Vodafone Mexefest – 2º dia (28/11/2015)

Vodafone Mexefest – 2º dia (28/11/2015)

#41 Patrick Watson

Fotos por Hugo Rodrigues

Avenida acima, avenida abaixo. E lá partimos para o segundo dia do Mexefest. Com bastante mais dúvidas que no primeiro. E é assim que acabamos por perder algumas coisas inevitavelmente interessantes. Como Jenny Hval, Bombino ou Peaches. Os dois últimos pela sobreposição de horários. A primeira, a menina Rockettothesky, porque, enfim, a noite era longa e o estômago tem de ser bem alimentado.

A tentativa de ver Bombino no Blackout sai defraudada. Gente e gente para o ver e nem a imprensa teve privilégios de entrar numa sala com uma dimensão reduzida. Uma pena especial porque o conceito, com pequenos concertos às escuras, é curioso e tem potencial para resultar. Fica para outra altura.

Aguardamos um pouco e eis que surge Best Youth. Electro-pop portuguesa com toques que fazem lembrar os Moloko. Mas não é Roisin Murphy quem quer e, dentro do estilo, a coisa funciona melhor nos Mirror People. Seja como for, a fusão dos sintetizadores e a voz de Catarina Salinas vai funcionando a espaços. E a sensualidade rock da versão de “Never Tear Us Apart”, dos INXS, muito à medida de um Legendary Tigerman, tem a sua piada. Não levantou o São Jorge (já lá vamos), mas ouviu-se com gosto.

Atravessamos a estrada e temos Georgia no Tivoli. Surgia conotada como uma mistura entre grime e uns toques orientais e africanos. E tinha a piada de ser uma frontman que toca bateria. Só que, musicalmente, entre a percussão e uns sintetizadores ora mais gingões, ora mais violentos, a coisa parece muito insípida, sem grandes canções. Até porque a voz da britânica tem uns agudos pouco convenientes para ouvidos mais sensíveis. Saímos no final do terceiro tema, mas sem grande pena.

#16 Ariel Pink

É hora de apanhar um shuttle e enveredar pelo mundo excêntrico de Ariel Pink. Entramos no Coliseu ao som de “Only in My Dreams”. E é quando o psicadelismo encaixa nos parâmetros pop que o norte-americano e a sua turminha de quase dez elementos, envoltos na escuridão, funcionam melhor. É o que acontece quando tocam “Baby” ou, numa forma particularmente lenta, “Picture Me Gone”. Na parte final, muito público sai em debandada quando a voz entra por caminhos bizarros e o palco entra numa bolha mais fechada ao exterior. Como é uma raridade imensa ouvir hoje algo de Before Today, talvez o disco de Ariel Pink mais equilibrado, aproveitamos a boleia e voltamos a subir a Avenida da Liberdade.

Passa pouco das 11 da noite e é tempo de ouvir algo mais pensado, mais atmosférico, mais silencioso. No Tivoli toca Nicolas Godin, metade dos Air. Começamos com 8 bits, ouvimos guitarrinhas com vestígios melancólicos, há qualquer coisa de brasileiro pelo meio, temos um pouco de vocoder e saímos em alemão com “Widerstehe Doch Der Stunde”. Tudo extraído do disco de estreia a solo, Contrepoint. Interessante, mas este é um período crítico em termos de escolhas. E é assim que atravessamos a rua e deparamos com… um festão

O EP de Petite Noir prometia. Há ali um toque funk que nos faz querer dançar e festejar. Em particular em “Chess”, pela forma como o tema avança lentamente até à celebração colectiva final. Seja como for, nada que nos preparasse para ver um Cinema São Jorge bem eufórico. É o ambiente inverso do silêncio da plateia de Nicolas Godin e o contraste tem bastante piada. A percussão marca pontos e há ali algo que nos faz lembrar os TV On The Radio se estes se aproximassem dos Arcade Fire. A mistura desperta curiosidade? Ora o resultado foi, para nós, 20 minutos de uma valente euforia. E só se justifica a saída após “Chess”, antes de um eventual encore, porque há um chamamento de São Patrício.

#38 Patrick Watson

Guitarra tocada com arco em “Adventures in your Own Backyard”, o som hipnotizante do serrote, um megafone, o céu estrelado em “In Circles”, os toques de sopro (mais discretos do que o suposto, mas assunto menor), os momentos acústicos e quase sem amplificação, a catarse de “Bollywood”, a subida à tribuna na parte final… quem imagina que um concerto de Patrick Watson é apenas piano, voz e pouco mais poderá ficar de boca aberta. É um verdadeiro espectáculo completo, musicalmente muito elaborado, em que os discos ganham outra dimensão ao vivo. E é tão bom quando este tipo de músicos, que constroem música melancólica qb, não se levam demasiado a sério e são capazes de revelar um prodigioso sentido de humor. Patrick responde “You Don’t Know Me” a uma fã que lhe faz juras de amor. E, perante as palminhas muitas vezes enervantes e um estranho número de sapateado da plateia, diz: “You’re better singers than drummers”. Cortou “Lighthouse” a meio (lá está, falta o trompete), mas nós perdoamos. E, num segundo encore muito pedido, tocou um dos clichés que se ouvem com mais gosto: “To Build a Home”, de Cinematic Orchestra. Uma hora e meia depois, temos ideia que não houve uma nota mal cantada. Em Maio de 2011, Sufjan Stevens deitou o Coliseu abaixo. Quatro anos e meio depois, com as devidas diferenças, mas também com uma grande noção de espectáculo, Patrick Watson fez algo semelhante. E baralhou muito as contas quanto ao melhor concerto do Mexefest 2015.

O concerto do canadiano devia terminar pouco antes de Seven Davis Jr. Mas isso não aconteceu. Pelo relato que ouvimos, um problema de amplificação e o desajustado espaço do Palácio Foz para algo minimamente dançável quebraram o concerto do músico texano. O espaço é bonito, mas, com os rigores de preservação que já tínhamos sentido no ano passado em Thunder & Co, fará sentido fechar o festival nesta sala?

A segunda e última noite de Mexefest acabou por volta das 2h, bem mais cedo que nos anos anteriores, e é hora de fazer balanços. Se o cartaz era aparentemente fraquinho, confirmou-o no roteiro que escolhemos. Uma ou outra surpresa (Petite Noir foi uma delas), mas nada de mais. Só que depois houve os cabeças-de-cartaz Benjamin Clementine e Patrick Watson. E estes não foram só a melhor dupla das várias edições do festival. Terão sido da melhor música ao vivo que passou por Portugal em 2015.

João Torgal