Zola Jesus no Musicbox (03/11/2015)

ZolaJesus

Não deixa de ser curioso quando um disco que julgamos precipitado ganha novos contornos ao vivo e quando, ao invés, temas que pensamos inabaláveis têm direito a uma questionável versão easy-listening. O bom tornou-se mau e o mau ficou bom? Não tão extremo, mas algo do género.

Para já, a primeira parte. Depois do que se viu em Cat Power, qualquer abertura é melhor. Com esse espírito, Melhor Amigo confirmou a expectativa. Mas talvez nao só. O duo conta com uma parte instrumental interessante, com teclados lentos, densos e tensos e uma percussão semi-tribal (e uns pozinhos de guitarra no último tema). Um som nocturno, mas melódico, completado com a urgência das palavras do vocalista António Pedro Lopes. Até aqui tudo bem. Os problemas surgem com uma certa teatralidade excessiva, uns falsetes duvidosos e uma tentativa falhada de humor na comunicação com o público (a recriação de uma queda antiga no Musicbox foi só ridícula). Há comparações com Jay Jay Johansson. Percebe-se.

Não se está muito longe da verdade se se disser que Taiga, o último disco de Zola Jesus, poderia andar entre uma certa electrónica de eurovisão, música pop à Taylor Swift ou Rihanna (por quem Zola manifestou admiração) e um gótico mau à Evanescence. Poderia, mas não anda. Não anda porque há, em disco e muito mais ao vivo, uma capacidade de acumular vestígios maus e fazer disso uma coisa boa.

Ouve-se em disco “Dangerous Days” e “Hunger”. Aquelas batidas óbvias. Aquele toque de estrela pop barata, mas sem refrões catchy. Só que ao vivo, algo muda. Há uma complexidade electrónica bem maior do que se imagina. E o trombone, que “substituiu” o violino do concerto do Alive 2012, dá uma dignidade e um tom solene que não há nesse tipo de hits chapa quatro. O resultado é, pelo menos no caso de “Hunger”, um viciante… tema pop. E toca a ouvi-lo outra vez em estúdio.

Mais do que uma cantora, Zola Jesus é uma performer. Vestida de preto, com o cabelo a tapar-lhe frequentemente os olhos, Nika Danilova (o verdadeiro nome da cantora) tem um ar quase sinistro e provocatório. E deambula pelo palco, ergue-se junto de uma coluna e percorre a plateia do Musicbox, enquanto interpreta um alinhamento muito assente em Taiga. Há, antes da explosão sonora, vestígios de Julianna Barwick (pequeninos) nas vozes com que arranca o concerto. Há um breve e simbólico momento a capella e sem amplificação (com o devido silêncio) no arranque de “Nail”. E, numa onda muito mais pop, há pormenores do sopro, das electrónicas e da percussão que aproximam a música de Zola da claustrofobia quase marcial de uns These New Puritans.

Curiosamente, um dos momentos menos conseguidos foi no regresso a Stridulum. Não em “Night”, um dos temas mais celebrados pelo público, mas em “Sea Talk”. Uns teclados luminosos e o falsete final cheio de azeite retiraram a devida carga dramática ao tema. Inversão de papéis e desta é que não contávamos. Mas nada de mais…

No encore, dupla visita a Conatus e algo bem diferente do que se ouviu antes. Primeiro “Skin”, uma lenta e melancólica balada ao piano, sem artifícios sonoros e com uns pozinhos de trombone. Para o fim, a maior acidez electrónica de “Vessel”, fechada em grande estilo com catarse de percussão.

Ainda com os ecos do fim-de-semana, se Cat Power fez das forças fraquezas, talvez Zola Jesus tenha feito o oposto. Não desiludiu, não aborreceu e, pese embora alguns falsetes duvidosos e um disco menos  interessante, conseguiu surpreender e confirmar as óptimas impressões do concerto de 2012.

João Torgal