LEFFEST - competição oficial

LEFFEST – competição oficial

11 minutes

11 minutos foi o principal vencedor da edição deste ano do LEFFEST. O filme do veterano realizador Jerzy Skolimowski é uma espécie de turbo mosaico. Tudo se passa em apenas 11 minutos. É aí que mais de uma dezena de personagens, entre um hotel, um autocarro, uma ponte, um posto de venda de cachorros ou uma ambulância, se encontram. Não há objectivos realistas e isso fica claro na magnífica sequência final. Pode não ser um grande filme e demora um pouco a agarrar, mas essa criatividade torna-se, no caso, numa das mais-valias . Até porque a tensão é permanente (tal como acontecia com “Essential Killing”, o último filme de Skolimowski), joga muito bem com os silêncios e tem uma montagem que vai combinando com aprumo os diferentes cenários.

The_Childhood_of_Leader

Nas longas-metragens, os dois restantes prémios foram para a comédia francesa Chant d’Hiver (não vimos) e para The Childhood of a Leader. Como actor, Bradly Corbet tem feito alguns filmes magníficos que têm, em comum, o facto de mostrar um lado mais perturbador e irracional da condição humana. Pense-se em Martha Marcy May Marlene, Simon Killer ou Força Maior. Na estreia como realizador, Corbet envereda por caminhos igualmente sinistros. Este é um ensaio sobre a infância de um ditador, uma espécie de filme distópico sobre um futuro que, na verdade, se encontra no passado (a caminho da II Guerra Mundial). The Childhood of a Leader é um filme de fantasmas, de actos de pequena crueldade (não só da criança), de atitudes de desespero, de um espírito malévolo (uns toques de Kevin, do filme de Lynne Ramsay), mas que, para o reforçar, não abdica de um certo humor negro, como na história do leão e do rato. Tudo “embalado” pela música aterradora de Scott Walker. Uma boa personagem, com uma óptima interpretação do pequeno Tom Sweet, numa estreia que mostra que há um realizador promissor por detrás de um belíssimo actor.

Mother Earth

Finalmente, o leque de vencedores encerrou como começou. Na Polónia, com a curta Mother Earth. Uma relação potencialmente destrutiva e sinistra (será a palavra-chave dos galardoados deste ano?) entre um pai e um filho, simbolizada metaforicamente pela matança de animais a que ambos se dedicam.

Room-2015-Lenny-Abrahamson-02

Deixando para trás os prémios, vimos outras coisas na competição oficial. Comecemos por The Room,  do realizador de Frank, Lenny Abrahamson. É um filme de cativeiro, de fuga e de superação. Quando está na claustrofobia da cabana, onde uma mãe e um filho de cinco anos estão aprisionados, tem momentos poderosíssimos. Especialmente porque joga bem com o facto desta criança não conhecer mais nada a não ser aquele ambiente. Nesse aspecto, entramos na cabeça de Jack quando ele não distingue o que é real da ficção televisiva. Depois, segundo a perspectiva da descoberta da criança (do céu para tudo o que vê pela primeira vez), a parte da fuga é maravilhosa. Só que, quando The Room se liberta, quando abandonamos o pequeno cosmos da cabana e penetramos no mundo tal e qual o conhecemos, parece que o filme se perde. Entra num caminho excessivamente lamechas, muito à melodrama televisivo, e desperdiça algumas pontas soltas, como o drama psicológico dos avós (a personagem de William Macy tem uma cena forte e depois desaparece). Um filme com duas partes distintas que, no fim, acaba por saber a pouco. Ainda mais se nos lembrarmos do tremendo e perturbador Michael, do austríaco Markus Schleinzer.

Montanha Salaviza

Passamos para o cinema português. E não faltarão vozes a dizer que Montanha é um produto típico do cinema português. Algo profundamente injusto. Não para o filme, mas para a produção nacional. Porque chega de criar e aprofundar estes estereótipos, ainda que haja quem insista em fazer este cinema morto. Já vimos este filme muitas vezes. É a história do bairro social e de um jovem à deriva. Ou a história do bairro social que é abalroada por um formalismo cinematográfico muito aborrecido (esqueçam qualquer comparação com o magnífico “Sangue do Meu Sangue” ou, até, com “Os Mutantes”). Planos lentíssimos, diálogos arrastados e personagens cuja espessura dramática se perde na ausência de narrativa, de ritmo ou interesse (estilo Pedro Costa). Ainda que muita lenta (o que não é um problema à partida), a anterior curta-metragem de Salaviza, Rafa, tinha algum fôlego nesse lado negro e underground da Lisboa para lá dos postais turísticos. Ora Montanha é uma curta transformada erradamente numa longa-metragem. E, a meio, chegamos a ter o seguinte pensamento mórbido: “Matem lá o avô”. Só para ver se acontece alguma coisa. E é aí que percebemos como, apesar da narrativa atabalhoada, é tão melhor ver o último filme de Carlos Saboga. Pelo menos tem uma coisa chamada chama.

la-academia-de-las-musas

De Portugal para Espanha, Academia de Musas é um acumulado de aulas teóricas e práticas de uma disciplina de filosofia que aborda o papel da mulher e que entra, aos poucos, na vida privada do professor. Passa pela beleza literária, pelas sociedades patriarcais, pela emancipação feminina, pela liberdade sexual e espiritual ou pelos limites da experiência pedagógica. Mistura o espanhol com o italiano e viaja até aos sons guturais da Sardenha e à poesia de Nápoles. Tem silêncios e cortes abruptos e, por vezes, parece que, em vez de num filme, estamos num aula em videoconferência. Só que o programa é extenso, a matéria é complicada e não podemos tirar dúvidas.

João Torgal