Tiago Bettencourt no Coliseu de Lisboa (14/11/2015)

Tiago Bettencourt no Coliseu de Lisboa (14/11/2015)

Tiago Bettencourt

Aconteceu no passado sábado a estreia de Tiago Bettencourt, um dos melhores letristas/poetas portugueses contemporâneos, no palco do mítico Coliseu dos Recreios, em Lisboa, depois de na semana anterior ter-se estreado também no Coliseu do Porto, depois de já consideráveis anos de trabalho a solo. Durante o concerto o próprio Tiago veio a assumir que achava uma loucura mas que o seu manager o tinha convencido a tal.

Infelizmente, pelos piores motivos, o espectáculo teve início com um momento que não tinha sido programado para o concerto, confessou o próprio músico, mas que foi movido pelos terríveis acontecimentos da noite anterior em Paris. Bettencourt apareceu sozinho em palco, notoriamente não pronto para tocar e com um semblante inverso ao do que aquela noite significava, aproximou-se do seu microfone e, após um desabafo sobre o que sentia acerca do que se tinha passado, pediu à imensidão de público que já quase lotava o Coliseu que fizesse um momento de silêncio. Apesar do natural e compreensível ruído das pessoas que ainda se acomodavam nos seus lugares provou-se ali que por vezes o silêncio na música é aquilo que mais sentimentos e emoções pode gerar.

O alinhamento do concerto contou com um percurso por todo o trabalho do músico, não se baseando apenas no seu último álbum “Do Príncipio”, passando mesmo pelos trabalhos com os Toranja, de onde se destaca obviamente a “Carta”, aquele fenómeno que bem se pode dizer ser um “Creep à portuguesa”. Dos momentos altos da noite podemos sublinhar músicas como “O Jogo” (talvez ainda melhor que “Carta”, especialmente na letra), o empréstimo de “Canção de Engate” (do Variações), “Sara” e “Morena” (as quais o público mostrou já saber de trás para a frente apesar de serem novas), “Canção Simples”, o empréstimo também de “Pó de Arroz” (de Carlos Paião) ou “Aquilo que eu não fiz”, música que Bettencourt toca actualmente por todos os que forçosamente tiveram que abandonar o país, mas que escreveu por motivos diferentes.

Pelo palco do Coliseu passaram também alguns convidados e “Se cuidas de mim” contou com a presença de Inês Castel-Branco na voz. Paulo Gonzo e Márcia deram igualmente o seu contributo com o primeiro a acabar por se perder um pouco na letra de “Maria”, num lapso bem remediado, e com a segunda num momento mais intimista somente com o Tiago em que tocaram também “A Insatisfação” (canção de Márcia).

Seguiu-se o encore, em que o músico confessou não costumar preparar grandes alinhamentos e adotar quase uma situação de “discos pedidos”. Entre esses pedidos estiveram entre outras “Do princípio”, “Eu esperei” com uma confissão de um lado político, e “Chocámos tu e eu” com todo o Coliseu de pé e uma enorme festa no palco.

Uma noite cheia de emoções e com uma das mais nobres salas nacionais praticamente cheia, tendo o próprio músico manifestado não o esperar depois dos acontecimentos da noite anterior. Muito bons músicos em palco a acompanhar um grande letrista e poeta e um público bastante heterogéneo e a provar que a música portuguesa está viva e recomenda-se.

João Neves

Licenciado em Música Electrónica e Produção Musical é um apaixonado por música e artes em geral. Interessado na área das novas tecnologias relacionadas à música e membro de uns quantos projectos.