Top 10 de 2015 por Sèrgio Neves

Top 10 de 2015 por Sèrgio Neves

Dois mil e quinze, escrito assim por extenso para lhe dar os ares que merece, foi um ano santo e um ano do caralho. Da minha lista de coisas preferidas a acontecer este ano, ficarão de fora por culpa da censura os acontecimentos mais pessoais, desde a apaixonante viagem à Polónia, até à recente compra de um carro, passando por todo o processo de amadurecimento e estabilização por que pude passar, e pelo amor. Ainda assim, partilho convosco dez das coisas que me fizeram feliz durante os últimos doze meses.

#10 Mono no RCA Club

#4 Mono no RCA Club

A Amplificasom deu tudo este ano e trouxe alguns concertos incríveis ao nosso país, a maior parte dos quais não pude assistir. Consegui no entanto apanhar os Russian Circles, que apesar de enormes não foram gigantes como o foram os Mono. Os japoneses da chonice instrumental desapareceram no nevoeiro do sentimentalismo e remorso e arrepiaram a pele durante uma hora imensa, merecendo um lugar no pedestal anual.

#9 Colleen na Galeria Zé dos Bois

©Vera Marmelo/ZDB

©Vera Marmelo/ZDB

Poucos concertos terão conseguido ligar a música ao local de forma tão coerente como quando a francesa Cécile Schott assumiu o cadeirão do Aquário, da ZdB. Nos seus temas liquefeitos de tão simplistas, e no entanto tão inebriantes, Colleen imergiu-nos na muito própria atmosfera que a não usual viola e demais camadas proporcionam, elevando-nos na maresia da noite, e destacando-se como um dos concertos individuais mais marcantes a que assisti.

#8 Angel Olsen na Trienal de Arquitectura

#8-Angel-Olsen-na-Trienal-de-Arquitectura

Da simplicidade musical para a individual, a cantautora norte-americana mostrou-se uma pessoa sem grandes tiques de estrela, e despiu-se de preconceitos mas não de nervosismo frente à plateia da Trienal. De tão generosos pulmões sai uma voz inconfundível, que funde o country ao folk de forma genuína, entre as dores e as raivas das relações que não funcionam e dos desejos que não se concretizam, e que sob a ténue luz do pátio me fez estremecer o núcleo duro.

#7 Vashti Bunyan no Teatro Maria Matos

#7-Vashti-Bunyan-no-Teatro-Maria-Matos

Quem diria que uma velhota com nome de lenhador traria tamanha magia e lição de vida a uma noite chuvosa de outono? Apenas uma senhora sorridente e feliz por ali estar, acompanhada apenas de um jovem músico e de uma guitarra, compartilhando no último soar da carreira os marcos que fizeram dela quem é, as tristezas e as alegrias, mostrando que no fim basta almejar a felicidade, a estabilidade, raios, a sanidade, no fundo. As cicatrizes são para quem viveu a vida, afinal.

#6 Top Musical

#6 Top Musical

Não me lembro de um ano tão rico musicalmente desde há muito tempo. Ou, pelo menos, de acompanhar de forma tão apaixonada o desenvolver do ano e os seus lançamentos, de ouvir tanta coisa com tamanha dedicação, de não me aborrecer minimamente em o fazer e de gostar de tanta coisa que ia ouvindo. E ainda assim, na tentativa de redigir um ‘top’, na moda do que se vai fazendo no fim, tive grandes dificuldades em não incluir uma Laura Marling, um Jim O’Rourke, uns Alabama Shakes ou um Mac deMarco, perante monstros. Claro que há discos e discos. E o disco do ano tem de ser o de Sufjan Stevens, e que me inundou a primeira metade do ano de uma melancolia hipnótica e aconchegante.

#5 A Última Festa da Coronado

#5 A Última Festa da Coronado

Descansai em paz, vulgos mensageiros da verborreia musical e do nonsense espiritual. O colectivo anteriormente conhecido por Coronado chegou infelizmente ao seu fim, deixando para trás uma obra imensa de espectacular musicalidade, criada quase sempre de forma ruidosa e reverberante, ecoando nos céus; mas o que os distinguia na verdade era o facto de se alicerçarem no conceito de família, da amizade pura e do amor pelo próximo e por aquilo que faziam. Deixarão saudades imensas, eles e os seus que se tornaram nossos convívios, os abraços e os gritos, e porque não, as bebedeiras.

#4 Milhões de Festa

#4 Milhões de Festa

Ano após ano, o Milhões de Festa não pára de ser incrível. Isto pode ser contra-argumentado o quanto quisermos, porque nenhum ano é tão incrível como o primeiro; mas é inegável o borbulhar na barriga que nos ataca o mês de Julho, o calor, os biquinis na piscina, as noites de suor e coração nas mãos, as manhãs de ressaca, todo o microclima que abana Barcelos durante aquele fim-de-semana. Este ano com um cartaz altamente subestimado, graças à Lovers & Lollipops, no qual se destacaram The Bug, Michael Rother, Matias Aguayo, os Cairo Liberation Front, os All We Are ou os HHY & The Macumbas. E com muito menos gente na assistência, o que no que me toca tanto melhor é, que tive tenda à sombra, chuveiros solitários e mais espaço para me abanar e dançar.

#3 Vodafone Paredes de Coura

#3 Vodafone Paredes de Coura

Problema contrário houve no PdC deste ano, total e ridiculamente apertado para tamanha quantidade de gente. O festival por excelência teve neste um ano de experimentação do público – acredito que muitos dos que foram não pensem voltar, apenas marcaram presença para o cv. Ainda assim, os ares de Coura têm magia, as águas do rio curam maleitas, as manhãs de recomposição e as tardes nos bares e cafés, as noites de música expectante e de espectáculos imensos, embora por vezes frustrantes na sua indefinição ou desinteresse. Houve Woods, Natalie Prass, Charles Bradley, Pond, Father John Misty, The War on Drugs, surpresas e confirmações amiúde, e até a épica batalha contra o ginásio eléctrico no Pokémon Amarelo enquanto os Tame Impala tocavam. Apenas à saída de Coura nos apercebemos do quão intenso tudo foi, de todas as histórias que se criaram em tão poucos dias, e do quão felizes estes festivais nos fazem.

#2 Arte-Factos

LOGO-AF-BRANCO

Vos garanto não se tratar chupismo, mas das coisas que me deu mais prazer, foi mesmo fazer parte da equipa deste site. E assumir a responsabilidade gráfica da webzine foi sem dúvida das melhores coisas que fiz no ano inteiro, desde a criação do logotipo e da nova linguagem gráfica, até ao desenhar dos cartazes e ao estender contactos para as imagens de capa, que terão desenvolvimentos nos próximos tempos, passando claro pelos vários artigos que escrevi. Mas o pico desta relação fez-se na X Festa, onde me juntei aos demais pivôs do tasco para passar música sem transições nem vergonhas, numa belíssima noite de festa e amor a repetir brevemente.

#1 As pessoas

#1 As pessoas

©Rita Bernardo

Este foi um ano de muita sorte no que toca às pessoas que pude conhecer. Isto porque foram imensas e quase todas interessantes, bondosas, preocupadas e talentosas. E o quão raro pode isso ser, num mundo tão feio e horrendo como este, para me acontecer a mim com tamanha frequência? E claro, não apenas as pessoas novas, que me fizeram repor a fé na humanidade, como a valorização e revalidação das que se mantêm e que insistem em ficar e fazer-nos bem, Deus as abençoe, acompanhando as saídas à noite, os jantares, os piqueniques e as festas caseiras, incluindo os amores e desamores, os encontros e desencontros. É insustentável não vos deixar a todos um muito obrigado, e um ano de 2016 estupendo.

Designer e ilustrador a quem nunca ninguém disse que não sabe escrever. Neste momento dispõe de cerca de um metro e oitenta de altura e de uma conta bancária no negativo.