Os Oito Odiados (The Hateful Eight) por David Bernardino

Os Oito Odiados (The Hateful Eight) por David Bernardino

Os Oito Odiados

Cada vez que Tarantino lança um novo filme existe uma grande agitação. Pulp Fiction é um dos maiores filmes de culto de sempre, por razões que todos sabemos, e a cada novo trabalho do realizador surge a expectativa de termos uma espécie de novo Pulp Fiction. A questão é que Tarantino evoluiu. Saiu do seu carismático entretenimento gangster para se debruçar sobre questões um pouco mais sérias, como o nazismo, o racismo e, agora com The Hateful Eight, as raízes dos grandes pecados dos Estados Unidos da América, que durante tanto tempo têm sido escondidos. Eu diria mais: ao longo de décadas têm sido esquecidos, tal é a grandeza do trauma dessa nação.

Não estarei a exagerar se disser que mais de metade dos americanos não estará particularmente bem informado sobre o período esclavagista da América, e o esforço de Tarantino para tratar tais temas tabu, sem abdicar do seu estilo pessoal, é de louvar, mesmo sabendo que não é por esses motivos que existe uma legião de fãs a suportá-lo. Por muito egocêntrico que o homem seja, a verdade é que tem motivos para isso. A série Z de Death Proof, o gangster movie de Reservoir Dogs e Pulp Fiction, o revenge flick asiático de Kill Bill, o western de Django Unchained, tudo isto são cartas de amor a um certo cinema outsider que preencheu a história da sétima arte norte-americana e que, graças a Tarantino, deixou de ser outsider e passou a ser um orgulhoso mainstream de qualidade respeitado por praticamente todos os quadrantes do público e da crítica.

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Em The Hateful Eight, Tarantino reduz o cinema à pureza da trama, da interpretação, da personagem, em detrimento de explosões, perseguições e grandes cenários. Aqui existem dois: uma diligência e uma estalagem perdida algures no meio de um inóspito Inverno de meados de 1870 nas montanhas do Wyoming, filmadas em película num glorioso formato 70 mm, coisa que já não se usa há 40 anos. Mais uma vez o realizador envia carta de amor ao lendário compositor Ennio Morricone e recicla a cunho próprio o western spaghetti, actualizando-o e dando-lhe uma rara profundidade que rivaliza sem medos com Sergio Leone, ainda que aqui escolha um minimalismo que irá ser reprovado por muitos mas que, como se compreenderá, é vital para a sua missão que não é de todo só essa.

Relembremos que The Hateful Eight é proveniente de uma peça de teatro escrita pelo próprio Tarantino, e como tal é natural que a maior parte da sua acção se foque em apenas um cenário, não sendo por uma mera questão exibicionista (para isso já houve quem filmasse este ano estas mesmas montanhas) que é filmado em 70mm. Por vezes cria-se a ilusão de palco e The Hateful Eight torna-se teatro filmado, até pelas interpretações que oferece dignas desse registo, um pouco como fez Liv Ullman, a musa de Bergman, no seu Miss Julie do ano passado. Os 70mm constroem esse palco na tela do cinema.

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O filme vive das suas personagens, do seu simbolismo e do seu diálogo, que exprime todo o ressentimento provocado pela Guerra de Secessão, a Guerra Civil que opôs Norte e Sul durante a presidência de Lincoln entre 1861 e 1865, ano em que foi assassinado. Em causa estava a escravatura de negros levada a cabo pelos Estados do Sul e que foi abolida pelo Presidente, criando uma rotura dentro dos Estados Unidos. Está lá tudo em The Hateful Eight que não se inibe de utilizar estes fantasmas para por vezes fazer cinema de terror, particularmente através de uma diabólica, quase que possuída, Jennifer Jason Leigh que parece ter saído d’O Exorcista, mas há também vómitos dignos de zombie e isolamento gelado, com Kurt Russel a piscar o olho a The Thing de Carpenter. E não se confunda referência ou homenagem com cópia e apropriação. Tarantino só sabe fazer a primeira.

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Entre um idoso coronel que combateu pelo Sul, ao britânico carrasco, passando pelo caçador de prémios, pelo xerife, pela fora-da-lei, pelo cínico justiceiro negro que sofreu a secessão na pele, e terminando no símbolo que é Lincoln, estão aqui todos os traumas deste período da história dos Estados Unidos, desenvolvidos e representados em tela quase como uma lição histórica e social que o espectador tem que saber merecer. Estão lá todos, quais personagens de Cluedo, lançando suspeitas à “Reservoir Dogs”. E quando existem armas em punho a coisa muda de figura e não deixa de ser irónico como essa ainda é uma realidade nos dias de hoje por aquelas bandas. Não se pode esperar de The Hateful Eight apenas o espalhafato estiloso e inteligente com que o seu realizador gosta de brindar o público, e é por vezes o próprio público que ironicamente o escraviza quanto a essa insconsciente obrigação de entertainment. Na realidade estes Oito Odiados aproximam-se mais do estereótipo do “cinema minimalista de autor” do que propriamente do show-off (fabuloso) de “Pulp Fiction”. Isso não o impede de ter também o seu show-off, aqui muito mais simbólico e contido, mas igualmente delicioso.

Há que saber dar valor à genuinidade de The Hateful Eight, ao seu argumento, à sua metáfora, à sua caracterização, às suas interpretações, mas sobretudo ao seu significado quer para o cinema americano e a sua história em geral, quer para a história dos Estados Unidos em si. Este filme é uma das coisas mais necessárias que passaram nas salas de cinema nos últimos anos e, não sendo um produto imediato, só o tempo lhe trará justiça.

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Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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