Top 10 de 2015 por Alexandre Júnior

Top 10 de 2015 por Alexandre Júnior

O Arte-Factos desafiou, e eu aceitei. Em boa verdade, não vi muitos filmes elegíveis para a lista (é necessário que tenha tido estreia comercial em Portugal), portanto a escolha foi relativamente fácil. Seria mais complicado se tivesse visto todos os filmes saídos este ano que me interessaram (Taxi de Jafar Pahani, Sicario de Denis Villeneuve, As 1001 Noites de Miguel Gomes, etc.).

#10 Citizen Four

Citizen Four

Citizenfour é um filme absolutamente obrigatório para todos os cidadãos do mundo globalizado, facebook-dependant (e não só), no qual habitamos. Por trás do pseudónimo citizenfour está Edward Snowden – o mesmo que denunciou o extraordinário e não regulado poder da National Security Agency (NSA), organismo máximo de defesa americano – e parte desse anonimato para cativar a jornalista/realizadora Laura Poitras com informações sobre esse organismo. As imagens foram quase todas recolhidas em Hong Kong, estando Snowden sobre protecção política por parte da Rússia, e o filme foi posteriormente montado na Alemanha, porque Poitras temia que o filme lhe fosse confiscado nos Estados Unidos. Mais do que um documentário actual e relevante, Citizenfour é a prova de que o cinema tem uma força enorme no acto de contar histórias – sobretudo, quando se sustenta numa situação real.

#9 Relatos Salvajes

Da Argentina, chega-nos Relatos Salvajes. Ao todo, são seis histórias distintas (ao estilo de curtas metragens) que convergem nos temas que alavancam as suas narrativas: ora é a vingança, ora o rancor, ora a corrupção. Podemos recolhê-las todas sob o espectro da fealdade do espírito humano! No entanto, o realizador e argumentista Damián Szifron não se contenta com a tragédia de cada história, e junta-lhes uma dimensão humorística negra e surreal que nos prende, e até com a culposa satisfação de quem vê o caos a desenrolar-se, a este fantástico filme. É, acima de tudo, um filme extremamente divertido e bem executado, que, infelizmente, não foi suficientemente reconhecido por cá.

#8 The Wind Rises

Segundo o próprio, este será o derradeiro filme da carreira de uma referência da animação nipónica: Hayao Miyazaki. The Wind Rises conta a veridica história romantizada do engenheiro aeronáutico Jiro Horikoshi, no espaço de tempo compreendido entre a primeira década do sec. XX e o final da Segunda Guerra Mundial. O protagonista encontra-se sempre no dilema que assombrou a aviação: é uma consequência da engenharia e da ciência que eleva, literalmente, a Humanidade, mas caímos no erro de a utilizar para o mal, e confronta-se frequentemente, numa dimensão onírica, com o italiano Caproni, um dos mais importantes engenheiros da área. The Wind Rises é um belíssimo filme, na linha entre a realidade e a ficção, embrulhado na doce inocência e pureza do cinema de animação japonês.

P.S.: e não podia esquecer a fantástica referência a uma das minhas personagens de ficção favoritas de sempre. Miyazaki aprecia Thomas Mann.

#7 Phoenix

A minha apreciação por Phoenix veio bem depois de ter terminado o filme. Passa-se na Alemanha pós-Segunda Guerra, no re-erguer de uma sociedade abalada pelo trauma do Holocausto; nesse cenário, e aludindo à mitologia a que o título faz menção, uma mulher judia renasce para a vida. É uma trama que lida com o tema da identidade, da traição, entre outros – e, por isso, se lhe trace algumas semelhanças com a obra de Hitchcock (e com Vertigo à cabeça). Mas essa associação não assombra o filme por muito tempo. Em pouco tempo, Phoenix evoca fantasmas do seu próprio universo, e quando finalmente apreendemos a dimensão do que nos é mostrado…é um filme dos bons.

#6 Love & Mercy

Era um filme que há muito se pedia. Infelizmente, a memória popular relega-os a um papel secundário à sombra da carreira dos Beatles, mas a história dos Beach Boys é essencial para a compreensão do que é, hoje, a música pop. Nesse sentido, Love & Mercy ataca duas frentes com o mesmo filme: por um lado, retrata dois conturbados períodos na vida de Brian Wilson, interpretado ora por Paul Dano, ora por John Cusack, e por outro, mostra-nos, numa forma romantizada, como terão sido as gravações de Pet Sounds e o ambicioso conceito por trás de SMiLE, o álbum seguinte que nunca se veio a realizar – pelo menos, não como Brian Wilson o idealizou originalmente. E se servir para que muitos visitem a discografia dos americanos, é sinal que cumpriu.

#5 The Wolfpack

Será difícil explicar a inclusão de The Wolfpack sem desvirtuar a própria história do documentário. É um filme sobre filmes, e sobre a relação de uma muito peculiar família com os filmes que viram. Por vezes, entre toda a azáfama de querer ver o máximo de filmes possível, esquecemo-nos de que é possível vivê-los. The Wolfpack relembra-nos isso mesmo – é um óptimo documentário.

#4 Whiplash

Parece batota incluir Whiplash, mas embora tenha saído em 2014, apenas chegou cá em 2015. Felizmente, o hype que ganhou nos Oscars alavancou-o para uma estreia em cinema, que é mesmo onde o filme deve ser visto. E que mais dizer? É um portento. A narrativa de um rapaz que almeja ser uma lenda na bateria é simples (e até um pouco cliché) mas compensa no exímio aproveitamento das intensíssimas cenas musicais. É uma óptima história de sacrifício e de muita insanidade, com duas excelentes interpretações nos papéis principais (sobretudo J.K. Simmons!). Vejam-no! É do melhor que se tem feito nos últimos anos.

#3 Minha mãe

Este foi o meu primeiro filme de Nanni Moretti, ao qual se lhe reconhece um traço comum na sua filmografia. Em Minha Mãe (Mia Madre), dividimo-nos entre o drama familiar vivido por Margherita, que acompanha o definhar de sua mãe, e o filme por si realizado que se torna, aquando da chegada de um actor americano, cada vez mais caótico. O próprio Moretti, que costuma realizar e actuar nos próprios filmes, representa o irmão de Margherita, que a apoia neste determinante momento da sua vida. Sabendo de antemão que é um filme de traços auto-biográficos, entrevê-se um significado meta-cinemático no papel de Moretti: como, com a ajuda dos outros actores, parece exorcizar esta dor através do próprio cinema que cria (e, mais uma vez, traça-se o paralelo com Margherita, ela própria uma realizadora). Depois de Mia Madre, parto, em breve, para o resto da obra de Moretti.

#2 Mad Max: Fury Road

Certamente, uma das surpresas do ano. George Miller já tinha realizado as duas primeiras iterações da saga Mad Max, dentro do género de acção, e ataca Fury Road com uns belíssimos 70 anos. Deve partilhar com o vinho algumas propriedades qualitativas, porque, ao terceiro filme da saga, Miller re-estabelece, para mal dos péssimos (e aparentemente infinitos) blockbusters de acção, um exigente padrão de qualidade que dificilmente passa esquecido nos próximos tempos (basta pensar no uso muito responsável da CGI). Mad Max mostra-nos o real objectivo de um filme de acção, sem recorrer ao facilitismo nem à estupidificação. É uma ode ao entretenimento, e ao cinema de sala. Que venham mais!

#1 Inside Out: Divertida-Mente

Dos filmes elegíveis, Inside Out é incontornável. O meu apreço pela Pixar deve-se às recordações nostálgicas – devido a filmes como Monsters Inc. ou, e sobretudo, Wall-E – pelo que a associo, como muitos, a filmes da infância. Ora, também é reconhecido a este estúdio a capacidade de criar histórias infantis, e embrulhá-las de tal forma que conseguem atrair outros que não o seu público alvo. Inside Out é um óptimo exemplo. A ideia, por si só, dificilmente corria mal: atribuir uma personalidade a cada uma das cinco emoções, e, através da sua interacção, gerir o dia-a-dia de uma menina. Mas, além disso, há pormenores – como as Ilhas da Personalidade, o sistema de memórias, e a parte da “abstracção” – que preenchem o conceito e, daí, criam um imaginário icónico e muito completo. Apenas lhe consigo apontar uma certa quebra no terceiro acto do filme; fora isso, Inside Out é divertido, inteligente, e será, certamente, um dos melhores filmes desta década. A aposta está assumida!

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa.

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