Top 10 de 2015 por Inês Cisneiros

Top 10 de 2015 por Inês Cisneiros

O ano passou a correr e parece que todos os dias houve qualquer coisa digna de nota. É tempo de fazer listas e marcar a fluorescente o que a nós tocou mais fundo, na cultura em 2015 e, pelo meio, tentar referir tudo o que não cabe, mas não queremos esquecer:

#10 Mad Men, Matthew Weiner

Mad Men

Iniciada em 2007, Mad Men é, provavelmente, a melhor série dos últimos anos e repousará lado-a-lado com Sopranos, Six Feet Under e outras que tais – conforme tão bem sugere já o IMDB -, sendo provavelmente a série de consagração de Matthew Weiner. É impossível não ficar impressionado logo com o primeiro episódio e, ao longo da série, desenvolver uma profunda admiração pelo guião e pela sua capacidade de character development. O cruzamento das personagens com a música e a literatura da época enriquecem e contextualizam-nas aos nossos olhos. Já de si interessantes e bem construídas, cabem como uma luva nos actores que as interpretam e lhes dizem os diálogos que nos fazem perguntar há quanto tempo não tivemos uma boa conversa.

O final arrastou-se para 2015 com a divisão da última temporada em duas partes e, aqui entre nós, deixou bastante a desejar: muitas pontas soltas, alguns wrap-ups forçados, e a sensação de que o último episódio podia ser só mais um episódio. Mas a chegada ao destino não é tudo, e ficam, claro, todas as outras temporadas e golpes de génio, uma/várias histórias bem contadas, a um tempo intelectualmente aceitável para o telespectador, ele próprio, mastigar a profundidade das questões deste período da História – e tão contemporâneas ainda: a emancipação feminina, a supremacia masculina, racismo, homofobia, drogas, álcool, a indústria do tabaco, a guerra e o serviço militar, o desenvolvimento dos mass media, o impacto do marketing a nível não só económico / empresarial, mas também a nível cultural, entre outros.

O problema é preencher o vazio, responder à magna quaestio: o que resta para o drama – para as séries americanas. Aceitam-se recomendações.

#9 Los Santeros na ZDB

©Vera Marmelo

©Vera Marmelo

Dada a natureza eminentemente pessoal deste top, aqui vai: um dos top 10 momentos culturais do meu 2015 foi o concerto dos Los Santeros, em fevereiro, na ZDB. Inserido numa noite demasiado especial, de recordação e concretização de sonhos por cumprir, a noite de “Dream, Baby, Dream: Eternamente Tânia” foi uma noite de homenagem. Entre convidados demasiado especiais, os Los Santeros garantiram que a noite era fechada a sorrir. A banda de Carlos Ramos (Act Ups, Nicotine’s Orchestra, Ballyhoos, Singing Dears, Fat Pack, BroX, Sultões, Fast Eddie & the Riverside Monkeys, e sabe deus que mais.) passa por uma banda de mexicanos que nunca sabem bem onde estão a actuar – o mais provável é que seja em LA. Obviamente arrancam gargalhadas a qualquer um. A cereja no topo é que são mesmo bons músicos e no meio da loucura é possível desfrutar de um excelente concerto.

#8 Jurassic World, Back to the Future Day, Star Wars VII

Star_Wars_The_Force_Awakens

Sim, porque se o ano acaba com a Star Wars fever (salvo seja e que a força nos proteja e guarde), a verdade é que a nostalgia começou a meio do ano com Jurassic World, a celebração de duas décadas volvidas sobre uma das mais maravilhosas aventuras de ficção científica de Steven Spielberg, Jurassic Park (1993). Celebração essa que, saltos altos à parte, foi muitíssimo bem conseguida. Também dia 15 de Outubro se celebrou o Back to the Future Day, o dia em que Marty McFly chega ao futuro, no segundo filme da trilogia (Back to the Future II, 1989). Para quem nasceu no fim dos 80 e adquiriu as primeiras impressões do mundo durante os 90, com todos os ecos, este tipo de celebrações de pedaços de memória ficcional colectiva são viagens ao tempo em que tudo era fascinante e maravilhoso, são cápsulas de bom humor automático, terapia.

#7 Whiplash e Love & Mercy

Whiplash

2015 foi também um ano bom na categoria de filmes sobre música. Whiplash é de 2014, mas estreou em Portugal em 2015 e esteve bem presente nos Óscares deste ano. Se Birdman ficou aquém das minhas expectativas em parte pela grande ligação ao mundo do espectáculo, Whiplash conquistou-me talvez porque a realidade de que trata me é relativamente mais familiar. Uma belíssima homenagem ao Jazz e aos seus músicos, mas também a alguns dos seus fantasmas ou, vá, monstros (sim, Buddy Rich), focando-se na competitividade do meio, simultânea falta de reconhecimento ou preconceito externo, e consequente busca pela afirmação. Assim, a componente psicológica é fortíssima (ainda que temperada com uma perfeita dose de bom humor), procurando-se os limites entre a dedicação e o esforço, a motivação e a pressão e o abuso. Valeu o merecido óscar a J.K. Simmons e a sua imortalização na pele de Fletcher e na frase “Not quite my tempo”. Banda sonora irrepreensível e fotografia limpa (a lembrar Fincher).

Com um estilo de realização completamente diferente, Love&Mercy (também de 2014 com release em 2015) conta a história de Brian Wilson, dos Beachboys, retratando a (sur-)real história de Brian Wilson, dos Beachboys, no fundo o grande responsável por Pet Sounds (1966), que hoje figura como um dos álbuns mais importantes da história da música. É um filme muito sentido, focado essencialmente na grande sensibilidade artística de Wilson, e devidamente musicado pelas suas obras, fazendo-lhe grande justiça. Pode ainda valer o Óscar a Paul Dano e percebemos porquê.

#6 Ex Machina – Oscar Isaac – The Disappearance of Eleanor Rigby

Ex Machina

A contrastar com o ano de revivalismo de clássicos do cinema de ficção científica infanto-juvenil (ver ponto 8.) e de estreia de The Man in the High Castle, do Rei Philip K. Dick, Ex Machina confirma que a ficção científica está muito bem de saúde também em 2015. Aquela que podia ser mais uma história sobre robots e os dilemas éticos do desenvolvimento da inteligência artificial, aborda o mesmo de forma diferente, conseguindo a proeza de nos captar o interesse. E não é mera sorte, é talento de Alex Garland, contador de histórias como esta, A Praia, e 28 Dias Depois (dois filmes realizados por Danny Boyle), e pelo argumento adaptado da distopia de Never Let Me Go, realizada por Mark Romanek.

Destaque para as músicas adicionais da Banda Sonora Oficial (ver o ponto seguinte a este propósito) e para a cena de dança que catapulta Oscar Isaac para esta lista como O actor de 2015, honra que lhe atribuo com a maior objectividade também pelo tesourinho com Kate Mara (perdoa-se o man bun), por conseguir um papel em Star Wars VII, por Show Me a Hero, a mini-série da HBO, e por A Most Violent Year – outro excelente filme – onde contracena com Jessica Chastain (magnífica, btw – “This was very disrespectful.”).

E por falar em Jessica Chastain, The Disappearance of Eleanor Rigby também só nos chegou em 2015, mas vale a pena ver em qualquer momento como obra de arte. Tem Chastain, McCavoy, Bill Hader e a enorme Viola Davis. É um filme distribuído por três: Him, Her e Them, sendo que os dois primeiros são obrigatórios, por esta ordem.

#5 Savages

Savages

No início de 2014 Jehnny Beth escrevia sobre o seu 2013, ano de lançamento do primeiro álbum a banda, não esquecendo de referir a estreia na actuação em Portugal e a marca que nela própria havia deixado. Em 2015, cá retornaram e o povo hospitaleiro quis marcar mais fundo. Estamos habituados ao “you guys are the best.”, “the best crowd so far”; blá, blá, blá. Mudem o nome do país, mantenham a lenga-lenga, é a chave para qualquer serenata. Mas a verdade é que ao longo dos anos Portugal tem conseguido manter relações muito bonitas com bandas de culto (v.g. Morphine, dEUS, etc.). Não está em cima da mesa se somos os melhores ou não – melhores que o quê? E como? Gritamos mais alto? Saltamos com maior cadência? Fazemos melhores coros? Nem interessa se é só o público que conquista, se é o clima que apanham ou a produtora com quem trabalham. Outros países hão de ter este tipo de relação com outros artistas e artistas haverá que a tenham com mais do que um país. Mas tal como sabe bem ouvir Matt Berninger dizer “You guys were listening when no one else was.” (Meo Arena, Novembro de 2013), também sabe lindamente saber que, depois de um brutal concerto em Julho, no SBSR, íamos poder rever as Savages num concerto relâmpago em Outubro, no Lux. A surpresa, o facto de tocarem músicas do próximo álbum, de escolherem Portugal e os fãs portugueses, simultaneamente como cobaias e protagonistas do primeiro vídeo, são gestos de carinho inequívocos. Os dois concertos deste ano foram arrasadores. As Savages dão concertos espectaculares. Todas mulheres, todas músicas brutais, com um saber estar em palco avassalador. Camile na pele de Jehnny Beth é uma artista do outro mundo. Os concertos são catárquicos e arrebatadores. Sim, todos estes adjectivos. As Savages só lançam o novo álbum em 2016, mas em 2015 foram a minha banda internacional preferida e, pelo que já pudemos ouvir, em 2016 vamos estar a escrever sobre Adore Life.

#4 Tv Rural

©Tiago Maia

©Tiago Maia

Se as Savages foram para mim a banda internacional mais importante de 2015, a nível nacional esse lugar especial foi ocupado pelos TV Rural. Denominador comum: actuações ao vivo de expiar todos os males. Há uns anos atrás ouvi um vídeo do – na altura – álbum to be “A Balada do Coiote” e a similitude do baixo com o de Sandman, os toques de jazz, a intensidade das letras foram o suficiente para que os quisesse ver ao vivo. E vendo-os ao vivo não havia forma de alguma vez os retirar de qualquer lista. Os TV Rural são provavelmente e sem medo uma banda com poucos pares no que a concertos ao vivo de bandas portuguesas diz respeito. O catálogo musical é vasto, os álbuns podem-se dizer temáticos, mas não que caibam num estilo musical muito definido. Em Maio de 2015, por exemplo, o álbum que lançaram, Sujo, vai beber às raízes mais rock-português da banda, dando-lhe motivos contemporâneos, com algum do espírito intervencionista de Barba (2014), sem o folclore de A Balada do Coiote (2012), mas sempre transpondo pedaços de portugalidade para os seus temas, do dia-a-dia e do que é típico de ser português. Se o ouvirem, perceberão que só a ignorância ou parco exercício do amiguismo explica a sua ausência dos tops de discos de 2015. Em 2015 vi os TV Rural no Music Box, no SMUP e no Stairway Club. Se pudesse, tinha-os vistos mais vezes. Valem cada minuto. Em Fevereiro há concerto no Sabotage. Espreitem o Bandcamp e apareçam para o espectáculo que é vê-los ao vivo.

#3 John Oliver, Last Week Tonight

John Oliver

O Last Week Tonight estreou em 2014, mas foi em 2015 que senti que já não esperava pelo programa de domingo à noite sozinha. John Oliver esteve muito tempo no The Daily Show com o Jon Stewart, e lançando-se a solo conseguiu que o seu programa tivesse um formato e um foco que para mim tem até mais interesse que o The Daily Show. Em parte porque é mais frequente a abordagem de temas internacionais que não interessam exclusiva e directamente aos americanos, mas também pela qualidade do trabalho jornalístico por detrás de cada episódio, não se cingindo apenas ao humo acutilante que não podemos deixar de lhe reconhecer. A The Atlantic dedicou já vários artigos à emergência ou valorização de um “novo” tipo de humor, mais intelectual e intervencionista, acima de tudo mais funcional, no sentido em que usa a sátira, dando-lhe um propósito construtivo e útil, não se ficando pela mera desconstrução e ridicularização dos problemas. Em 2015 assistimos à emergência de comediantes que não só tocavam em temas sensíveis como pretendiam fazer alguma coisa em relação aos mesmos. Amy Schumer chegou mesmo a fazer um filme baseado em episódios da sua vida que já eram utilizados nos seus espectáculos de stand-up e que no fundo subvertem a imagem da mulher moderna, as expectativas que se mantêm sobre ela, tanto no contexto laboral, social, sexual e familiar. No entanto, de Trainwreck retenho a soberba Tilda Swinton e um amoroso Hader; a mensagem feminista confunde-se. Schumer consegue fazer passar uma mensagem positiva sobre a relação das mulheres com o seu corpo, sobre como o normal é ser diferente, sobre liberdade e igualdade, mas acaba por parecer sujeitar-se sempre a um critério de validação masculino que, verdade seja dita, também satiriza diversas vezes (mítico 12 Angry Men, no Inside Amy Schumer). Mais tarde, também este ano, viria a tomar posição sobre a questão do porte de arma na América e a necessidade de restringir a atribuição de licenças para este efeito ou apertar os requisitos e não podemos negar que é um primeiro passo, um passo que alguém se mostrou disposto a dar, num ano tão marcado por estes assuntos e que marca um excelente período de grande utilidade e serviço público por que passa a comédia americana. Mas feitas as contas, este lugar vai para John Oliver – até agora primando pela profundidade, coerência e impacto alcançado, por exemplo, no caso Fifa, que foi, senão primariamente, mais claramente desmascarado, na primeira temporada (Ep. 1.6), e posteriormente na segunda (Ep. 15), já depois do escândalo ter rebentado oficialmente; a questão da net neutrality que influenciou directamente um processo legislativo na américa; a entrevista com Snowden, na Rússia (Ep. 8); o ressuscitar a questão do tabaco (ver os Episódios 2 e 5 da 2.ª Temporada, respectivamente sobre a indústria americana e sobre a sua venda, crescente em países em desenvolvimento onde a regulação é parca e o mercado inclui menores como consumidores – destaque para Jeff the Diseased Lung Cowboy, a mascote criada pelo programa para satirizar o Marlboro Man), dos estrangeiros e das tele-igrejas (Ep. 25), assunto que viria a ser novamente referido em demais episódios, e a propósito do qual John Oliver criou a sua própria tele-igreja, só lhe pondo termo no final da temporada. Entre tantos, vejam todos. No ano da “reforma” de Stewart, o Last Week Tonight foi menos uma forma de ver notícias e mais de aprofundar conhecimentos sobre temas da actualidade com um mínimo de fiabilidade e humor e tem-se mostrado bastante eficaz, na prática.

#2 The Atlantic

The Atlantic

A The Atlantic foi a revista que mais acompanhei online, em 2015. Apareceu na minha timeline do facebook há uns anos, através de artigos partilhado cujos títulos pareciam saber tudo o que eu precisava de ler e o respectivo texto tudo o que eu precisava de saber. Tem havido uma estranha sintonia entre os meus interesses e o que a The Atlantic publica no dia seguinte – mais – a forma como o expõe e o que defende. Não quer isso dizer que a partir de agora só comunique através de artigos da The Atlantic, mas podia tentar. E vai desde o assunto pop comezinho à política internacional. O ano foi marcado pelo terrorismo, conflito israelo-árabe, guerra na Síria, desaparecimento de aviões, atentado na Tunísia, atentado em Paris, a Rússia nas notícias, outra vez – é fazer a lista. O mundo desaba à nossa volta e é cada vez mais difícil negar que pertencemos ao 1/5 do planeta que vive uma paz relativa (com luxos como os tops de fim de ano) por oposição a tanta miséria absoluta. Em Junho, a New York Times (concorrente directa da The Atlantic, a quem facilmente concederia este lugar) publica este artigo. É preciso estômago e tempo. E o lugar vai para a The Atlantic porque é David G. Bradley, dono da The Atlantic que esteve por trás de tudo o que o artigo relata e que é absolutamente impressionante, que tanto diz deste ano e do Mundo. A informação não tem preço. E a The Atlantic oferece-a com uma qualidade, tacto e sensibilidade excepcional. Dêmos graças por termos acesso a um mínimo de acesso a cultura, e pela liberdade. Por poder fazer este post e o lerem. Uma troca de interesses sem que sequer nos conheçamos. Um luxo, um pecado, ou crime com pena capital, em tantas zonas do planeta.

 #1 Anonimato, Diogo Vaz Pinto

Anonimato

No ano da morte de Herberto Helder, a História da poesia portuguesa viria a ser ainda marcada pela de Vítor Silva Tavares, com ela encerrando-se o catálogo das Edições Culturais do Subterrâneo, a &etc, iniciadas em 1974, cujos livros nos habituámos a identificar tão facilmente pelo formato quase quadrado e capas escolhidas a dedos. Esta pequena editora de culto publicou importantíssimos autores portugueses e estrangeiros e o ultimo livro do catálogo, Anonimato, de Diogo Vaz pinto, não podia ser melhor encerramento. Com efeito, quem conhece a poesia do Diogo não pode passar ao lado da qualidade lírica dos seus versos, da beleza dos poemas, que neste 2015 tantas vezes se estruraram em prosa. O Diogo é o poeta da nossa geração. Aqueles que os vossos filhos vão achar cool dizer que gostam mesmo sem terem lido e os vossos netos vão estudar na escola. Anonimato é diferente daquilo que até agora se podia ler do Diogo. A poesia é, agora, de facto emprosada, mas não tanto de intervenção, como a que poderão ler nos posts do último ano dO Melhor Amigo ou no facebook da Lingua Morta, que tantas vezes traduzem a intensidade do autor, a violência dos tempos e toda a nossa indignação. Anonimato é mais íntimo. São pequenos retratos, como um filme de pequenos clips. A juntar à beleza deste Anonimato, está o facto de o Diogo e o David Teles Pereira (fixem.) serem fundadores da Língua Morta, também uma editora de poesia que desde o início de 2012 já publicou cerca de 60 livros, com publicações em 2015 tão importantes como Misteriosamente Feliz, de Joan Margarit, poeta que certamente marcou os tops de 2009 em Portugal, e Hidra, com nomes como Daniel Jonas, Miguel-Manso, Miguel Cardoso, Luís Pedroso, António Gregório, Frederico Pedreira, David Teles Pereira, Rui Lage, Diogo Vaz Pinto, Luís Filipe Parrado, Vasco Gato, António Guerreiro, e com uma força muito característica desta editora que já em 2013 se identificava em “Lobos”.

Noutro género literário há uma frase para isto “if a head is cut off, two more will take its place”. Sim, a mensagem é de regeneração. Forma de imortalizar. Não morrer.

Inês Cisneiros

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