Iron & Wine na Casa da Música (02/11/2015)

Iron & Wine na Casa da Música (02/11/2015)

#2 Iron & Wine

Fotos por Gustavo Machado

Duas guitarras, uma mesa, um palco completamente despido de adereços e um único foco de luz. Foi neste ambiente intimista e minimalista que Sam Beam, voz e corpo do projecto Iron & Wine se apresentou pela primeira vez no Porto, depois de ter feito a sua estreia em palcos lusos no dia anterior, em Lisboa.

Embora toda a atmosfera da sala estivesse propícia para a monotonia e melancolia, este simpático norte-americano tratou de quebrar os habituais clichés dos espetáculos a solo com um humor certeiro e uma invulgar abertura para receber sugestões da plateia. Primeiro pedido: “Such great heights”, tema que tinha ficado fora do alinhamento da capital, e que talvez por isso tenha sido tão prontamente solicitado. Num (como sempre) bem humorado momento, Sam troca as voltas a si mesmo e inicia o concerto com um tema novo, e só depois apresenta a canção que escreveu para The Postal Service, dando-lhe uma roupagem diferente da original, e também diferente da sua própria versão.

Essa reinvenção musical foi uma constante ao longo de todo o concerto, com arranjos novos para quase todas as músicas, que foram sendo resgatadas dos vários registos de Iron & Wine, com destaque para as adaptações de Jezebel, Woman King e da “assustadora” (palavras do próprio) versão de Lovers’ Revolution.

Sam Beam é o exemplo perfeito da simpatia e não deixa passar nenhuma oportunidade de conquistar a plateia pelo sorriso (já que pela música consegue conquistar todos ao fim dos primeiros acordes). Elogiou o vinho português, agradeceu repetidamente a presença de todos, e parecia genuinamente intrigado e surpreendido pelo silêncio que reinava na sala, apenas quebrado pelas vozes menos tímidas que iam disparando nomes de temas para Sam cantar. E Sam sorria, pedia ironicamente mais silêncio com um “shhhh” provocador, e cantava com uma voz capaz de encher a sala.

Momento sublime do concerto quando é dada vida a Trapeze Swinger. Sete minutos de um homem, uma guitarra e uma história contada e cantada a plenos pulmões perante uma plateia imóvel e deliciada com tamanha entrega, e a prova final de que estávamos perante um enorme cantautor indie-folk. O desfile de êxitos continuou com Naked as we Came, Lion’s Mane e Boy with a coin, terminando com Passing Afternoon.

A primeira despedida de Sam Beam foi breve, tendo regressado para um breve encore a fechar brilhantemente o concerto com um sublime momento de contemplação. Flightless Bird, American Mouth cantada quase “a capella”, polvilhada apenas com uns toques ocasionais na guitarra, por um músico de mão cheia que saiu de palco com a sala de pé a aplaudir uma hora e meia de excelente música.

Gustavo Machado