Snoopy e Charlie Brown: Peanuts - O Filme

Snoopy e Charlie Brown: Peanuts – O Filme

Peanuts - O Filme

As últimas grandes produções de cinema de animação dos últimos anos têm vindo a deturpar, se é que não deva dizer mesmo violar, memórias de um cinema inocente que parece perdido mas que acreditamos ainda existir algures, escondido bem lá no fundo. Falo de uma animação dirigida a um público infantil, como seria natural, que por algum motivo insiste em estupidificar a criança, em adaptar a animação ao mundo real e a problemas com que na realidade uma criança não se relaciona e que pouco mais são do que aventuras alucinantes apressadas ao som de um qualquer êxito pop norte-americano do ano em que o filme estreou.
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Como se isso não bastasse, parece que as grandes produtoras têm particular prazer em pegar em icónicas personagens intemporais, de banda desenhada ou desenho animado antigo, descaracterizando-as a elas e a toda e qualquer memória ou identidade que lhes era associada, como foi feito por exemplo com os Estrumpfes (Sim, Estrumpfes, Smurfs é um nome que só é pronunciado em Portugal desde 2011, graças ao ridículo filme de animação digital e a alguma ave rara que nem se deu ao trabalho de traduzir a versão americana do nome das personagens para português. E daí se calhar até tenha sido acertado, uma vez que esses tais de Smurfs que se passeiam por Nova Iorque nada têm que ver com os Estrumpfes que vivem dentro de cabanas em cogumelos da banda desenhada) ou com Garfield. Pior ainda, não se satisfazendo em estupidificar o público infantil, estas produções insistem ainda em estupidificar uma certa fatia de público adulto, um publico que provavelmente a dado momento da sua vida se esqueceu da animação e das canções dos filmes da Disney da sua juventude e que acredita, porque sim, que coisas como Madagáscar, Pular a Cerca ou Alvin e os Esquilos é que é, mas que ao mesmo tempo os únicos filmes de animação que vê é no Natal, na televisão, porque só um idiota iria ao cinema hoje em dia quando “tá tudo na net”.
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O medo e a probabilidade de ver as icónicas e intemporais personagens de Peanuts, entre nós Charlie Brown e Snoopy, serem completamente destruídas por uma animação de pretensão comercial e trepidante, com a correspondente re-imaginação das personagens para um público novo, mais moderno, era real. De alguma forma, aparentemente com os herdeiros do autor da banda desenhada de Charles Schulz a tomarem as rédeas do argumento e direcção do filme, pode dizer-se com segurança que Peanuts é o filme de animação mais fiel ao material que lhe dá origem dos últimos anos, para não dizer de sempre, porque efectivamente não me vem à memória nenhum que respeite tanto o traço do desenho original como a animação que aqui é feita. Peanuts retrata os pequenos dilemas do dia a dia de uma criança, Charlie Brown, e os devaneios imaginários do seu cão Snoopy. Num mundo em que os adultos falam uma linguagem incompreensível (literalmente, como se recordará quem tem memória da série animada), resta a este grupo de crianças a sua interacção com a inocência própria da idade.
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O filme é extraordinariamente inteligente e realmente tocante nos seus pequenos detalhes. Prefere sempre a serenidade ao espalhafato, e de pequena cena em pequena cena vai ensinando ou relembrando ao espectador alguns valores morais que curiosamente parece que esquecemos na vida adulta mas que tínhamos tão presentes na idade de Charlie Brown e seus amigos. Aqui também não existe sobredramatização ou condescendência perante o espectador e a magia intemporal de Peanuts. É estranhamente real tudo o que vemos no argumento da película, divertida, inocente, melancólica. Tudo isso, e a sua tradicional animação inteligentemente modernizada pelo computador (que quase nem se nota, tão perfeita é a caracterização perante os quadradinhos originais), fazem com que este seja um pequeno filme de animação em dimensão, mas verdadeiramente enorme em qualidade e significado, e isso é sobretudo uma grande chapada de luva branca à deturpação que o cinema de animação tem vindo a sofrer nos últimos anos.
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Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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