Hamlet: do BarbicanTheatre em Londres para Lisboa, em estreia nacional

Hamlet: do BarbicanTheatre em Londres para Lisboa, em estreia nacional

hamlet

15 de Outubro de 2015. Eram perto das 19h00 e a sala estava repleta. As salas. Em Lisboa, nos UCI Cinemas e no Barbican Theatre em Londres.

Uma pequena entrevista antecedeu a peça de teatro. Benedict Cumberbatch revela que acha que todos os actores estão destinados a desempenhar o papel de Hamlet um dia. Porque há nele todas as características da humanidade. Ter um filho aguçou a necessidade desta interpretação que abraçou a medo, mas consciente da tarefa que tinha pela frente: mais uma encenação de uma das peças mundialmente mais conhecidas de Shakespeare. Uma que se diferenciasse das milhares de outras que todos os dias, alguém nalgum canto do mundo interpreta e profere a imortal to be or not to be, that is the question. E aqui não pouparei o relato da peça…quer dizer… é impossível que ainda não tenham ouvido falar, pelo menos, de alguns dos pormenores. Morre toda a gente no fim. Bem, nem toda.

A peça começa sem as pancadas de Molière mas com um cenário absolutamente incrível. Hamlet, pesaroso junto dos despojos do seu pai assassinado, não compreende como pode a mãe, a rainha Gertrude (numa interpretação absolutamente irrepreensível de Anastasia Hille, uma ilustre desconhecida por estes lados do oceano), um mês, apenas um mês depois, partilhar a mesa, o trono e o leito com o seu desprezável tio Claudius (nem mais nem menos do que  o senhor que veio de Belfast, Ciarán Hinds, mais conhecido hoje em dia como Mance Rayder, de Game of Thrones, mas também do premiado There will be blood, de PT Anderson ou Munich). Já no papel de Claudius, Ciarán peca pela utilização de um estranho sotaque vitoriano, demasiado próximo do overacting que acaba por não fazer jus à personagem tão maquiavélica (talvez a pior) desta notável peça de Shakespeare.

E a primeira música que soa? Nature boy, de Nat King Cole.

There was a boy,
a very small enchated boy.
They say he wandered very far, very far,
over land and sea.
A little shy and sad of eye,
but very wise was he.

And then one day.
One magic day he came my way.
And as we spoke of many things,
fools and kings,
this he said to me.
The greatest thing you’ll ever learn
is just to love and be loved in return.

Embrulhado no seu monólogo, é interrompido pelo seu amigo de sempre, Horatio (interpretado por Leo Bill, conhecido por Millenium I e Alice no País das Maravilhas e aqui no papel do hipster amigo do príncipe da Dinamarca), que o vem saudar pelo casamento e pesar pela morte.

Assim que chamado para o jantar, o cenário transforma-se numa experiência visual inebriante. A solução não passa por muito: um mesa bem cuidada, umas escadas com um varandim, um candelabro gigante e magnífico e uma porta para o exterior. Dito assim, parece quase um casebre. E que tal assim?

behind

Não, não será propriamente possível descrever a imagem conseguida, terão que confiar na minha palavra escrita. Os monólogos de Hamlet são quase que magnéticos, Cumberbatch grita, esperneia, oscila entre o cómico e o irado, fugindo um pouco do original algo controlado e taticista, que cuidadosamente planeia a vingança da morte do seu pai.

Não, não há nada de sereno ou cínico neste Hamlet, está tudo à flor da pele. O conflito permanente entre o ser e o dever ser e um desejo de vingança que transpira cada poro. Mesmo quando aparece com uma t-shirt de David Bowie e um casaco, demasiado idêntico ao usado pelo camaleão no seu Earthling, mas em versão negra onde se lê King, ironia é-lhe natural, como se fosse o papel que sempre desempenhou, confortável que estava naquela roupagem.

Em todas as fases, a descoberta do vil assassinato do pai, a traição da mãe, o gozo com Claudius na tentativa de o desmascarar, o exílio, o regresso, a descoberta do suicídio de Ophelia, o duelo, a morte da mãe, de Laertes e a morte, pela sua espada, de Claudius, até à sua própria morte, tudo é perfeito, deliberadamente exagerado, irónico, cómico, angustiante. Tudo o que as dúvidas perante nós próprios quando nos olhamos ao espelho, tudo o que acontece quando nos confrontamos com o nosso sentir e o nosso ser está ali, na intepretação de Benedict.

O amado Polónio (Jim Norton) assume um papel menos relevante e menos dócil do que no escrito (que confesso, já me vai falhando a memória, já passaram 22 anos sobre a sua primeira leitura), confrontando sistematicamente Hamlet, opondo-se efusivamente a qualquer relação ou contacto com a doce Ophelia (Sian Brooke, um verdadeiro erro de casting no meio de tão boas interpretações… demasiado mortiça no cliché de quem enlouquece quando perde quem ama).

casa destruída

Já o seu irmão Laertes (Kobna Holdbrook-Smith), o fiel amigo de Hamlet, que o tenta envenenar depois de descobrir que matou o seu pai (vá, toda a gente sabe a história da cortina e do punhal, ninguém mandou Polónio andar a esconder-se pelo palácio), tem uma interpretação inicialmente interessante, que rapidamente passa a uma quase histeria rígida, de olhos esbugalhados até à morte. A partir da 2ª parte, aliás, pouco consegui concentrar-me em algo que não fossem os seus olhos demasiado esbugalhados e o corpo rígido, sem se mexer, nem quando se virava – virava todo o corpo.

E o Rei Hamlet.

Karl Johnson faz reaparecer um fantasmagórico e assustador rei que exige a sua vingança e a impõe ao seu filho, selando-lhe um destino de raiva, ódio e morte. E o jogo de luzes, a projecção de uma voz que encheu a sala de Londres a Lisboa, quase me fez acreditar que há mesmo um destino e contra ele nada podemos fazer. Uma caracterização notável de um rei morto que, na segunda parte se transforma num coveiro inenarrável que despreza a vida quase tanto como despreza os mortos que lhe passam pelas mãos: os que não têm direito ao enterro abençoado.

Brilhante nos dois papéis, com Cumberbatch e Anastasia Hille formam a tríade perfeita de uma peça eterna.

No final, a imagem desoladora, num cenário igualmente desolador. A morte que chega a cada um: pelo amor não correspondido, pela vingança, pela ganância, pela traição ao amigo de infância. A morte que cada um infligiu a si mesmo. E um pedido, que a história seja contada. Sobrevive o mensageiro. Até hoje me questiono se na sua distopia, Shakespeare acreditava que a humanidade podia mesmo ser salva.

gertrude

Nesta peça que manteve todo o tempo cenários incríveis e uma banda sonora rigorosamente escolhida e adequada a cada momento da peça, está de parabéns Lindsey Turner, a encenadora, e Sonia Friedman Productions pela luz, os figurinos, o cenário, o som, a música.

No fim, Cumberbatch, antes da apoteose do agradecimento, pede, ali em Londres, que ninguém se esqueça dos refugiados sírios. Porque faz parte do ser não nos esquecermos de todos os que são e de sermos com eles. E agora desculpem-me. Vou reler Hamlet. The rest is silence.

Lúcia Gomes

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