Minha Mãe (Mia Madre)

Minha Mãe (Mia Madre)

Minha Mãe

Há filmes (quem diz filmes, diz outra obra cultural) cujas opiniões distintas da nossa nos criam uma compreensão especial. Não estamos a falar de uma questão de gosto. Todos os gostos são válidos, subjectivos e devem ser tão respeitados quanto… discutidos. Mas o que se trata é de algo diferente. De uma opinião fundamentada que nos agrada e que podemos estar a um pequeno passo de a ter. E que sentimos quase inveja por não a termos.

Vem isto a propósito do último filme de Nanni Moretti. Na obra do realizador italiano, os dramas e o existencialismo da vida humana são quase sempre tratados com um sentido de humor peculiar (de fora, o poderoso Quarto do Filho). Um sentido de humor profundamente inteligente que, não só não retira profundidade ao lado dramático, como o acentua de forma muito sensível. Pense-se nas perturbações da personagem de Querido Diário, na denúncia política de O Caimão ou nas hesitações sagradas de Habemus Papam. E é, talvez aí, que está a maior falha deste Minha Mãe.

Mia Madre I

Esta é a história de uma relação especial, interior e espiritual entre uma mãe e uma filha (e, já agora, também de uma neta). Inspira-se na experiência de Moretti, cuja mãe morreu nos últimos anos. Em vez de se assumir como protagonista, deixa esse lado para Margherita Buy (também Margerita no filme). E assim entrelaçamos o contacto entre as três mulheres da família com a actividade profissional da filha, realizadora de um filme de denuncia social.

Temos, portanto, um filme dentro do filme. Um filme cheio de atribulações e em que se situam os momentos mais cómicos. Muito graças à presença de John Torturro, a estrela internacional que não sabe italiano e que vem criar o caos nas filmagens. O filme imaginário vai-se desmoronando de uma forma algo simultânea com o drama familiar. E é aqui que sentimos o maior problema de Minha Mãe. Aquilo que poderia ser a força da narrativa, o retrato de uma mulher perdida nas várias condições da sua existência, parece que não cola. Como se tivéssemos duas histórias de vida e não uma.

Mia Madre II

Voltemos ao início. Fica o respeito e quase inveja por quem ficou marcado pelo filme, por quem esteve do início ao fim com os fantasmas interiores de Margherita. É indiscutível que há momentos de enorme espiritualidade. Bastante poéticos e muito bonitos. Só que parece que falta um fio condutor, algo que anule a dispersão entre o filme e o filme dentro do filme. Mia Madre é um filme simpático e sensível. Mas de Moretti esperamos sempre muito mais.

5,5estrelas

João Torgal