LEFFEST - A Lei do Mercado (La loi du Marché)

LEFFEST – A Lei do Mercado (La loi du Marché)

La loi du marché

Muito diferentes do ponto de vista formal, A Lei do Mercado e Anomalisa têm traços em comum. Passam por ambos os filmes os conceitos de produtividade, desumanidade ou de um mundo liderado pelos recursos humanos. Só que enquanto Kaufman recorre à fantasia, Brizé fá-lo de uma forma real. Cruamente real.

Thierry é um lutador. Luta contra as dificuldades financeiras e contra a consciência. Muitas vezes em simultâneo. E é logo fortíssima a primeira cena. Estamos numa espécie de IEFP. Desempregado, Thierry questiona porque foi posto a fazer um curso inútil, que não lhe garante qualquer empregabilidade. O funcionário não lhe consegue dar grandes explicações. É a inutilidade burocrática a funcionar? Uma lógica estatística? Não estamos, definitivamente no mundo da ficção.

A Lei do Mercado

A Lei do Mercado é um filme lento e minimal. Primeiro acompanhamos o desespero deste homem e da esposa. Com um filho deficiente (outro lutador), tentam de tudo para não pôr em causa o percurso escolar do adolescente. Depois, o emprego como vigilante de uma grande superfície comercial. E todas as cenas, desde a escola até à entrevista por skype, passando pelos interrogatórios no local de trabalho, têm uma força dramática poderosa.

Não há bons e maus. Não há personagens planas e em todas elas conseguimos sentir uma força exterior que as ultrapassa. E depois o simples olhar do actor Vincent Lindon transporta-nos imediatamente para o drama financeiro e psicológico da personagem. É um extraordinário desempenho e não foi por acaso que Lindon venceu o prémio de interpretação em Cannes.

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A Lei do Mercado chega ao LEFFEST um ano depois de Dois Dias, Uma Noite, dos Irmãos Dardenne. Dois retratos sobre a desumanização, que equacionam as sociedades contemporâneas e o nosso papel no mundo. O filme de Brizé não tem um desenlace tão imaginativo, mas fecha com força, com uma subtil, mas profunda convicção. E, enquanto saímos da sala a pensar no que vimos e no que somos, vamos sendo embalados pelo maravilhoso Black Sands, de Bonobo.

8estrelas

João Torgal