Catacombe no Sabotage Club (24/10/2015)

Catacombe no Sabotage Club (24/10/2015)

#14 Catacombe

Sejamos honestos: nos dias que correm o post-rock (e digo post-rock para não me engasgar na verborreia de rótulos) não está no apogeu da criatividade, e poucas são as bandas que ainda são capazes de nos surpreender e fazer engolir em seco. No entanto, um disco ou concerto de post-rock é sempre a promessa de um tempinho bem passado. É fechar os olhos, desligar o cérebro e apreciar a viagem.

São Pedro sintonizou as frequências certas e foi debaixo de nuvens e chuviscos que no sábado passado fomos até ao Sabotage Club, em Lisboa, para uma noite onde nem um amplificador escangalhado (para usar uma expressão da minha avó) convenceu os lisboetas Then They Flew a darem por terminada a sua lição de vôo. O que até então parecia ser apenas mais uma ode aos Explosions in the Sky, transformou-se, depois de imitarem baleias com as guitarras – devia ter gritado “Free Willy!” -, em algo mais sanhudo, e acabaram bem, com força. São recentes e estão no bom caminho – só lhes falta um bocadinho de garra.

Mais do que competente, Kinetic já tinha o suficiente para colocar os Catacombe no atlas do post-rock, mas é mesmo com Quidam, do ano passado, que provam que não querem ser só os Deus é um Astronauta versão tripeira. São discretos, não precisam de parecer lenhadores, nem de cobrir o corpo com tinta como se as suas vidas dependessem disso. Limitam-se a levar um candeeiro meio Kitsch para o palco e “está feito”. Quanto ao que realmente interessa, a música: o diabo está bem escondidinho nos detalhes.

Sem cerimónias nem “rituais”, o concerto foi do mais despretensioso possível, como se estivessem ali a tocar só para os amigos. Apesar de curta, a actuação da banda permitiu-nos revisitar-lhes a discografia e ainda ficar a conhecer um tema novo. Acabaram da melhor forma, com a Cláudia Andrade – “umas das pessoas mais espectaculares que conheço”, dizia Pedro Sousa, o guitarrista – a juntar-se a eles para cantar aquele que é talvez o tema mais bonito no reportório dos Catacombe, “Lolita”.

Foi giro ver os Eyehategod a vomitar pessimismo, também vai ser giro dar uma de bicho do mato e ir, de capuz na cabeça, ver os This Gift is a Curse castigarem-nos os ouvidos. Sim, aprecio isso tudo. No entanto, também é agradável estar descontraído num ambiente simpático a conviver com outras pessoas e ouvir música. O que se passou no Sabotage foi exactamente isso: pessoas a passar um bom bocado num sábado à noite.

Ricardo Almeida

Nasceu em 89, não gosta de futebol e tem Demis Roussos como líder espiritual.