Tó Trips no Auditório Municipal Augusto Cabrita (22/01/2016)

Tó Trips no Auditório Municipal Augusto Cabrita (22/01/2016)

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“I am the land (…) and I am the rain. The grass will grow out of me in a little while.”

É do conhecimento geral – e os que frequentam determinados ciclos intelectuais já tiveram, certamente, oportunidade de o comprovar – que o Santo Gral está enterrado no Barreiro. Tamanha singularidade fez da cidade o mais pertinente dos palcos que viu Tó Trips vergar-se e ofertar a sua guitarra a algo que nos transcende.

Pelas 22h o Auditório Municipal Augusto Cabrita era já altar, dando início à cerimónia que viu novamente evocada toda a epifania celebrada pelo Dead Combo em Guitarra Makaka, desta vez acompanhado pelo percussionista João Doce.

O segundo disco a solo de Tó Trips nasce do exercício de exploração consumado em Timespine – projecto composto por Trips, Adriana Sá e John Klima, com edição pela ousada shhpuma. A intuição, o apelo do desconhecido e do primordial, mostraram-lhe gradualmente um novo mundo, enquanto aprendia a domar o dobro (uma guitarra cuja caixa de ressonância alberga um elemento metálico) numa afinação alternativa.

À semelhança do Nobel da Literatura, Trips sugere-nos uma fé sem nome, uma crença na natureza e nas relações humanas, uma universalidade celebrada a seis cordas nestas suas “Danças a um Deus Desconhecido”. Durante cerca de uma hora o músico levou-nos até África, falou-nos de quando encontraram a carcaça do tigre no topo do Kilimanjaro e ninguém soube explicar como é que ele foi lá parar. Falou-nos de quando foi cartógrafo e passou pelas ilhas imaginárias do Pacífico até hoje por mapear. Falou-nos das mulheres que por lá dançam à chuva e de civilizações que respeitam os macacos como sábios ancestrais. Escutámos ainda o fluxo contínuo do seu dedilhar numa tarde soalheira na América do Sul. Nada disto é real. Ou talvez seja, não é assim tão importante. A provar água-ardente numa terreola perdida no Alentejo profundo, ou a bebericar o que quer que seja que se bebe em Catmandu, o sol lá em cima é sempre o mesmo.

Guitarra Makaka, editado no ano passado, dispensou champanhe e festas de lançamento. O brinde fez-se com o que de mais genuíno as seis cordas têm para nos dar.

Ricardo Almeida

Nasceu em 89, não gosta de futebol e tem Demis Roussos como líder espiritual.