A Modista (The Dressmaker)

A Modista (The Dressmaker)

A Modista

Tudo aparentava para que The Dressmaker, entre nós A Modista, fosse um filme de época banal, talvez biográfico, acerca de uma mulher de origens humildes que iria vingar no design de moda. Mais uma vez, as aparências iludem, e de que maneira. Na verdade não é nada disso. É uma história de vingança acerca do regresso de uma mulher que se tornou modista nas melhores casas da Europa à sua terra natal, uma “parvónia” perdida algures na Austrália, depois de dela ter sido expulsa aos 10 anos por acusações caluniosas. O filme foge à narrativa óbvia e comum, e é um misto surpreendentemente bem equilibrado de vários géneros.
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Rapidamente, A Modista passa de semi western de vingança a comédia bizarra com personagens caricaturadas, de romance apaziguador a tragédia dramática, por vezes até na mesma cena. A direção que o filme toma, o caminho que vai percorrendo, é tão esquisito que acaba por se tornar genuinamente único e apetecível. Existem tantas personagens bizarras e pitorescas nesta “parvónia” perdida na Austrália, que a caricatura destas pessoas que nunca de lá saíram se torna tão exagerada e surreal que é impossível não soltar umas gargalhadas. As más línguas na mercearia, a inveja entre as mulheres perante os vestidos de Kate Winslet, o polícia que gosta de se vestir de mulher, etc, etc. E quando nos estamos a rir ou a lamentar, do nada, tudo é virado do avesso.
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É preciso despegar-mo-nos de ideias pré-concebidas com esta Modista, um pouco como temos que fazer com o recente The Homesman de Tommy Lee Jones (que é filme de terror, comédia e western tudo num só pacote), mas a verdade é que se trata de uma comédia negra, de consequências trágicas provenientes de origens simples, onde apesar de nesta terra de Dungatar nunca nada acontecer, a verdade é que a sua microscópica comunidade lá arranja maneira das coisas acontecerem. Podemos olhar para isto como um filme confuso, desequilibrado, que quer ser tudo ao mesmo tempo e acaba por não conseguir ser nada, ou podemos, por outro lado, abraçar a sua ousadia e aplaudir a sua originalidade, por vezes até lembrando o cinema bizarro dos irmãos Coen. Optamos pela segunda hipótese. Apesar de todas as curvas e contra-curvas, twists narrativos e emocionais, The Dressmaker de Jocelyn Moorhouse, que não realizava há quase 20 anos, é uma delícia.
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Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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