Top 10 de 2015 por Isabel Leirós

O meu balanço do ano, a poucos dias do fim, é para lá de positivo. Tive um ano recheado de novidades e  aprendizagens e isso é que é importante. Há dias estive no Theatro Circo, em Braga, a assistir uma homenagem a António Variações, durante a qual Rui Pregal da Cunha subiu ao palco e interpretou “Glória do Mundo“, dos imortais Heróis do Mar. É essa a banda sonora recomendada para a escuta desta reflexão de dez pontos e uma menção honrosa.

#10 Capitão Falcão

CF

Depois de largos anos de espera, o Capitão Falcão chegou ao grande ecrã e arrasou. Nunca se viu humor assim, sardónico e torcido. Um filme brilhante do argumento à interpretação, que peca por um grande “mas”: é demasiado para o público português. Não deixa de ser curioso que uma abordagem inovadora e inteligente seja ignorada e reduzida a um mês (se tanto, não me apetece verificar) de exibição nas principais salas. Que lição devemos retirar daqui? Que há esperança para o humor português e que mais duas décadas e seremos capazes de rir alarvemente sobre todos os assuntos, até de um herói fascista.

#9 O regresso de Mad Max

MM

Apesar de todas as loucuras e escândalos, curto muito o Mel Gibson, pelo que sempre achei que o renascimento de Mad Max tinha tudo para correr mal. Enganei-me redondamente, e ainda bem. A narrativa não é das mais densas ou elaboradas, mas o filme em si é o motivo pelo qual se inventou o cinema: escapista q.b., enche a tela e os olhos e os ouvidos de cor, explosões e muita textura. Tom Hardy mereceu a missão que lhe foi confiada. Ah! E antes que me esqueça: George Miller promete uma versão a preto-e-branco nos cinemas em 2016, a sua visão original para o filme.

#8 Scorsese em Paris

Não, não estive frente-a-frente nem lado-a-lado com o melhor realizador e argumentista de sempre (quem me dera). Estive sim numa retrospectiva que lhe foi dedicada na Cinemateca parisiense, completa e pormenorizada, uma espécie de Martin Scorsese for dummies absolutamente apaixonante.

#7 O voyeurismo segundo Shia LaBeouf

SL

E não é que Shia LaBeouf se revelou um visionário da cena artística internacional? Entre Novembro e Dezembro, com recurso à tecnologia que já integrámos no quotidiano, conduziu dois projectos experimentais: em #ALLMYMOVIES esteve 72 horas numa sala em Nova Iorque a rever toda a sua filmografia, da mais recente para a mais antiga, e em #TOUCHMYSOUL desafiou-nos a ligar-lhe para uma galeria britânica e a comovê-lo com a nossa história. A internet não explodiu nem implodiu, mas o espírito humano transformou ambas as experiências em dois momentos marcantes e virais. Algures entre um profundo narcisismo e a nossa insaciável curiosidade sobre “a vida das estrelas”, desenrolou-se nos ecrãs uma experiência pioneira que não somos ainda muito bem capazes de compreender. Resta saber de que forma seremos surpreendidos em 2016 e se alguma vez serei capaz de escrever o nome dele sem recurso ao auto-correct do Google.

#6 Father John Misty e Kurt Vile

© Hugo Lima | www.facebook.com/hugolimaphotography | www.hugolima.com

© Hugo Lima | www.facebook.com/hugolimaphotography | www.hugolima.com

Josh e Kurt dividiram o meu coração em 2015. «I Love You Honeybear» e «b’lieve i’m goin down» são dois álbuns marcantes. Ambos mudaram de rota no seu estilo e isso correu-lhes bem, e ainda lhes valeu dois dos discos que mais repeti na agulha do meu foobar 2000. Obviamente, estavam reunidas as condições para serem galardoados pelos  melhores concertos que vi nos últimos meses. Uma viagem para bem longe daqui impediu-me de estar no concerto de estreia de Tillman em Portugal, há uns anos em Vila do Conde. Em Agosto deste ano tomou a vila minhota de Paredes de Coura, transfigurou-se e imortalizou-se na minha memória. Homem de palco e de humor aguçado, foi absolutamente estrondoso. Já o incrível, o incomparável, o doce, o aguerrido Kurt Vile foi tudo o que eu esperava e muito mais no regresso a Portugal. Em poucas palavras, ele dá-se bem em salas fechadas e não em festivais de Verão – e muito menos a tocar no pôr-do-sol.

#5 “Mil E Uma Noites” de Miguel Gomes

Para mim, filme do ano sem hesitação. O cinema português está de boa saúde e recomenda-se, e a trilogia louvada em Cannes é prova disso. Não me chegam palavras para falar deste emocionante e delirante retrato de um país em profunda crise, o nosso. Apenas uma recomendação: vejam e não fiquem indiferentes. Espero que a Academia não me desiluda e finalmente tenhamos um Óscar em Portugal. Sei que não estou a pedir demais.
Aliás, a indústria cinematográfica nacional ganhou novo fôlego recentemente, não sei bem como nem quando ao certo. Mas sei que festivais como o Curtas de Vila do Conde, o Porto/Post/Doc, o IndieLisboa ou o DOCLisboa, atraem o melhor talento local e internacional, projectando o nosso maravilhoso país um pouco por toda a cena mundial. Já produtoras como O Som e a Fúria e a Bando À Parte encarregam-se e bem de ter um catálogo cinematográfico absolutamente transcendente.

#4 Kraftwerk no Coliseu dos Recreios

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Quarenta anos depois os alemães tiveram a tecnologia e os recursos necessários para fazer jus ao seu imaginário. A sala do Coliseu encheu-se para os receber e equipados de óculos 3D partimos em viagem no seu Trans-Europe Express. A Autobahn levou-nos para um lugar muito feliz, enchendo de inveja todos aqueles que não conseguiram lugar na sala esgotada.

#3 Português Suave

Entre Junho e Agosto estive aos comandos do mítico programa de música portuguesa da RUM, o Português Suave. Foi uma experiência muito enriquecedora, especialmente pela enorme responsabilidade que é fazer emissão diária em directo – já vos disse que sou das ciências empresariais e que comecei a fazer rádio em Março ou Abril deste ano? Ouvi muita música fresca e dei voz a dezenas de projectos que são tantas vezes  empurrados para os programas de autor. E isso é recompensa mais que suficiente.

#2 “Asunder, Sweet and Other Distress” dos Godspeed You! Black Emperor

Foi o meu álbum favorito do ano e, sinceramente, nem me lembro do que andei a ouvir antes do lançamento. Os sons épicos e taciturnos contrastaram na perfeição com o meu incrível ano de 2015. Só me resta esperar que 2016 seja, pelo menos, tão bom e que outros malhões façam parte da minha banda sonora.

#1 Entrevista ao Steve Albini

Photo by Jordi Vidal/Redferns via Getty Images

Photo by Jordi Vidal/Redferns via Getty Images

Ok. Não é a primeira vez que falo no assunto e sinto que já falei demasiado. Mas o produtor Steve Albini é o mestre dos mestres, o geek que vingou, o punk rocker que não se vendeu – em suma, o modelo que todos nós deveríamos seguir. Entrevistei-o em pleno NOS Primavera Sound, aquando do regresso com os Shellac, e falámos um pouco de tudo: dos Rapeman aos Big Black, do copywriting ao blogging. Ainda tenho o número de telemóvel dele gravado na agenda, lá para Junho envio-lhe um sms a perguntar se quer repetir o encontro. Até lá, ouçam o podcast aqui.

# Menção honrosa: A cena cultural de Braga

2015 foi um ano de muitas mudanças, sendo a principal geográfica. Sou do Porto mas deixei a cidade em 2009, para uma aventura internacional e uns quantos anos em Lisboa. Regressar a norte foi muito interessante, especialmente por me ter fixado na terceira maior cidade do país, pequena e aconchegada pelo verde dos montes. Surpreendeu-me muito a cena cultural local que até nem me era totalmente desconhecida: usufruí da programação do gnration, capaz de atrair público do Porto à Galiza; vi as promotoras locais a marcarem o fim do Verão com a sua Braga Music Week, numa perfeita mostra de talento; aprendi a fazer rádio na prestigiada Rádio Universitária do Minho (RUM); e, como se isto não bastasse, estive na 5.ª e mais pujante edição do Semibreve.