Top 10 de 2015: Cinema

Top 10 de 2015: Cinema

Aberta a época dos prémios, dos balanços e dos inevitáveis tops, a equipa de cinema votou e aqui vos deixa o seu veredito sobre os melhores filmes do ano. Relembramos que o nosso critério tem como ponto de partida as obras estreadas em Portugal no ano corrente, quer em festivais, quer em circuito comercial (as restantes, ouvirão falar delas no ano que vem, já que cá tudo nos chega com relativo atraso…). Como habitualmente, apresentamos aqui um conjunto eclético de filmes oriundos de vários pontos do globo, ordenados por ordem decrescente. Para além destes nossos eleitos, não podemos deixar de referir alguns grandes filmes mencionados nos tops individuais que não chegaram ao ensemble vencedor: o drama argentino Relatos Salvajes, a animação Tale of Princess Kaguya, o duríssimo Hungry Hearts ou os ‘nossos’ Capitão Falcão e Pára-me de repente o pensamento.

#10 Minha Mãe

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=W2YXlOfA1Sg]

Há qualquer coisa em Minha Mãe (Mia Madre) que lembra o assombroso Amour – ambos exploram a inevitabilidade e a perda – mas existe aqui uma leveza que o filme de Michael Haneke escolheu não contemplar, característica do peculiar humor com que Nanni Moretti  normalmente retrata os dramas existenciais nos seus filmes. Inspirada no falecimento da mãe do próprio realizador, Minha mãe é um filme muito duro, mas sensível e bem humorado, sem dúvida o melodrama do ano. EQ [crítica completa]

#9 Beasts of no nation

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=2xb9Ty-1frw]

Intenso, duro profundamente real e detalhado, uma viagem ao mundo da guerra visto pelos olhos de uma criança que se transforma num assassino. Beasts of no nation, de Cary Fukunaga, é dos melhores filmes deste ano, pela sua capacidade de ser humanitário sem se tornar panfletário e de retrata a transformação da inocência na predação humana através de Agu, uma pequena amostra de homem que vê a sua família a ser assassinada e é tornada no instrumento de um senhor da guerra africano. São duas grandes performances do infante Abraham Atta e do grande Idris Elba, respectivamente, criatura e dr. Frankenstein bélico, um carismático e implacácel comandante de homens e marionetista de meninos. Fukunaga raramente nos poupa à experiência da chacina, da confusão da guerra e do delírio da mesma, e quando por uma vez desvia a câmara de um evento traumático, o efeito é de amplificação numa das cenas mais horríveis da fita. Não é perfeito (há um certo problema a nível de sotaques que distrai de várias coisas), mas tem um poder enorme sobre o espectador e como documento da mecânica de conflito nos países pobres. Ainda assim, a violência e a desolação dão lugar a um dos finais mais comoventes e certeiros. BF

#8 Força Maior

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=fjjzVbTBF8o]

A julgar por Força Maior (Force Majeur), parece que o legado de Bergman continua a dar frutos no cinema sueco. O que importa é a pausa, o momento, a verdade da situação, a realidade despida de tretas que nos sujam os olhos e nos manipulam a julgar um filme como “artístico” ou como “comercial”. Este Força Maior tem o seu próprio espaço. Um filme honesto para apreciar e respeitar. Um filme limpo. Um filme limpo como a neve. DB [crítica completa]

#7 Youth

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=-T7CM4di_0c]

O mais recente de Paolo Sorrentino tem os seus traços de filme pretensioso, principalmente na primeira meia hora, e um final algo anti-climático. No entanto, pelo meio, tem alguns dos mais inspirados momentos de cinema puro do ano, seja em pequenos pormenores de vida e diálogo, em sequências de mundo interior ou cenas interpretações fantásticas de Michael Caine e Harvey Keitel, principalmente, como quem espera no corredor da morte, apenas não sabendo ainda que um spa nos Alpes Suíços pode ser também cadeira eléctrica quando nos deixamos dominar pelo tempo, pela mente e pelo arrependimento. BF

#6 Inside Out: Divertida-Mente

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=seMwpP0yeu4]

Como explicar às crianças o papel adaptativo das emoções básicas? Como justificar que a tristeza não é necessariamente uma coisa má e que o medo promove a segurança? Como transmitir que a felicidade não tem que ser sinónimo de uma alegria constante? Pete Docter baseou-se nas dores de crescimento da sua própria filha e criou um filme delicioso que tem tanto de divertido como de pedagógico. Tecnicamente irrepreensível (como de resto é apanágio da Pixar), Inside Out é muito mais do que um grande filme de animação. É um filme sem género, que permite realmente experimentar uma gama vasta de emoções durante o seu visionamento – quer por miúdos, quer por graúdos. Um filme para toda a família no pleno sentido da expressão. EQ [crítica completa]

#5 As 1001 Noites

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=ljBTZmHPsB8]

Seis meses depois de ter visto os três volumes de As Mil E Uma Noites, consigo ainda assegurar que estamos perante um dos melhores filmes em Portugal. João César Monteiro foi pioneiro a testar o molde, mas nunca três filmes tinham sido lançados com tão curto espaço de tempo entre eles e contando a mesma história repartida. Há muito de documental neste filme, já que recria factos e eventos – sobretudo trágicos – ocorridos em Portugal, no apogeu da nossa crise financeira que resultou em profundos golpes no sempre frágil tecido social. Miguel Gomes soube, com mestria, como atrair o público: do Volume 1 ao Volume 3 vemos uma crescente melancolia e os pés a assentar na terra, perdendo a esperança inicial. 1001 Noites não é um filme fácil, mas é a realidade que tanto queremos evitar. IL [crítica completa]

#4 Leviatã

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=U2wNiJt-I6U]

A filmografia ainda curta de Andrey Zvyagintsev, muitas vezes referenciado como o herdeiro de Tarkovsky, é composta de histórias de provação que abordam temas como a justiça, a sobrevivência a moralidade e o conflito interno entre o bem e o mal. Prevalecem no seu cinema alguns códigos do realismo geralmente suavizados no cinema contemporâneo, que comunicam de uma forma quase visceral. É um estilo fílmico incomodativo que parece observar as entranhas das personagens – e as nossas. Leviatã é antes de mais uma crítica pouco subtil à sociedade russa (algumas das cenas foram mesmo censuradas no país de origem), mas ultrapassa largamente as suas especificidades. É um drama humano universal, que poderia ter lugar em qualquer parte do mundo moderno. EQ [crítica completa]

#3 Whiplash

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=zIP_gtjDtfE]

Parece batota incluir Whiplash, mas embora tenha saído em 2014, apenas chegou cá em 2015. Felizmente, o hype que ganhou nos Oscars alavancou-o para uma estreia em cinema, que é mesmo onde o filme deve ser visto. E que mais dizer? É um portento. A narrativa de um rapaz que almeja ser uma lenda na bateria é simples (e até um pouco cliché) mas compensa no exímio aproveitamento das intensíssimas cenas musicais. É uma óptima história de sacrifício e de muita insanidade, com duas excelentes interpretações nos papéis principais (sobretudo J.K. Simmons!). Vejam-no! É do melhor que se tem feito nos últimos anos. AJ [crítica completa]

#2 Mad Max: Fury Road

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hEJnMQG9ev8]

Certamente, uma das surpresas do ano. George Miller já tinha realizado as duas primeiras iterações da saga Mad Max, dentro do género de acção, e ataca Fury Road com uns belíssimos 70 anos. Deve partilhar com o vinho algumas propriedades qualitativas, porque, ao terceiro filme da saga, Miller re-estabelece, para mal dos péssimos (e aparentemente infinitos) blockbusters de acção, um exigente padrão de qualidade que dificilmente passa esquecido nos próximos tempos (basta pensar no uso muito responsável da CGI). Mad Max mostra-nos o real objectivo de um filme de acção, sem recorrer ao facilitismo nem à estupidificação. É uma ode ao entretenimento, e ao cinema de sala. Que venham mais! AJ [crítica completa]

#1 Birdman

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=uJfLoE6hanc]

É bom saber que Alejandro G. Iñárritu consegue fazer mais filmes para além de Amor Cão e que ao faze-lo consegue imprimir a mesma qualidade. Birdman é um trabalho divertido, trágico e estéticamente oposto aos anteriores que parece viver das fragilidades dos próprios intervenientes que são eles próprios peixes fora de água, Iñarritu enquanto realizador e Michael Keaton enquanto antigo cavaleiro das trevas. JS [crítica completa]

Textos por Alexandre Júnior (AJ), Bruno Fernandes (BF), David Bernardino (DB) Edite Queiroz (EQ), Isabel Leirós (IL) e José Santiago (JS).

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