Top 10 de 2015 por Vera Brito

Top 10 de 2015 por Vera Brito

Fazer listas é difícil e eu nem as do supermercado consigo fazer. Tudo se complica ainda mais quando tentamos criar uma escala para coisas que gostamos realmente, como a música, no entanto aceitei o desafio e fica aqui a melhor tentativa para o meu top musical de 2015, um ano curiosamente de zero festivais, mas de concertos memoráveis e alguns discos a destacar.

# 10 Alguns concertos de 2015

#49 And So I Watch You From Afar

Começo o top relembrando alguns concertos deste ano que, mesmo não lhes reservando um lugar isolado no pódio, estão bem guardados na minha memória de coisas boas deste 2015. Entrei de pé direito com um concerto bonito e intimista de Norberto Lobo em Faro, onde cerca de 80 pessoas repartidas por vários sofás espalhados pelo palco do teatro puderam imaginar que estavam na sala lá de casa. Houve também oportunidade para ver Manel Cruz e recordar tantas daquelas suas músicas com o seu fugaz projecto Estação de Serviço. Mais recentemente foram os And So I Watch You From Afar no Musicbox que me fizeram regressar a casa de alma leve e sorriso na cara ou ainda os Beach House que, mesmo com a sua melancolia, me conseguem sempre levar a lugares bons.

#9 Red Bull Music Academy Takeover – Boiler Room Lisboa

Boiler Room Lisboa

Vasculhar nas famosas sessões da Boiler Room é uma das melhores formas de descobrir o que se faz por esse mundo fora de música nova, sobretudo electrónica. No início deste ano Lisboa foi novamente palco para o mundo e eu, bem sortuda, desta vez saltei o streaming e estive lá. Foi difícil dividir-me por tudo o que estava a acontecer mas ficaram-me na memória: os Gala Drop que resultam bem melhor num ambiente de dança que nas cadeiras do CCB; a Mariza que introduziu o seu fado sem qualquer problema no meio daquele ambiente de batidas; PAUS cujas baterias deu para sentir até ao osso de tão perto que foi possível assistir ao concerto; Moullinex sem espaço para me mexer, muito menos para dançar, tal foi a enchente para o ver; e ao final da noite DJ Ride, com a ajuda do seu amigo Stereossauro, para nos mostrar ali a poucos metros que ser-se realmente DJ não basta levar uma pen e carregar no play.

#8 Russian Circles no RCA Club

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Ainda há quem vá a concertos pela música e pelo que vai acontecer em cima do palco, foi com esta certeza que saí depois do concerto dos Russian Circles neste ano. É que recentes experiências, sobretudo em festivais mais megalómanos, fazem-me duvidar que a música seja ainda a motivação. Gostaria aliás de ter visto alguns daqueles espécimes das selfies, muito comuns em festivais, atreverem-se naquela noite no RCA a quebrar a química que se sentiu entre o público e os Russian Circles. Noite pujante de música sem tretas, com um público devoto a uma banda que não precisa de nem uma palavra para a catarse que o seu som provoca.

#7 Savages no Lux

Foto cedida pela Everything Is New

Foto cedida pela Everything Is New

Num espaço de uma semana concerto anunciado e eu no Lux para ver por fim ao vivo as Savages. Cada vez mais prefiro ver concertos em espaços pequenos, num ambiente onde não existem distrações nem barreiras entre o palco e o público. E se barreiras existissem Beth seguramente as derrubaria, se há artista que necessita de sentir energia da plateia é ela. Concerto muito intenso e prenúncio de uma das coisas boas que vêm por aí para 2016, álbum novo das Savages.

#6 Linda Martini no Musicbox

Linda Martini

Não me antecipei à correria da venda de bilhetes e perdi a temporada completa das três noites de concertos que os Linda Martini deram no Musicbox em março. No entanto acredito que acabei por conseguir ir à noite mais especial, a primeira, a dos EPs Linda Martini e Marsupial, que teve ainda direito à rara versão de “Adeus Tristeza”. Saí de lá cheia de pena de não prosseguir viagem nas noites seguintes e compensei com outros concertos da banda ao longo do ano, mas foi este o que guardei com mais carinho.

#5 Discos de 2015

fjm-honeybear

Gosto de listas dos melhores discos do ano, mas das listas dos outros, porque quando tento fazer eu mesma esse exercício sei que não sou imparcial e pior, sei que ficou ainda muito por ouvir. E é por isso que estas listas são excelentes para nos fazerem recuperar ou até ouvir com outra atenção o que descuidámos no decorrer do ano. 2015 trouxe vários discos que tenho a certeza que continuarão a rodar em 2016 e por diante, como o regresso dos Faith No More com Sol Invictus, a dose dupla dos Beach House (embora só Depression Cherry me tenha ficado no ouvido), o poço de estranheza de Panda Bear com o seu Panda Bear Meets the Grim Reaper, o risco acertado dos Tame Impala com Currents, a revelação lírica de Courtney Barnett com Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit ou a consagração de Father John Misty com I Love You, Honeybear. Isto para referir apenas um par deles e assumindo por completo a minha parcialidade.

#4 Sufjan Stevens – Carrie & Lowell

Sufjan Stevens - Carrie & Lowell

Se por um lado assumo que não me sinto confortável a fazer listas de discos do ano, por outro assumo sem espaço para dúvidas aquele que ocupa para mim o primeiro lugar, Carrie & Lowell de Sufjan Stevens. Não é um álbum fácil de se ouvir, perfura-nos até o âmago numa dor dilacerante, sendo ao mesmo tempo um disco esmagadoramente belo. Recordo uma entrevista em que o próprio Sufjan dizia “Isto não é o meu projecto artístico. Isto é a minha vida.” e que mais se pode dizer de um álbum que soma uma vida? Como se conhece e se ama uma mãe ausente depois da sua morte? Carrie & Lowell arrasou-me emocionalmente através das suas melodias suaves de registo quase lo-fi e das letras de força inabalável, um verdadeiro murro no estômago para abraçar sem medo. Canções de embalar para o sono profundo da morte, onde se perde e se reencontra uma mãe, num amor incondicional.

#3 Chet Faker no Coliseu dos Recreios

#64 Chet Faker

Confesso que o histerismo deste ano em torno do Chet Faker me irritou, assim como me irritou ver nas duas noites esgotadas no Coliseu várias pessoas ao meu redor que não sabiam sequer reconhecer o artista que os tinha levado ali, chegando ao cúmulo de alguns o confundirem com Mr. Herbert Quain, que fez a ingrata tarefa de abrir as duas noites. Mas talvez o problema esteja em mim que levo isto da música demasiado a sério e ainda não tenha conseguido perceber o que é o fenómeno social em torno dos concertos. Quanto a ti Chet estiveste sublime, comprometido com a tua arte e proporcionaste um dos melhores concertos deste ano, mas eles sabem lá…

#2 Dave Matthews Band na MEO Arena

Dave Matthews Band

Alguns amigos meus não irão perceber como é que este não é o meu top 1, a verdade é que é muito difícil tentar catalogar o que muitas vezes se prende com a emoção. A DMB é uma paixão antiga que se encontrava adormecida confesso, os recentes álbuns da banda por mais musicalmente majestosos que estejam não mexeram comigo, não consigo sentir a empatia de antes na escrita do Dave Matthews e a perda do LeRoi Moore em 2008 foi para mim irrecuperável. Mas depois bastam 3 horas e meia de magia para reavivar todo um passado e toda uma paixão, numa setlist e entrega da banda ao público português que foi uma autêntica prova de amor (lá fora não é nem perto do que aconteceu em Lisboa, acreditem). E depois o que torna tudo mais especial é que a DMB superou a música e trouxe consigo amigos que ficaram na minha vida, com quem tenho tido a sorte de partilhar momentos únicos e inesquecíveis.

#1 Patti Smith no Coliseu dos Recreios

Patti Smith

Foi quando as luzes se acenderam no final do concerto de Patti Smith que facilmente percebi que seria este “o concerto” do ano, do meu pelo menos, um daqueles para guardar na memória de uma vida. Não tinha conseguido ir vê-la meses antes ao Primavera no Porto, pelo que o seu regresso inesperado a Lisboa me encheu de alegria. E a melhor maneira de o recordar são algumas palavras que na altura tentei conjugar para explicar o que me passou pelo espírito, “Ela entra no palco e juro-vos que sinto um arrepio e os olhos quase me atraiçoam cedendo a uma estranha comoção que me apanha desprevenida, ao ver materializar-se ali, a poucos metros em cima de um palco, a poetisa maior do rock. Ela vive, não é uma ficção e ao caminhar para o microfone é como uma luz reveladora que incide sobre toda a plateia. Abre-se o portal mágico para a Nova Iorque de 70, geração a quem a música e o punk prometeram uma salvação. 40 anos depois a geração de agora também procura uma salvação, poderá ser a música ainda a resposta? Não há como duvidar quando após arrancar furiosamente todas as cordas vemos Patti empunhar a sua guitarra eléctrica ao alto e dizer-nos que aquela é sua arma e que a nossa guerra é o rock ‘n’ roll. Obrigada Patti!”

Vera Brito

É developer nas horas vagas e agarrada a música a tempo inteiro. Não gosta de pessoas com preconceitos nos ouvidos. Prefere sagres a super bock mas sente-se dividida entre Alentejo e Douro.