A Uma Hora Incerta + Coro dos Amantes

A Uma Hora Incerta + Coro dos Amantes

A Uma Hora Incerta

Carlos Saboga é o argumentista de algum importante cinema português dos últimos anos. Eis alguns títulos: Jaime, Mistérios de Lisboa ou Linhas de Wellington. Depois do relativamente despercebido Photo, A Uma Hora Incerta é apenas a segunda aventura na realização. E, curiosamente, a principal falha está talvez no argumento.

A Uma Hora Incerta II

O filme é mais um a revisitar a memória histórica do salazarismo, no caso em plena II Guerra Mundial. Fá-lo de uma forma particular e quase assombrada. . Temos um polícia (Paulo Pires), uma mulher em estado vegetativo e uma filha adolescente endiabrada. E ainda um aterrador colega da guarda, uma empregada jovem e dois refugiados franceses. É com estes condimentos, com quase tudo a decorrer na mesma vivenda, que se passa a acção.

Há o sofrimento em silêncio, o desejo de emancipação, o instinto de sobrevivência. Há conteúdo a mais para tão pouco tempo (A Uma Hora Incerta tem pouco mais que uma hora) e isso vira-se contra o filme. Curiosamente, algo do género já tinha sucedido com Linhas de Wellington, com demasiadas personagens, a que faltava alguma espessura dramática.

A Uma Hora Incerta I

A narrativa atropela-se e fecha de uma forma abrupta, sem saber jogar devidamente com o fatalismo que convoca. Há aspectos interessantes. A jovem Ilda é uma personagem com alguma graça e há uma atmosfera de bruma ditatorial muito bem exposta naqueles discursos de Salazar, ouvidos por quem não os deverá poder ouvir. Ou seja, pela mãe acamada e envolta numa estranha ausência.

Um filme com uma narrativa inconsistente, mas que se vê sem grande esforço. Graças ao formalismo e à revisitação particular da memória histórica portuguesa, apesar da ausência quase total de história, Tabu foi capaz de exaltar a crítica especializada. Se é assim, podemos pensar apenas pelo prisma da descrição assombrada do Estado Novo e apelidar A Uma Hora Incerta de filme simpático.

5

Coro dos Amantes

A projecção de A Uma Hora Incerta é complementada com a curta Coro dos Amantes. Uma mulher com um ataque súbito de falta de respiração e um marido desesperado (Isabel Abreu e Gonçalo Waddington). Uma metáfora sobre o tempo. O que temos e o que não temos. Tela dividida, muitas vezes com os dois protagonistas lado a lado, e uma bela fotografia. Diálogos muito mais espirituais do que reais. Uma ideia simples (será?) e que se adequa na perfeição ao formato de curta. Evita, assim, uma longa-metragem que se poderia arrastar, desperdiçando os aspectos mais positivos do filme. Até porque  nem todos todos conseguem sacar, a partir da simplicidade narrativa, a força e a intensidade dramática de um Alice.

Texto por João Torgal

João Torgal