Top 10 de 2015 por Edite Queiroz

O dilema das minhas listas é sempre o mesmo: Tão bom cinema, tão pouco tempo e tanto que sempre fica por ver. Mas acredito que 2015 foi recheado de cinema de alto gabarito (com um nível superior ao do ano anterior), sendo que muitas das produções nem sequer nos chegaram ainda. Sinto este ano os sabores amargos do costume: Não poder, apesar de tudo, incluir neste top os filmes de Woody Allen – apesar das muitas virtudes de Irrational Man – ou de Tim Burton – talvez porque a impressão do seu Big Eyes, estreado no início do ano, se tenha já desvanecido. Será que é para o ano que os consigo incluir? Bom, pelo menos esta é uma lista bastante internacional. Os meus filmes favoritos de 2015 vêm da Alemanha, de Israel, da Noruega, da Itália, dos Estados Unidos, da França, da Mauritânia, do nosso Portugal. O melhor de todos vem da Rússia. Ora vejam:

#10 Estações da Cruz

estacoesdacruz2

Urso de Prata para melhor argumento e o prémio do Júri Ecuménico no festival de Berlim, Estações da Cruz (Kreuzweg) pode ser visto como uma pura analogia ao destino de Cristo ou uma análise do catolicismo radical em rota de colisão com a razão individual e com a sociedade moderna. Mas há um subtexto que transcende essa temática. Partindo dela, o filme consegue um distanciamento que promove um comentário mais amplo acerca dos perigos da cegueira da fé – um tema que lamentavelmente está na ordem do dia, e não apenas no cinema. É um filme sobre religião que sublinha a permeabilidade de qualquer forma de dogma religioso ao fanatismo e à irracionalidade. Se em extremismos de outros credos, como os que todos os dias alagam os jornais e televisores, as consequências são de outra ordem e escala, o resultado individual e familiar do radicalismo aqui exposto não é necessariamente menos perturbador. [crítica completa]

#9 Gett: O processo de Viviane Amsalem

Gett

Na forma como transita da estranheza da forma para a universalidade do conteúdo, Gett relembra o fabuloso Uma separação (Asghar Farhadi, Irão, 2011), sendo porém mais restritivo no seu objecto – no caso, a condição da mulher israelita. Mas a partir do desenvolvimento de uma situação particular no cubículo cénico que a delimita, Ronit e Shlomi Elkabetz conseguem alargar a escala da discussão a todo um contexto cultural e religioso. O filme expõe desejos e aspirações comuns a todas as mulheres – ser respeitada, ser livre, ser amada – e conseguiu mesmo acender o debate no seio da própria sociedade israelita, onde curiosamente foi um triunfo. Por esse facto, mas também pela sua actriz (e realizadora) e pela sua encenação minimal e simbólica, Gett: O processo de Viviane Amsalem é um filme-manifesto que cumpre de forma notável a mais fundamental das funções do cinema: ser incómodo. [crítica completa]

#8 Miss Julie

missjulie5

Responsável pelo argumento, que manteve fiel ao texto original (da autoria do dramaturgo sueco August Strindberg), Liv Ullmann tomou apenas a liberdade de descartar as personagens secundárias para se centrar no trio protagonista e de transpor a história, que originalmente decorre na Suécia rural em finais do séc. XIX, para a Irlanda rural da mesma época. Ullmann não parece preocupada com demasiados formalismos na direcção do elenco, mas antes com a intensidade com que este entrega o texto: há uma reverência evidente pelo trabalho dos actores (uma herança clara do cinema de Bergman), que brilham em longos monólogos, insistentemente filmados em planos médios, na maioria das vezes em sequências sem um único corte. É Jessica Chastain que arrebata o cenário com a impressionante metamorfose da sua personagem. Quando Julie reconhece o seu pecado, Chastain transfigura-se numa explosão de desespero – a expressão selvagem, o olhar vazio, a postura desalinhada. É a rainha compelida a abdicar, o anjo caído. O seu desempenho é descomunal. [crítica completa]

#7 Hungry Hearts

hungryhearts3

O primeiro grande trunfo do filme é o seu argumento, escrito em parceria por Marco Franzoso e pelo realizador, Saverio Costanzo a partir da obra de Franzoso Il bambino indaco (A criança índigo). O filme descreve o romance de Jude (Adam Driver) e Mia (Alba Rohrwacher), um nova-iorquino e uma italiana que se apaixonam depois de se conhecerem por acaso e de uma forma algo inusitada. Assiste-se a um drama psicológico ultra-realista que paulatinamente progride da exultação à angústia. Hungry Hearts é uma narrativa simples, mas também um estudo penetrante das mutações do matrimónio e dos desafios da maternidade e paternidade, na linha de uma tradição fílmica recente que aborda a frequência com que, no quotidiano e perante situações de vida banais, pode ser ténue, para alguns de nós, a linha que separa o normal do patológico. Como a Mabel de Cassavetes, Mia is not crazy. She’s unusual. [crítica completa]

#6 Timbuktu

timbuktu5

Escrito e realizado pelo cineasta mauritano Abderrahmane Sissako,Timbuktu inspira-se no caso real de um apedrejamento público de um casal, ocorrido no Mali em 2012, no período em que o território esteve ocupado por islâmicos radicais. Colocando o espectador no papel de testemunha ocular, Timbuktu dá conta de uma tragédia pessoal a partir de uma tragédia colectiva (ou vice-versa?), sem recorrer a uma exibição gráfica da violência dos factos e sem absolutismo na sua apreciação. A condenação activa do extremismo religioso não colide com uma visão humana dos seus agentes, mas antes evidencia os paradoxos de uma realidade muito complexa, perpetuada pela ignorância e pela rigidez dos costumes. Assim se evita a tradicional abordagem maniqueísta à cultura islâmica, baseada na exposição pura do seu radicalismo, e se consegue uma obra de extraordinária beleza e tolerância. [crítica completa]

#5 Pára-me de repente o pensamento

pensamento3

O cinema, enquanto arte privilegiada de representação da vida, tem o incrível poder de mudar mentalidades e derrubar preconceitos. O olhar insistente do cinema sobre a doença mental advém em grande medida do fascínio humano pelo desvio, mas também da necessidade de compreender a dimensão sombria que a todos habita – a diferença entre normal e patológico será antes de mais uma questão de grau. O documentário de Jorge Pelicano é uma consagração absoluta: não apenas pela escolha do tema e pelo rigor técnico do trabalho, mas pelo respeito pela dignidade dos envolvidos e pelas histórias que têm para contar. Não é sensacionalista nem apela à piedade. Recusa a imagem estereotipada do doente mental. Não é intrusivo, respeitando a privacidade do que não deve ser contado. Não pretende ser informativo, explanar a sintomatologia dos quadros clínicos ou demorar-se em abordagens terapêuticas. Não é condescendente. Humaniza cada um dos intervenientes pelo simples acto de lhes dar voz. Pára-me de Repente o Pensamento fala dos que vivem no Conde de Ferreira, através das suas palavras. Ganhamos com isso a representação possível do mundo interior da esquizofrenia e da campânula que enclausura o esquizofrénico – que ainda assim sonha até ao limite dessa parede de vidro e é capaz de uma generosidade que o homem lúcido perdeu. E recuperamos parte dela, por um momento, nos olhos de Miguel Borges. [crítica completa]

#4 Inside Out: Divertida-Mente

InsideOut1

Como explicar às crianças o papel adaptativo das emoções básicas? Como justificar que a tristeza não é necessariamente uma coisa má e que o medo promove a segurança? Como transmitir que a felicidade não tem que ser sinónimo de uma alegria constante? Pete Docter baseou-se nas dores de crescimento da sua própria filha e criou um filme delicioso e tecnicamente irrepreensível (como de resto é apanágio da Pixar). O filme chama sobretudo à atenção para um aspecto particularmente relevante nos tempos modernos: o papel adaptativo da Tristeza é frequentemente esquecido, foi substituído pelo pavor dos afectos tristes. Somos intolerantes aos mais pequenos sinais do que, muitas vezes, identificamos erradamente como sintomas do mal do século. Confundimos tristeza com depressão e perdemos a capacidade de perceber para que serve estarmos tristes. Um dos aspectos mais importantes do filme é a forma como resgata a Tristeza do negativismo exclusivo a que parece condenada e reafirma a sua relevância e instrumentalidade enquanto emoção básica. Nesse sentido, é um filme tão divertido quanto melancólico e reflexivo, que está longe de pertencer apenas ao público infantil. É uma animação pedagógica e madura, um filme para toda a família no pleno sentido da expressão. [crítica completa]

#3 Minha Mãe

Mia Madre I

Há qualquer coisa em Minha Mãe (Mia Madre) que lembra o assombroso Amour – ambos exploram a inevitabilidade e a perda – mas existe aqui uma leveza que o filme de Michael Haneke escolheu não contemplar, característica do peculiar humor com que Nanni Moretti normalmente retrata os dramas existenciais nos seus filmes. Inspirada no falecimento da mãe do próprio realizador, este é um filme muito duro, mas sensível e bem humorado, sem dúvida o melodrama do ano. [crítica completa]

#2 Youth

Youth

Abordando basicamente os mesmos temas do filme anterior, o espantoso La grande bellezza, Paolo Sorrentino consegue uma vez mais supreender com um filme esteticamente deslumbrante, poético e com grande impacto emocional. Prestando uma homenagem clara ao cinema clássico italiano, mas rodeando-se desta vez de um leque de actores internacionais de renome – dos quais temos de destacar os desempenhos de Michael Cane (homenageado este ano pelos Prémios do Cinema Europeu) e da sempre luminosa Rachel Weiz – este A Juventude (Youth) debate, com uma sensibilidade sincera mas também algum cinismo, a questão do envelhecimento, do esquecimento, da efemeridade do sucesso e da frivolidade do showbiz, sem descurar lindíssimos planos-sequência, diálogos muito ricos e uma banda-sonora – as Simple Songs de David Lang – que certamente ficará na memória. Visualmente, é sem dúvida a experiência cinematográfica de 2015.

#1 Leviatã

leviata1

A filmografia ainda curta de Andrey Zvyagintsev, muitas vezes referenciado como o herdeiro de Tarkovsky, é composta de histórias de provação que abordam temas como a justiça, a sobrevivência a moralidade e o conflito interno entre o bem e o mal. Prevalecem no seu cinema alguns códigos do realismo geralmente suavizados no cinema contemporâneo, que comunicam de uma forma quase visceral. É um estilo fílmico incomodativo que parece observar as entranhas das personagens – e as nossas. Leviatã é antes de mais uma crítica pouco subtil à sociedade russa (algumas das cenas foram mesmo censuradas no país de origem), mas ultrapassa largamente as suas especificidades. É um drama humano universal, que poderia ter lugar em qualquer parte do mundo moderno. [crítica completa]

Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

Facebook