Jay-Jay Johanson no Musicbox (30/01/2016)

Jay-Jay Johanson no Musicbox (30/01/2016)

#4 Jay-Jay Johanson

Fotos por João Figueiredo

Atravessei pela primeira vez as portas de saloon e as arcadas do Musicbox há coisa de sete anos atrás. Enquanto um jovem estudante de Belas-Artes, faculdade que se faz emergir da colina do Chiado, descobri um dia que seria ali comemorado o punk dos Sex Pistols, com a amostragem de um documentário e um concerto de homenagem. Meio assustado com a zona pouco iluminada e mal frequentada, e depois de me ser ofertado na rua um “bóbó” gestual, encarei as enormes portadas de madeira que protegiam a entrada do espaço sobre o qual não sabia nada, mas que tinha um nome porreiro, moderno e internacional. Viria, no entanto, a sair defraudado daquela noite fria, pela incoerência do filme, e por o concerto ser afinal dos Xutos e Pontapés.

Entre esse dia e o dia de hoje, muita coisa mudou. Sair insatisfeito de uma qualquer noite ali passada é coisa muito rara. A vida nocturna lisboeta tomou de assalto o Cais do Sodré, sítio que havia adormecido e caído na penumbra, e a zona onde o Musicbox se faz centro é hoje referencial de saídas populosas, de luzes brilhantes, de clubbing e de concertos e de beberiques generosos. A rua pintou-se de cor-de-rosa, os espaços renovaram-se, as pessoas aderiram em números; e no meio disto tudo, não há nada a retirar ao papel que a caixa de música debaixo do arco teve, ao renovar-se ele mesmo há dez anos atrás, no mesmo sítio da mítica discoteca Texas, destacando-se da área onde se inseria com uma programação arrojada e atraente, e quase que obrigando à remodelação de tudo o que havia à sua volta, revelando-lhe o potencial.

#5 Jay-Jay Johanson

Na comemoração dos dez anos desde a sua abertura – em, portanto, 2006 –, o Musicbox organiza dez noites especiais ao longo do ano, a primeira das quais celebrada no último fim-de-semana de Janeiro, quando nos voltou a trazer aos palcos portugueses o músico nórdico Jay-Jay Johanson. Visita completamente coerente com o espírito do espaço, uma vez que o sueco completa vinte anos de carreira, e faz render o décimo álbum da mesma – o belíssimo Opium, álbum capaz de viciar tanto quanto a droga que lhe dá nome, mas por enquanto sem efeitos demasiado nocivos, lançado ainda durante o ano passado.

Antes ainda de subir à ribalta, abriram as hostes da noite os Lavoisier, projecto minimalista liderado pelos portugueses Patrícia Relvas, na voz, e Roberto Afonso, na guitarra. Sob a ressonância da mesma, com dois a três acordes apenas por cadência, os espaços vazios entre dedilhares são completados pela nossa própria percepção da música, e pelos vocais graves e acutilantes de Patrícia, de movimentos amplos e sensíveis, e sorriso largo. Passeando-se entre sussurros harmoniosos e os gritos que o citar de um Álvaro de Campos obrigará, o duo define-se na referência de Antoine Lavoisier, famoso químico francês que popularizou o dito “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Entre um Michel Giacometti e um Tiago Pereira, entre um Povo que Canta e um A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, os Lavoisier revisitam poemas, cânticos e ditos populares portugueses, e transformam-nos dentro do seu universo próprio, de forma orgânica, minimal e cativante – embora a delicadeza do seu som os tenha silenciado face às pessoas que conversavam entre si na parte de trás da sala.

Essas mesmas pessoas tomaram a lotação frente ao palco e apertaram-se para receber então Jay-Jay Johanson, afinal o cabeça da noite. Percursor do trip-hop tornado popular nos anos noventa por bandas como os Massive Attack ou os Portishead, o sueco extravasa os sinuosos efeitos dos sintetizadores com batidas robustas e entusiastas, guiadas pela sua voz única, melodiosa e aveludada. Seria até possível descrever Jay-Jay como uma versão masculina de Beth Gibbons, não fosse a sua música muito menos orquestral, e muito mais mecanizada, electrónica, personalizada e autoral.

Sobe ao palco acompanhado de Erik Jansson, colaborador desde os primeiros lançamentos, que tomou conta da mesa e do piano, dois suecos altos de tez pálida e muito loiros, destacando-se claramente com uma luz muito própria da restante mescla de cabelos morenos e barbas fartas. Até nós não trazem apenas o último álbum, não lhe retirando obviamente o foco, mas uma retrospectiva feliz e coerente da sua carreira, tocando inclusive uma versão carregada de jinga de It Hurts Me So, retirado de Whiskey, o seu primeiríssimo álbum.

#12 Jay-Jay Johanson

Ao vivo e com as possibilidades que um sistema de som completo oferece, o lado electrónico da sua música ganha uma dimensão atmosférica que a audição caseira não deixa prever, combinando a delicadeza das teclas com a intermitência das batidas características do estilo, como um metrónomo descompassado que nos acelera a batida do coração e nos agita as ancas contra os corpos das pessoas que nos apertam na plateia, tal como o som se balança entre o sintético e o experimental. Há um ténue equilíbrio que pende claramente para a sinuosidade e melancolia no ambiente criado; uma suavidade que nos faz sentir que cada faixa é dirigida a alguém, cantada a meia-luz numa sala ocupada apenas por duas pessoas.

I hear your voice / I touch your hair / I see the traces everywhere. As líricas são distintamente pessoais e cantadas na primeira pessoa, retratando a saudade e a mágoa de uma vivência em que muitos de nós se conseguirão retratar. Contrastando com o ritmo electrónico, o aveludado maduro da voz de Jay-Jay não se perde, mas destaca-se como o factor maior da sua música, enriquecendo o emaranhado com um deslizar subtil e encantador da narrativa, entregue de forma simples, directa e completamente inebriante. Oh it’s frightening / But yet so delightful – o refrão de NDE, faixa maior do último álbum, descreve na perfeição a experiência, que nos arranca um sorriso quente apesar dos temas soturnos ou contemplativos.

Atrás do microfone, o autor curva-se, sorri e agradece-nos a presença e a forma como o recebemos, sempre muito autêntico. Depois dele ainda virão os Correspondents, duo de electro-swing britânico que se fez famoso por pegar nas nossas pernas e fazer delas o que a sua música bem quiser; mas a nossa noite aqui está feita, de copo de vinho na mão e sorriso estampado na cara.

Designer e ilustrador a quem nunca ninguém disse que não sabe escrever. Neste momento dispõe de cerca de um metro e oitenta de altura e de uma conta bancária no negativo.