Caso Spotlight (Spotlight) por João Torgal

Caso Spotlight (Spotlight) por João Torgal

O Caso Spotlight

Foquemo-nos numa simples cena de Spotlight. Num dos muitos passos desta investigação sobre o caso de pedofilia dos padres norte-americanos, uma das vítimas, bem na vida e que preferiu esquecer o passado, desata num pranto avassalador. Mas nós não vemos isso acontecer. Apenas sabemos pelo olhar de um dos jornalistas do Boston Globe, interpretado por Michael Keaton.

A cena anterior é reveladora do que é o filme. Esta não é uma história de pedofilia na Igreja Católica. Não pretende incutir-nos, de forma mais sensacionalista ou genuinamente emotiva, qualquer sentimento de piedade pelas vítimas ou de ódio pelos violadores e pela hipocrisia da instituição. É antes um relato pormenorizado da investigação jornalística, pelo que é sobre a pedofilia, como podia ser sobre a corrupção económica ou sobre um escândalo político (a referência a Homens do Presidente é incontornável). E, por isso, mesmo nos momentos mais comoventes, como no coro da igreja, acompanhamos sempre o olhar de Michael Rezendes (Mark Ruffalo), do repórter e do ser humano que está por detrás dele.

spotlight

Muitos dirão que, mesmo com actores, o filme de Tom McCarthy segue quase uma lógica documental. É verdade, mas isso, neste caso, é um aspecto muito positivo. Não porque ficção e realidade devam estar separados, mesmo quando falamos de casos concretos e verídicos. Mas porque há aqui uma minúcia e um detalhe no argumento, e na forma como a montagem o serve,  que era fundamental para conseguir passar todo o caminho árduo destes jornalistas. Um caminho que, no meio da investigação, passou pelo 11 de Setembro, com tudo o que isso envolveu. Talvez as pressões e as contingências não sejam tão nítidas como deviam, no que pode ser o ponto mais fraco do filme, mas fica claro que este foi um percurso duro e marcado por avanços e recuos.

Spotlight é uma obra de uma beleza notável. Que presta uma justa homenagem a esta equipa de repórteres e que nos dá sinais de esperança sobre como o jornalismo pode estar ao serviço da sociedade. Basta ver alguns detalhes, como a luta do director contra o status quo e os poderes instalados (e também contra as pressas da própria equipa, como vemos a um dado momento). Ou o final sóbrio, mas inspirador. E, assim, Spotlight afirma-se como um manifesto de cidadania. Não só a investigação propriamente dita, mas também o filme que a recorda de uma forma muito interessante.

8

João Torgal