Top 10 de 2015 por Diogo Soares Silva

Top 10 de 2015 por Diogo Soares Silva

Ah, o mês dos tops: aquela altura do ano em que, um pouco por todas as publicações relacionadas com música, vemos as mesmas 10/15 capas de discos espalhadas por todo o lado como se fosse difícil ter acesso a uma variedade enorme de obras e/ou os nossos gostos fossem todos iguais. O verdadeiro interesse desta época recai, então, nos tops individuais de cada um. Mesmo que não tenhamos nada de muito importante para dizer. Aqui vai.

#10 O fecho do Mercado Negro

©João Nuno Silva

©João Nuno Silva

Vai em décimo porque não dá para fazer um top do pior de 2015. Aveiro perdeu a sua única sala de concertos com programação regular. Nenhum outro artista vindo do outro lado do oceano nos confidenciará que aquele foi o lugar mais bonito em que tocaram na sua digressão, tenha ele/ela tido ou não casa cheia. O “corpo” pode estar a repousar, mas espera-se que a alma de quem fez o Mercado Negro ao longo dos últimos anos continue por aí, bem viva, durante 2016.

#9 A relevância de um selo

#9 A relevância de um selo

Numa altura em que a converseta de chacha em torno do quão malévolas são “as editoras” parece estar a desaparecer, nada como celebrar as que interessam e constituem, por si só, um selo de qualidade. A New West Records continua a trazer-nos o que melhor há na americana, editando tanto gente consagrada e/ou já com muitos anos disto (Steve Earle, Giant Sand, Corb Lund) como malta nova (Daniel Romano, The Deslondes, Jason James). A Paradise of Bachelors, ainda mais guardiã da tradição americana, brindou-nos não só com excelentes novas edições (The Weather Station, Jake Xerxes Fussell, James Elkington & Nathan Salsburg, Promised Land Sound, Gun Outfit, Red River Dialect) como com reedições importantes (Kenny Knight, Nap Eyes). Um pouco mais a norte, a canadiana No Quarter, menos activa, brindou-nos, ainda assim, com mais dois discos essenciais de Zachary Cale e Joan Shelley.

#8 Enchente no Vodafone Paredes de Coura

©Hugo Lima

©Hugo Lima

É claro que teve os seus pontos negativos (pó, demoras a entrar no recinto, um ou outro concerto em que só mesmo de binóculos), mas é bonito ver um festival fora das grandes cidades e com um cartaz sem cabeças de cartaz espampanantes ou dinossauros que arrastam os seus cadáveres em palco (quantas daquelas bandas existiam antes de 2000? Uma?) colocar uma placa a dizer ESGOTADO. E com concertos memoráveis: Father John Misty, Charles Bradley, Steve Gunn, Natalie Prass, War on Drugs, Waxahatchee (a solo no topo de um monte nas redondezas) e Woods (em palco e no quartel dos bombeiros, a proteger-nos da chuvada do último dia).

#7 Canções enormes

#7 Canções enormes

Poderia defini-las como “maiores que a vida” caso isto fosse uma lista de clichés, mas não, são mesmo enormes: as minhas duas canções preferidas de 2015 rondam os 10min e não são semi-épicos prog nem o tradicional vai-acima-vai-abaixo do pós-rock. Em “The Trip”, Dave Rawlings e Gillian Welch levam-nos ao coração da América e não nos apetece sair de lá; em “Now That It’s Too Late Maria”, canção que encerra o último dos Dawes, torna-se demasiado fácil perceber que Taylor Goldsmith é o Conor Oberst da segunda década deste século, o herdeiro do trono do herdeiro do trono de Dylan caso fosse possível falar disso sem que alguém grite “sacrilégio!”.

#6 Regressos

#6 Regressos

Joanna Newsom e mais um disco irrepreensível (Divers; impressionante como não consegue ter pontos baixos na sua discografia), Sufjan Stevens com um belíssimo regresso à chonice com que apaixonara meio mundo há dez anos (Carrie & Lowell), o regresso à forma dos My Morning Jacket após dois discos algo mornos (The Waterfall), mais um disco impecável dos Built to Spill, uma das poucas bandas rock do seu tempo a quem o tempo parece estar a fazer bem (Untethered Moon).

#5 Agora já todos gostam

#5 Agora já todos gostam

Kevin Morby a conquistar todos os que o viram no Primavera Sound; enorme disco de Courtney Barnett, a provocar demasiados “COME 2 PORTUGAL” (onde estavam no PS do ano passado, amigos? Na fila para as sandes da Casa Guedes ou a fazer de conta que estavam realmente interessados no concerto dos Slowdive?) entre a populaça indie e não só; finalmente, a (quase) unanimidade em torno de Father John Misty, responsável pelo meu disco do ano (tal como em 2012) e cuja devoção pelo público em geral teve o seu pináculo ao anoitecer numa noite amena de Paredes de Coura. Já há novo concerto programado para 2016, num festival ainda maior.

#4 A ponta final do NOS Primavera Sound 2015

#100 Underworld

Em noite de aniversário, passar as 00h na companhia dos Shellac e rodeado de grande parte das pessoas que importam, finalmente ver Carl e os seus New Pornographers por cá (mesmo que sem Dan Bejar e Neko Case), andar aos saltos como um adolescente em Ought (um dos concertos do ano) e ainda ter tempo para dar tudo com a “Born Slippy” na rave a céu aberto dos Underworld.

#3 Iron & Wine, finalmente por cá

#7 Iron & Wine

Demorou a chegar, mas valeu bem a pena. Sam Beam pisou solo nacional pela primeira vez e tocou quase tudo o que queria ouvir ao longo de duas noites no Tivoli e na Casa da Música. Desejo para 2016: uma tour com Calexico só para me fazer a vontade.

#2 Dar a volta ao país em nome do Eurodance

#21 Gin Party Sound System

Residências no Plano B e depois no Maus Hábitos, subir ao palco do Coliseu do Porto, fechar o festão de aniversário do patrãozinho Salgado, actuar no casamento de um dos grandes casais da Internet ao lado de Leonel Nunes e nos NOS em D’Bandada numa só noite, ser solidário em Fafe, apresentar as virtudes do eurodance a novas gerações em festas académicas de Vila Real, Porto, Aveiro e Lisboa, peripécias no Teatro do Bairro que levaram à morte digna de um Mac (afogado em gin), muitos amigos feitos pelo caminho. Gin Party Soundsystem é lindo, às primeiras horas de 2016, deviam vir todos ao Maus Hábitos celebrar connosco.

#1 The golden era of TV

fargo

Mesmo que a segunda temporada de True Detective, claramente feita à pressa, tenha sido uma pequena desilusão, 2015 foi provavelmente o ano em que segui mais e melhores séries. O ano começou com a despedida, em grande, de Parks and Recreation (pena a triste e inesperada partida de Harris Wittels); prosseguiu com mais uma sólida temporada de House of Cards, embora um furo abaixo das duas primeiras, e com a estreia de Better Call Saul, spinoff de Breaking Bad, que não podia ter corrido melhor. Mas o melhor estava reservado para o final do ano, com duas estreias imprescindíveis: Aziz Ansari é enorme em Master of None e Wagner Moura em Narcos. E, claro, as cerejas no topo do bolo (sim, vão ter mesmo de partilhar o primeiro lugar do pódio, amanhem-se): as segundas temporadas de The Knick e Fargo, duas obras-primas da ficção televisionada que, ao longo das últimas semanas do ano, me foram lembrando do porquê de praticamente não ter visto filmes em 2015. Não precisei. TV killed the movie star.

Promotor, agente e mais uma data de coisas no bolachas.org. Nunca foi jornalista nem quer ser, acha que escrever sobre música é redundante mas, ao fim de uma década, continua a fazê-lo. Qual é o mal? Nenhum.