, em que a personagem central pratica um crime, é acometida de sentimentos de culpa e tenta livrar-se de uma punição terrena ou divina – Crimes and Misdemeanors (1989), Match Point (2005), Scoop (2006) ou Cassandra’s dream (2007) serão os exemplos mais emblemáticos. Irracional Man não foge a esta fixação, mas soma-lhe ingredientes que potenciam o seu interesse: um labirinto de jogos mentais e referências literárias – onde não falta Crime e Castigo, de Dostoiévski – e o melhor actor da sua geração à cabeça do elenco. É um debate filosófico sobre a (i)moralidade, centrado na história de um académico alcoolizado e deprimido que encontra na prática de um crime um sentido para a sua existência.

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Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um professor de filosofia desencantado com a vida, recém-chegado a uma nova universidade e precedido de uma reputação de anti-social. Na nova escola, conhece Jill (Emma Stone), uma jovem estudante que rapidamente se deixa fascinar pela sua aura de mistério e pelo seu brilhantismo. A relação entre ambos vai-se tornando mais próxima, não impedindo os encontros de Abe com Rita (Parker Posey), uma professora que, mesmo sendo casada, lhe arrasta a asa. A vida de Abe transforma-se subitamente quando, por mero acaso, ele ouve a conversa de uma mãe desesperada com a ideia de perder a guarda do filho devido à influência do juiz Spangler (Tom Kemp). Nesse momento, Abe decide fazer justiça pelas suas próprias mãos – cometendo o crime perfeito – e paradoxalmente reencontra a alegria de viver.

Apesar da reciclagem da mesma fórmula, o velho cineasta à beira dos 80 consegue provar uma vez mais que cada filme seu tem um valor distinto – e um valor mínimo garantido. Como? Construindo personagens robustas (que permanecessem interessantes mesmo se isoladas do seu enquadramento narrativo), escolhendo actores competentes e não descuidando o subenredo e os aspectos técnicos (em particular, a música e a fotografia). A direcção de actores e simplicidade do argumento (que habilmente insere uma narrativa bastante linear num contexto estimulante e sinuoso) são os trunfos do filme. Joaquin Phoenix consegue mais um trabalho de excepção com uma personagem neurótica e niilista (seria interessante vê-lo um dia num papel normal). Mas se a presença introvertida de Joaquin Phoenix não poderia desapontar, Emma Stone continua a atestar o seu particular talento para a comédia – um tanto auxiliado pela sua fisionomia caricata, de sorriso trocista e olhos demasiado grandes. A fotografia de Darius Khondji, de tons quentes e outonais, equilibra na perfeição o tom algo sombrio do argumento, integrando-o nos belos cenários naturais de Newport. No ambiente universitário em que desenrola a trama, move-se um elenco secundário muito interessante (que uma vez mais WA não negligenciou), em especial a lindíssima e talentosa Parker Posey no papel de Rita, o terceiro vértice do triângulo amoroso.

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Abe, a personagem central, é o cameo personalístico de WA: pessimista, com elementos da “fase Bergman” apaladados por traços trágico-cómicos, enredado nas costumeiras obsessões e impasses vivenciais, a destilar as suas angústias na discussão dos filósofos existencialistas. Mas curiosamente, e à semelhança do que vem acontecendo desde Match Point (2005), os trejeitos comportamentais tão característicos das personagens masculinas de WA foram transferidos para a protagonista feminina (Jill/Emma Stone), que acaba por ser responsável pela dose de leveza e comicidade da narrativa.  Ao observar o par de protagonistas, dir-se-ia estarmos perante mais um cliché literário e cinematográfico, mas WA prova que assim não é. A relação mestre-aprendiz, mantendo a aura de ligação proibida, reveste-se aqui de uma paridade e frescura difíceis de encontrar e funciona como dispositivo de um volte-face surpreendente.

Irrational Man não é uma comédia ligeira nem um dos filmes menores do realizador. É certo que não é a surpresa que foi Match Point ou o assombro dramático que foi Blue Jasmine, mas mantém-se fiel à sua visão pessimista do mundo colmatada por um humor agridoce e muitas vezes corrosivo, a uma assinatura inconfundível (que experimentamos nas sequências de abertura, no recurso à voz do narrador, nas referências literárias e musicais ou nos finais precipitados e reflexivos), a uma subtileza intelectual sempre desafiante e a um estilo que se reitera na novidade: um registo auto-referencial que, alterando personagens e cenários, debate as mesmas problemáticas, colocando questões que permanecem sem resposta (neste caso, a racionalização do crime ou os limites da moral). Talvez por isso WA continue a filmar, e o público a ver os seus filmes. Talvez por isso seja sempre aguardado com expectativa e sobreviva sem sequelas às críticas mais negativas. Talvez seja isto que define o cinema de autor.

7,5estrelas

Texto por Edite Queiroz

Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

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