Caminhos do Cinema Português - Os vencedores

Caminhos do Cinema Português – Os vencedores

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O Festival Caminhos do Cinema Português é há já alguns anos o único festival de cinema da cidade de Coimbra. Aproveitando uma lacuna geral da cultura nacional, tem representado e envergado a bandeira do cinema português num país onde, na generalidade, o público se desassocia do seu próprio cinema. Tal foi verificável nesta edição, onde encontrei salas mais ou menos vazias e basicamente as mesmas caras sessão após sessão, faces que haviam composto o auditório de uma sessão de abertura que representou não só as qualidades a salientar neste festival (o espírito de sacrifício, a carolice da equipa organizadora, um sentido de pedagogia no acto de festivalar com a série de cursos “Cinemalogia”) como também as suas fraquezas (o hábito português de aproveitar eventos de renome para disparar em todas as direcções das teorias da conspiração, uma dificuldade em cruzar o formal com o informal, a justificação algo disparatada da excessiva duração de um festival de nove dias que cabia bem em metade, verificar que o Auditório do Conservatório de Coimbra é actualmente o espaço de cinema fora dos multiplexes com melhores condições da cidade, tornando o uso do carcomido e urgentemente necessitado de obras TAGV um anacronismo a ser corrigido).

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Nos últimos anos, o festival tem procurado alargar o seu raio de acção para lá do cinema português, este ano com a inclusão de filmes austríacos e envolvendo 150 filmes de 30 países. Mas o seu foco é constante na cinematografia no cinema nacional. Ao contrário de outros grandes festivais nacionais, é difícil criar uma programação para todos os gostos, visto que o Cinema Português é, na generalidade, como as sociedades ocidentais modernas: a classe média está a desaparecer. Ou existem filmes de apelo comercial esdrúxulo e óbvio, ou obras de ambição artística que pelo caminho desprezam a capacidade de percepção de um público com menor cultura cinéfila. Os poucos realizadores que ainda conseguiam equilibrar a balança têm desaparecido, ou são vozes no deserto, e os que ainda aparecem, trabalham com poucos meios e são constantemente ignorados pelo ICA na hora de atribuir subsídios. O percurso do Festival está por isso ligado de perto à evolução do cinema nacional. Este ano, por exemplo, trouxe a Coimbra as últimas obras destacadas da sétima arte lusa, casos de Montanha, de João Salaviza, do três volumes de As mil e umas noites (onde está o candidato português a melhor filme estrangeiro, que ou muito me engano, ou vai continuar a manter a tradição de um país que nunca foi nomeado para este prémio, caso raro na Europa), de Portugal – um dia de cada vez, de João Canijo ou Outros amarão as coisas que eu amei, documentário sobre a cinefilia e espírito de João Benard da Costa por Manuel Mozos.

No entanto, na hora de entrega de prémio, não foi nenhum destes a ganhar o prémio principal do festival. A honra coube a Margarida Cardoso, com o seu Yvone Kane. A realização feminina esteve em destaque no festival, já que Gipsofilia, de Margarida Leitão, ganhou a distinção de melhor documentário. Outra obra que saiu de Coimbra com a bolsa cheia foi Cinzento e Negro, filme de vingança e morte em paisagens açorianas, realizado por Luís Filipe Rocha. Não só arrebatou o prémio do público, como também os de melhor actor, para Filipe Duarte, e melhor banda-sonora, para Mário Laginha. Outros filmes que saíram vencedores do palamarés foram Irmãos, de Pedro Magano, chamando a si o Grande Prémio do Festival, e Niro, de Vicente Niro, que levou para casa, não sei se de táxi, a estatueta de melhor ensaio.

Noutras selecções do Festival, o prémio de melhor ensaio internacional foi entregue a When Sanam cried, de Majid Sheyda e Fariborz Ahanin; o prémido da Federação Internacional de Videoclubes coube a O assalto, de João Tempera. O Júri de Imprensa entregou a sua distinção maior ao referido documentário de Manuel Mozos Outros amarão as coisas que eu amei. Já A última árvore analógica, de Jorge Pelicano, ganhou a melhor curta documental Turismo do Centro. Ainda nas Curtas, mas de animação, a melhor curta-metragem Recheio coíbe a Que dia é este?, do colectivo Fotograma 24. Fica aqui então o palmarés completo deste Festival, que promete voltar para o ano continuando a divulgar o cinema que faz no nosso país.

Melhor Actor – Filipe Duarte – Cinzento e Negro

Melhor Actor Secundário – Carlotto Cota (Montanha)

Melhor Actriz – Beatriz Batarda (Yvone Kane)

Melhor Actriz Secundária – Luísa Cruz (As Mil e Uma Noites)

Melhor Direcção Artística – Ana Vaz (Yvone Kane)

Melhor Fotografia – João Ribeiro (Yvone Kane)

Melhor Guarda Roupa – Isabel Quadros (Capitão Falcão)

Melhor Realizador – Miguel Gomes (As Mil e Uma Noites)

Melhor Caracterização – João Rapaz (Arcana)

Melhor Montagem – Ricardo Teixeira (Irmãos)

Melhor Som – Hugo Leitão (Portugal- Um Dia de Cada Vez)

Melhor Argumento Original – Miguel Gomes, Mariana Ricardo e Telmo Churro (As Mil e Uma Noites)

Melhor Argumento Adaptado – Miguel Gomes, Mariana Ricardo e Telmo Churro (As Mil e Uma Noites)

Melhor Banda Sonora Original – Mário Laginha (Cinzento e Negro)

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.