DocLisboa’15: My Talk with florence

DocLisboa’15: My Talk with florence

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My Talk with Florence não é exactamente um documentário. É um filme-entrevista onde o realizador, Paul Poet, conversa com a mulher do título. Na verdade, trata-se de um monólogo orientado durante o qual Florence conta a sua história, uma história de abuso e de sobrevivência. Uma história que remete para tantas outras por esse mundo fora.

Embora a conversa não se debruce apenas nisso, grande parte do depoimento de Florence centra-se nos anos em que o seu caminho se cruzou com o de Otto Mühl. Também conhecido por ter sido um dos percursores do Accionismo Vienense (movimento caracterizado pela utilização do corpo como principal matéria da arte contemporânea, mas também pela transgressão e violência), Mühl fundou e dirigiu uma espécie de seita organizada em torno da sua figura – a Comuna de Friedrichshof – onde era cultivada uma forma alternativa de viver baseada no amor global, na propriedade livre, na terapia pública e na criação artística colectiva. Mühl acreditava que a abolição da figura do casamento ou das ligações amorosas exclusivas era o fundamento necessário para uma nova sociedade, baseada no sexo livre e na educação colectiva dos filhos. Contudo, a tal liberdade sexual apregoada por Mühl era sujeita a uma quantidade incrível de imposições (a grande maioria funcionando em seu proveito) que ao longo dos anos se foram acumulando em quantidade e bizarria. Para além disso havia medo, discriminação e violência física e psicológica. Na década de 80, as tensões dentro da comuna aumentaram, numa altura em que Mühl começou a desinteressar-se pelas mulheres e a centrar a sua atenção nas suas filhas adolescentes e ainda crianças, relativamente às quais ele decretou o seu direito à primeira-noite. O líder autoritário de Friedrichshof acabou por ser acusado e julgado em 1991. Depois de cumprir a pena de 7 anos a que foi condenado, isolou-se com a elite da comuna no Alentejo, onde reproduziu o modo de vida de Friedrichshof e onde viria a falecer em 2013. Não sabemos ao certo quantos dos seus seguidores habitam ainda no Alentejo. A vida em Friedrichshof é alvo do documentário Slaves in Paradise (Madonna Benjamin, 1999), que será um bom complemento à história aqui contada.

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Florence procurou Paul Poet durante uma altura em que este preparava uma performance. Contou-lhe que tinha vivido durante cerca de 10 anos na Comuna de Friedrichshof, tendo o seu contributo sido fundamental no processo judicial onde Otto Mühl fora condenado. Apesar de não ter sido uma testemunha directa (o juiz não autorizou o seu depoimento), Florence acusou a própria filha de falso testemunho – a criança tinha-lhe sido tirada pela comuna e sexualmente abusada por Mühl. No entanto, mesmo após a condenação de Otto Mühl, apenas uma pequena parte dos acontecimentos foi tornada pública. Florence lutou durante 20 anos para contar a sua história, contudo – possivelmente devido ao estatuto de Mühl na Áustria enquanto artista respeitado – ninguém a tinha ouvido até agora. Florence encontrou em Paul Poet o veículo para mostrar ao mundo a sua versão dos acontecimentos.

Antes de conhecer Otto Mühl, Florence tinha já uma vida muito difícil; sem estrutura familiar, tinha passado por diversos internamentos em instituições psiquiátricas e há muito que vivia à margem da sociedade, sem emprego fixo, sem tecto e sem dinheiro. Havia uma experiência repetida de abuso e privação que terá potenciado o seu fascínio com Friedrichshof (onde era apresentada uma alternativa de organização social com a qual se identificava) e mais tarde o seu envolvimento e conivência com as regras de funcionamento da comuna. O sofrimento provocado pelo afastamento forçado dos filhos foi a gota de água; acabou por fugir e veio a casar-se com o braço-direito de Mühl, que abandonou a comuna com ela. Começou nesse momento a grande batalha pela exposição dos terrores vividos em Friedrichshof. Pelo seu envolvimento no julgamento, ela é a única pessoa que não recebeu qualquer pagamento do fundo monetário de Friedrichshof após Mühl ter sido julgado (todos os envolvidos receberam pagamentos, não tanto como forma de compensação pelos abusos de que foram alvo, mas pelo silêncio sobre grande parte dos acontecimentos).

Talvez Florence esteja agora perto de conseguir livrar-se dos demónios do passado, ou pelo menos de os arquivar naquele recanto inacessível à memória. A história que ela conta não é exactamente linear; não se justifica demasiado, excepção feita à passividade na época em que os filhos lhe foram tirados. Há no seu discurso relatos velados, incongruências e afectos contraditórios, como se a sua narrativa interna não estivesse ainda completamente consolidada. Há uma espécie de sentimento de amor-ódio pela comunidade que a acolheu quando mais precisava, e que mais tarde tanto a feriu. Quanto a Mühl, subsiste um sentimento de fascínio e de repulsa. Mas surpreendentemente, o passado não a transformou numa mulher amarga. É alegre, jovial e está disposta a recuperar o tempo perdido. Tenta ainda hoje aproximar-se dos seus três filhos, todos eles marcados pela terrível experiência de Friedrichshof – e lentamente está a conseguir. A conversa com Paul Poet, que deu à sua história a visibilidade há tanto ansiada, foi uma peça fundamental nesse processo. Este é o seu manifesto e a sua catarse.

Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

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