Carol

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Nos bastidores de Hollywood, uma inglesa e uma australiana competem de forma velada pelo epíteto d’ a próxima Meryl Streep. São duas actrizes ainda jovens mas já muito premiadas, cuja constância e sobriedade lembram o percurso da grande senhora do cinema americano. Os nomes delas figuram em quase todos os certames – e este ano não é excepção. Falamos de Kate Winslet e Cate Blanchett, ambas nomeadas para prémios da Academia. Um pouco mais velha e experiente, a luminosa Cate Blanchett leva alguns passos de avanço, com dois Óscares e um total de seis nomeações. Enquanto o público não esqueceu ainda a Jasmine de Woody Allen, ela apodera-se de outra personagem-título: Carol.

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O argumento de Phyllis Nagy adapta o romance semi-biogáfico The Price of Salt (escrito em 1952 por Patricia Highsmith sob o pseudónimo de Claire Morgan) e retrata a relação proibida entre duas mulheres de idades e condições sociais distintas na conservadora América dos anos 50. Carol, uma elegante dona de casa da alta sociedade, conhece Therese (Rooney Mara), uma tímida vendedora de brinquedos aspirante a fotógrafa. Carol está prestes a divorciar-se de Harge (Kyle Chandler) e Therese está noiva de Richard (Jake Lacy); mas com o tempo, a cumplicidade inicial transforma-se num romance, que Harge utiliza como argumento para privar Carol da guarda da filha. A protagonista vê-se forçada a escolher entre a amante e a filha.

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Parece manter-se intacta a sensibilidade queer do trabalho de Haynes – presente em Far from Heaven ou no fabuloso Velvet Goldmine que resistindo a uma atitude militante, trata com naturalidade a questão da homossexualidade e a insere no debate universal das questões do amor. No entanto, se em Velvet Goldmine havia surpresa e extravagância, o ritmo lento e o formalismo excessivo de Carol dificultam o envolvimento do espectador. Não pode dizer-se que contribua para reacender a discussão, socialmente necessária, sobre o preconceito que existe ainda em relação à homossexualidade (principalmente quando os trabalhos recentes em torno desta temática se amontoam). Os seus méritos são outros. Haynes consegue uma vez mais uma reprodução meticulosa de um sentimento de época – presente na linguagem corporal das personagens, na banda-sonora de Carter Burwell, no guarda-roupa, na caracterização, no rigor do design de produção, na belíssima fotografia de Ed Lachman. Se a premissa da narrativa é a relação amorosa entre duas mulheres (que em 1952 era moralmente condenável e punível por lei), a abordagem de Haynes transforma o filme numa crónica de costumes que ultrapassa a questão central e oferece uma janela de leitura para um determinado tempo, sociedade e costumes. Por outro lado, ao contrário do mui histriónico Velvet Goldmine, há em Carol uma reserva emocional e uma subtileza erótica que tarde se desvelam. O minimalismo da escrita permite que a trama se desenvolva por meio de silêncios e omissões que nos levam a interpretar e a supor sobre a relação de Carol com o marido, com a ama da filha, com Therese ou com ela própria. Por isso, Carol é sobretudo um filme de actrizes e do seu realizador.

Cate Blanchett é a alma do filme. O seu porte aristocrático, altivez e elegância “transformam-na” automaticamente em Carol, sem que tenha sequer que abrir a boca. A sua representação traduz um equilíbrio impecável entre a sedução explícita, o autocontrolo e a angústia da personagem – na forma como se move, como olha, como respira. A jovem Rooney Mara surpreende com uma antítese de alguns papéis complicados do seu currículo, com a recriação de uma jovem inocente da classe trabalhadora, fascinada pela mulher mais velha, mas não subjugada por ela. A cena final – silenciosa e muito impactante – prova que estamos perante a arte de duas actrizes excepcionais (uma delas pode bem ser a próxima Meryl Streep) e perante um realizador sensível, que não precisa de muitas palavras para contar uma história.

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Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

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