Top 10 de 2015 por Bruno Fernandes

Vi menos cinema de 2015 do que aqueles que desejava. Os mesmos motivos que levaram a que tal acontecesse condicionaram a escolha do meu top 10, não só porque os meus escolhidos me ajudaram a passar o ano, como pela intensidade pessoal com quem encarei alguma sobras que noutras condições não estariam na minha lista. No entanto, boa parte do encanto da cinefilia prende-se com a maneira como as imagens e os sons e as histórias atravessam os nossos dias e se agarram ao que é nosso. Pelo menos, é uma das razões pelas quais a sétima arte continua a ocupar um lugar fundamental na minha maneira de lidar com a realidade e de pensar no mundo. Ficam aqui, portanto, e sem carácter absoluto (tirando o primeiro lugar) a minha dezena de filme deste ano que passou.

#10 Mad Max: Fury Road

Ia sem expectativas, vi excesso, vi agressividade e um homem com mais de setenta anos a filmar acção como já se vê pouco. O subtexto do filme é brutalmente directo e simplório, mas os primeiros da saga também eram e não os víamos por isso. Num mundo onde o híper-realismo da acção começa a tentar ditar regras e excluir o resto, é bom ver o barroco, o surreal e o impossível a fazerem a sua aparição através da demência pura do estardalhaço gratuito. Quero lá saber se a Furiosa é um ícone feminista ou se isto é um panfleto ecológico: Mad Max: fury road é um hino barroco de carros destruídos, tempestades no deserto e tudo o que é bom para quem gosta de entrar num mundo tão fora deste que só podemos concluir que tem mais semelhanças com o nosso do que gostaríamos.

#9 Pawn sacrifice

Bobby Fischer protagonizou uma das mais interessantes histórias da Guerra Fria, finalmente adaptada ao cinema. Um génio do xadrez, e um parvalhão problemático na vida pessoal, é um personagem que sempre achei fascinante, principalmente por ter abdicado do mundo no auge da fama, por razões mentais. Pawn sacrifice centra-se nesse confronto que o opôs àquele que era na altura o melhor jogador do mundo, Boris Spassky, na decisão do campeão do mundo de xadrez, onde um jogo que é, afinal, sobre a arte do conflito se viu no centro da Guerra Fria. Excelente no transporte do raciocínio como cinema, é um filme tenso, bem ritmado e com uma excelente performance de Tobey Maguire como Fischer, não exactamente nos maneirisimos, mas na truculência, arrogância e feroz inteligência por trás da loucura. Não chegará aos Óscares, mas será uma interpretação que muito irão descobrir nos próximos anos como das mais marcantes de 2015.

#8 Me, Earl and the dying girl

A obra sobre a dying girl do título que sucumbe a um cancro e e os “Me” e “Earl” que a entretêm com remakes de filmes conhecidos feitos com meia dúzia de vinténs é um filme que me apela pessoalmente: passei uma parte da minha adolescência a fazer filmes caseiros do mesmo género e perdi o meu pai para a maleita cancerosa há ano e meio. Revi muita coisa minha neste filme, principalmente na desesperança do protagonista, mas numa obra que não é estrondosa, existe um sentido de humor seco, mas bom, e uma capacidade sentimental que nunca é lamechas, sempre merecida. Os vinte minutos finais estão entre as cordas bamba de emoção mais incríveis que se vêem em 2015

#7 A Juventude

Youth

O mais recente de Paolo Sorrentino tem os seus traços de filme pretensioso, principalmente na primeira meia hora, e um final algo anti-climático. No entanto, pelo meio, tem alguns dos mais inspirados momentos de cinema puro do ano, seja em pequenos pormenores de vida e diálogo, em sequências de mundo interior ou cenas interpretações fantásticas de Michael Caine e Harvey Keitel, principalmente, como quem espera no corredor da morte, apenas não sabendo ainda que um spa nos Alpes Suíços pode ser também cadeira eléctrica quando nos deixamos dominar pelo tempo, pela mente e pelo arrependimento.

#6 Inside Out – Divertida-Mente

O mais importante em Inside out, o fantástico novo filme da Pixar, não é ser, e digo já sem medo, o próximo vencedor do Óscar de Melhor filme de Animação, mas marcar por fim o regresso da Pixar à excelência na animação, ininterrupta até Toy story 3. Dois filmes convivem sem dificuldade: um é protagonizado por cinco emoções básicas e o que acontece quando duas delas se vêem à solta no campus mental, o outro é um pequeno tratado para adultos, sobre a tristeza, a dor, a memória e a vida no geral, sobre as curvas do nosso percurso, sobre viver e crescer. O primeiro filme é divertido; o segundo é comovente e sincero na sua realidade simples. É a marca dos melhores filmes da Pixar, capazes de chegar a todos os membros da família, e candidatos a clássicos porque falam sobre a intemporalidade dos verdadeiros dramas, problemas e aspirações de todos nós. Filmes para crianças e crescidos, e do caminho que existe entre um e outro. Inside out é um enorme triunfo.

#5 A ponte dos espiões

Sempre inspirado no modelo clássico de cinema, Spielberg tem-nos deixado no século XXI um retrato mental da América como poucos realizadores a trabalhar fora do sistema comercial se têm atrevido a fazer com lucidez. A ponte dos espiões (Bridge of spies) transporta os medos da Guerra Fria para os ecrãs de hoje, e nunca parece fora do tempo. É idealista, sim, capriano até aos ossos e cara de Tom Hanks, mas é também tenso, cinzento mesmo quando fala de um mundo a preto e branco e tem em Mark Rylance uma as grandes performances do ano.

#4 Beasts of No Nation

Intenso, duro profundamente real e detalhado, uma viagem ao mundo da guerra visto pelos olhos de uma criança que se transforma num assassino. Beasts of no nation, de Cary Fukunaga, é dos melhores filmes deste ano, para mim, pela sua capacidade de ser humanitário sem se tornar panfletário, e de retrata a transformação da inocência na predação humana através de Agu, uma pequena amostra de homem que vê a sua família a ser assassinada e é tornada no instrumento de um senhor da guerra africano. São duas grandes performances do infante Abraham Atta e do grande Idris Elba, respectivamente, criatura e dr. Frankenstein bélico, um carismático e implacácel comandante de homens e marionetista de meninos. Fukunaga raramente nos poupa à experiência da chacina, da confusão da guerra e do delírio da mesma, e quando por uma vez desvia a câmara de um evento traumático, o efeito é de amplificação numa das cenas mais horríveis da fita. Não é perfeito (há um certo problema a nível de sotaques que distrai de várias coisas), mas tem um poder enorme sobre o espectador e como documento da mecânica de conflito nos países pobres. Ainda assim, a violência e a desolação dão lugar a um dos finais mais comoventes e certeiros.

#3 Birdman

Keaton_Birdman

É curioso que quando os realizadores saem das suas zonas de conforto, é habitualmente oferecem obras desafiantes, originais e que permanecem connosco bem mais do que o seu habitual território: Alejandro Gonzalez Iñarritu, o guru dos mosaicos miserabilistas, agora é Alejandro G. e fez uma comédia absolutamente meta chamada Birdman, onde se ri e sofre porque, afinal, Iñarritu não deixa de ser Iñarritu. Mas há uma exuberância, um gimmick visual apropriadíssimo (o filme passa-se no mundo de teatro e parece ser filmado num só take), bem utilizado, com raccords temporais muito bem esgalhados e uma direcção de fotografia de Emmanuel Lubezki que abre os olhos e prende a visão. O espírito da América Latina está presente no uso do Realismo Mágico, habitualmente literário, nos delírios mentais de um actor, Riggan Thomson (Michael Keaton), com a psiche fragmentada em duas partes, e uma delas é um super-herói que interpretou anos antes na sua carreira, o Birdman do título. Neste momento, à beira de estrear uma peça bem séria escrita, produzida e representada por si, o mundo colapsa e só um herói parece conseguir salvá-lo: Birdman. O filme é um comentário à celebridade, ao vazio do blockbuster e do cinema moderno, mas também ao pretensiosismo da arte e à sua inerente falta de sentido nos múltiplos sentidos que procura. Tenho lido que é uma crítica a Hollywood, mas parece-me colocar a importância da Arte e a quem a critica e julga num plano relativo, dizendo que a vida humana é o mais importante. No drama de um homem que se afunda nos seus medos e remorsos, que tenta reclamar a sua felicidade e individualidade,e onde os personagens que derivam em seu redor procuram também o seu sentido, um ponto comum nos filmes de Iñarritu é visível:o profundo humanismo do mexicano e a sua busca pelo que significa ser humano. Durante muito tempo o mexicano procurou essa resposta na depressão, no fundo do poço, mas mais facilmente ele surge nos voos de um alter-ego alado que plana sobre Nova Iorque numa das sequências mais libertadoras e fantásticas do filme. Michael Keaton é transparente e profundamente honesto, numa performance destinada a estar entre as grandes do ano, que vai além do comentário à sua carreira: é crua e aberta, é uma ferida e ao mesmo tempo terrivelmente divertida. Outros destaques são Edward Norton, a fazer também um meta-comentário à percepção de actor sério e difícil que o público tem de si (e afazer mover a primeira hora do filme em direcções inesperadas e com uma energia que nunca acaba) e Emma Stone, que nas poucas vezes que aparece, cria a impressão de um anjo caído, principalmente nas conversas que tem com Edward Norton nalgumas das cenas mais cool do filme. Birdman é o que o cinema pode e deve ser: profundo, sem ser hermético; visualmente espantoso, sem perder substância; verdadeiro, sem perder de vista a magia do cinema. Estimula o intelecto, exalta os sentidos, entretém o espírito e desafia a nossa capacidade de olhar.

#2 Whiplash

Confesso que este ano estava numa de apoiar Edward Norton por completo na corrida aos Óscares: um actor extremamente talentoso que nunca ganhou este prémio mesmo merecendo. isso mudou ontem, quando assisti a Whiplash, o excelente e bem esgalhado filme de Damien Chazelle, onde J.K Simmons, um actor que passou anos a fazer de secundário razinza e aqui se entrega ao tipo de destruidor de egos moralmente complexo que atrai desde a primeira vez que o observamos. Whiplash fala da luta de um jovem que ambiciona ser baterista de jazz, e já que está nisso, no melhor baterista de jazz de sempre. Miles Teller interpreta este jovem com uma determinação, ferocidade e a inerente sociopatia de quem se guia por um objectivo maior do que si mesmo, e acredita que a Música é superior a tudo, até à integraidade física do ser humano. Chazelle foi durante anos baterista numa banda, e sabe filmar o impacto e energia que a música tem, a maneira como nos eleva e transforma e pode parecer, mesmo que por instantes, ser a coisa mais importante do mundo para quem a toca. O filme é sobre superação, sobre o que é válido para se transformar o bom em óptimo; e a resposta é o professor Fletcher de Simmons, um enigma de brutal poder, carisma e violência, que reduz homens a garotos, que faz surgir sangue e suor nas baterias, e que se transcende precisamente no que o torna um quase monstro: a perseguição da perfeição musical. É uma das melhores performances que vi este ano. O último acto do filme é tão empolgante mesmo para quem não gosta de jazz. Apenas para quem aprecia o momento exacto em que um homem se torna quase divino apenas e só porque se soltou de tudo o que o prende.

#1 The look of silence

Há três anos, a chegada de The act of killing trouxe um dos mais vitais filmes dos últimos anos, e uma obra que continuará a manter-se na vanguarda durante algumas décadas. Era potente e surreal, quando nos coloca num mundo onde os vilões ganharam e continuam no poder, na Indonésia hoje, lembrando um genocídio passado em 1965 como uma campanha patriótica e vivem rodeados das famílias daqueles que mataram. A falta de arrependimento, até de noção do que é certo e errado, transmitiam ao filme um suirrealismo e intensidade que poucas vezes se vêem no Cinema, ponto. O realizador, Joshua Oppenheimer, lançou este ano um documentário irmão, desta vez filmado do ponto de vista das vítimas, representadas por um oftalmologista que se dispõe a pôr a sua vida em perigo confrontando aqueles responsáveis pela morte de um irmão que nunca conheceu durante esse genocídio. Em The act of killing, não consegui escrever sobre o que tinha visto; em The look of silence, mesmo não estando desprevenido, soube em poucos minutos que me aconteceria o mesmo, e é verdade. Não é um filme, é um documento histórico real, essencial, profundamente diferente do que quer que tenham visto. Disto estou convencido: este díptico ficará, durante muito anos, como a bitola do cinema documental, e até do próprio Cinema como instrumento de intervenção no mundo. Pelo caminho, e sem procurá-lo, pois os seus objectivos são bem maiores, The look of silence é o melhor filme de 2015.

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.