Spectre, por Bruno Fernandes

Spectre, por Bruno Fernandes

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Desde que Daniel Craig pegou ao serviço como Bond que os cinéfilos se têm dividido entre aqueles que saúdam a frescura da sua abordagem mais real ao personagem e aqueles, saudosos do “camp” e do puro escapismo dos filmes de 007. Skyfall tornou-se, a meu ver justamente, o mais respeitado filme da franchise, mas em Portugal, como não podia deixar de ser, levou bofetada, porque neste cantinho, analisar cinema é bem fácil: um blockbuster, na generalidade, só é bem falado se se puder enfiar uma qualquer referência obscura a um realizador que pouca gente conhece, como se fosse uma “homenagem”. Foi por isso que The dark knight, só para dar um exemplo, levou cinco estrelas em todo o mundo, excepto, claro, da parte dos nossos lusos iluminados, que encaram o visionamento de um filme como a mesma boa disposição que podemos encontrar na cinematografia de Ingmar Bergman.

Spectre, a mais recente aventura bondiana, tem recebido o mesmo tratamento frio, e porque é um filme inferior a Skyfall, estranha-se menos. No entanto, lendo os motivos das críticas, sente-se que para a crítica nacional a ideia de Bond é a mesma que se tem dos ursinhos carinhosos: são entreténs de baixa estirpe, para se rir e se distrair, e se os filmes anseiam ser mais, abana-se o dedo. Spectre tem vários defeitos, sim, mas é realizado de forma elegante (não dói que o grande Roger Deakins tenha sido substituído pelo excelente director de fotografia Hoyte von Hoytema) e a abertura, no México, é fantástica. Outras cenas mostram que há um bom gosto estético subjacente a esta nova iteracção de Bond no século XXI e são algo que nem Martin Campbell nem Marc Foster conseguiram. O mérito é todo de Sam Mendes; continua a existir uma genuína vontade de mudar algo em Bond, mantendo aquilo de que os fãs gostam mais, algo que se verifica ainda mais neste Spectre. Há quem se queixe de que as Bond Girls são superficiais, que o filme não explora os dramas de Bond, mas de certa maneira, podemos acusar o supra-louvado Skyfall do mesmo. Uma das mulheres desse filme envolve-se com o agente inglês quase porque não tinha pedra-pomes no chuveiro e precisava de esfregar as costas e, se bem que haja uma interessante abordagem da idade de Bond, apenas o regresso à mansão da sua infância permite um pouco mais de profundidade. O que separa de facto SkyfallSpectre é o universo temático: no primeiro havia ideias bem concretas e desenvolvidas sobre o estado do mundo actual e a relação entre agentes e poderes; em Spectre tais ideias são afloradas, mas sem terem impacto na história.

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E é aqui que se devia criticar Spectre, um filme agradável mas imperfeito (e aqui haverá SPOILERS valente). Fez-se da identidade de Blofeld o grande segredo do filme, ocultando até à última, e muitas vezes com semântica, o verdadeiro papel de Christoph Waltz. Pergunto eu: para quê? A menção breve de que Oberhauser, líder da Spectre, maironetista mor da vida de Bond, é Blofeld, encontra em oo7 um “Soa bem”, e acabou. É uma revelação para fãs, mas que marca muito pouco o personagem principal. Teria sido muito mais proveitoso abrir logo o jogo: Blofeld era Blofeld, e no terceiro acto, revelando que a sua verdadeira identidade seria a do meio-irmão julgado morto do agente secreto inglês. Teria nesta saga o mesmo de impacto de “I am your father” de Darth Vader, virando tudo ao contrário, e levando a audiência consigo.

Será também polémico o final e a escolha feita por James Bond. Embora esteja bem encenada, desvirtua o ADN habitual do personagem, mas isso é coisa que não me chateia. Se 50 anos depois um dinossauro anacrónico pode continuar a surpreender, só se chateia com isso quem é jarreta.

7,5estrelas

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.