Reflexão sobre Paris

Reflexão sobre Paris

Paris-Peace

O serão da passada sexta-feira era para ter sido passado num concerto (mais um entre tantos concertos a que assistimos anualmente), mas deixei Unknown Mortal Orchestra esgotar.

Ao contrário de mim, 1500 pessoas encheram a mítica sala Bataclan, que tem sido palco ao longo das últimas décadas de concertos que ficarão para a história, como Jeff Buckley, Lou Reed & John Cale ou Cesária Évora. Desta vez, havia concerto dos despretenciosos Eagles of Death Metal: a banda de blues rock mais divertida do planeta nasceu na Califórnia e é formada por Josh Homme e o amigo de infância Jesse Hughes. Esta tour, que não contava com Homme por compromissos com outros projectos, terminaria dia 10 de Dezembro em Lisboa, para um concerto igualmente esgotado.

A calma de sexta-feira à noite foi subitamente interrompida pelas notícias que dominaram o resto do fim-de-semana: a informação que chegava sobre ataques em Paris era confusa, falava-se de ataques múltiplos em vários locais. Numa esplanada e num concerto. E depois bombas no França-Alemanha enquanto o jogo decorria. O quê? A gravidade da situação não foi imediatamente perceptível: a informação chegava demasiado depressa e demasiado confusa para ser digerida. Até que os contornos começaram a ficar mais nítidos e a notícia de que os terroristas tinham entrado no Bataclan, interrompido o concerto dos Eagles of Death Metal e feito reféns todos os que estavam lá dentro parecia um pesadelo digno de um filme de super-heróis, mas infelizmente com a certeza que não havia nenhum Sylvester Stallone prestes a chegar e matar os maus. E tudo se torna muito pior quando te lembras que tens amigos ou família que vivem em Paris e de quem procuras desesperadamente saber. Até porque de certeza que uma dessas pessoas podia estar a jantar naquela esplanada, a ver aquele concerto ou a ver o jogo de futebol no estádio: um conjunto de situações vulgares de uma rotina normal.

Os ataques de Paris tocaram-nos na pele: se lá estivéssemos, de certeza que estaríamos naquele concerto e poderíamos não ter conseguido escapar ilesos. Não sabemos o que é estar na presença de alguém que abre fogo indiscriminadamente sobre uma multidão, mas sentimos os olhos a humedecer quanto tentamos imaginar esse cenário. Pensar em 1500 pessoas nas mãos de assassinos. 1500 pessoas como nós, melómanos, que aproveitaram a sua sexta-feira para desfrutar da música, um dos elos de ligação mais poderosos do mundo. Entre eles estavam repórteres musicais, a fazer o seu trabalho: promover a vibrante cultura de Paris. Fazer aquilo que nós fazemos todos os dias, mas noutra cidade. Entre eles estava também Nick Alexander, apaixonado roadie de várias bandas e a quem provavelmente muitos de nós já compramos uma t-shirt num concerto qualquer. E é por todos eles que escrevemos hoje. Porque também acreditamos no poder da música, na importância de a divulgar e de a fazer chegar a mais e mais pessoas. É a música que nos une. E é por todos os que morreram a fazer algo de que tanto gostavam que escrevemos hoje e que continuaremos a escrever. Jamais deixaremos de ir a um concerto e recusamo-nos a olhar por cima do ombro. Não teremos medo. E por vós continuaremos a colocar profissionalismo naquilo que fazemos. É a maior homenagem que vos podemos fazer.

Peace, Love & Rock’n’Roll.

Cláudia Filipe