Anomalisa

Anomalisa

Anomalisa

Dado indiscutível: Anomalisa, a segunda longa-metragem de Charlie Kaufman, o argumentista de Eternal Sunshine of the Spotless Mind, é esteticamente intocável. É uma animação stop motion muito real, com imagens magníficas, uma bela fotografia e apontamentos sonoros preciosos. Podia ser isso, que já era motivo de franco elogio, mas não.

Michael Stone é daqueles vendedores de sonhos e… da banha da cobra. Dá palestras e escreve livros sobre ilusões, sobre produtividade, sobre o empreendedorismo, etc, etc. Um messias de auto-confiança que, na vida privada, é tudo menos um homem confiante, perdido nas suas dúvidas sentimentais (paradigmática a refeição com Lisa). Isto num mundo com dimensões e locais reais, mas semi-estranho, onde o corpo tem umas brechas e as mulheres têm voz masculina (e não só). E é aqui que entra Lisa, a Anomalisa, cujos padrões de anormalidade são, no fundo, profundamente normais.

anomalisa 2

É um filme de entrelinhas, que nos dá pistas para nos deixar a reflectir. Sobre as intenções explícitas do realizador mas, muito mais do que isso, sobre o que fica propositadamente em aberto. Anomalisa é sobre as encruzilhadas do amor? Sobre como são vagos os conceitos de “normal” e “diferente”? Sobre o poder mágico da voz?  Sobre a desumanidade numa sociedade massificada? Sobre tudo isto?

Voltemos à parte estética, numa das cenas mais bonitas do filme, Lisa, a Anomalisa, interpreta, de forma intimista, “Girls Just Want to Have Fun”, de Cyndi Lauper. Seremos capazes de voltar a ouvir este tema da mesma maneira?

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=PIb6AZdTr-A]

Anomalisa é uma animação, uma fantasia freak. Mas há muito realismo e muito existencialismo por detrás da imaginação.

8

João Torgal