A caminho dos Óscares 2016: Os Actores

A caminho dos Óscares 2016: Os Actores

Lançámos um desafio à equipa de cinema do Arte-Factos: defender a sua dama no caminho para os Óscares. De entre os nomeados, aqui ficam os argumentos para que o Óscar vá (ou não) parar direitinho à lareira lá de casa.

Michael Fassbender

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Nomeado na categoria Melhor Actor por “Steve Jobs

Os 5 actores nomeados na categoria Melhor Actor são muito fortes, mas o actor do momento é Michael Fassbender. Tem vindo a destronar Christian Bale no trono de melhor actor e em Steve Jobs entrega mais uma daquelas interpretações incomuns que enchem todo o écrã.  É certo que DiCaprio merece receber um Óscar, mas tendo em conta as específicas interpretações com que concorrem, Fassbender mostra que é mais actor que o rival. De resto, Fassbender já justifica Óscar. Hunger, Shame, 12 Years a Slave, Fish Tank e mesmo Prometheus ou Inglorious Basterds, às quais se junta esta, são interpretações de mão cheia, e se for para premiar o seu excelente momento, o irlandês recebe muito bem a estatueta. David Bernardino

Tom Hardy

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Nomeado na categoria Melhor Actor Secundário por “O The Revenant

Tom Hardy não é propriamente o arquétipo do actor de Hollywood reconhecido pela Academia. Lembram-se das tonterias do Colin Farrell ou do Russell Crowe, apelidados de bad boys da indústria? Hardy mete-os no bolso: passou a adolescência mergulhado em toxicodependência (começou por cheira cola, um clássico) e em 2003 foi encontrado meio sem vida no Soho. Talvez seja essa a força motriz deste actor físico, que transmite no ecrã uma energia única: a capacidade de renascer das cinzas e a vontade recuperar a vida que em tempos desperdiçou. 2015 foi um ano exemplar para Tom. Não é certo que mereça o Óscar pelo seu desempenho em The revenant, especialmente tendo um Christian Bale na mesma categoria, mas deveria ter recebido mais atenção pela sua interpretação em Mad Max: Fury Road. Com poucas falas e muita presença, Tom Hardy conseguiu transfigurar e trazer para o século XXI a personagem imortalizada por Mel Gibson ainda nos anos 80. No que a mim diz respeito – e se mandasse eu nisto tudo – Tom Hardy merece um BAFTA, um Emmy, um Grammy, um Nobel. Merece tudo, só por ter sido capaz de recuperar até daquelas fotos escandalosas do MySpace. Resta saber se merece um Óscar, aos olhos da Academia. Isabel Leirós

Christian Bale

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Nomeado na categoria Melhor Actor Secundário por “The Big Short

Lembram-se do Império do Sol? Uma das obras primas de Steven Spielberg, foi o filme que catapultou Christian Bale para a fama quando tinha apenas 13 anos. O mundo rendeu-se à maturidade com que abraçou um papel tão exigente e que desempenhou de forma irrepreensível. Ao contrário de muitos colegas de profissão que atingem o pico igualmente novos e que não conseguem lidar com as contrariedades da fama, Bale foi um dos que inverteu a tendência e construiu uma carreira sólida, que o tornou num dos melhores actores da sua geração. Camaleónico, já o vimos fazer de tudo e a ele devemos algumas das personagens mais intensas do cinema contemporâneo: destaque para o serial killer Patrick Bateman, figura central na acção de American Psycho. Irreconhecível, encarnou também Trevor Reznik, O Maquinista que esconde um segredo e a quem as insónias  geraram um estado de magreza extrema. Recorde-se que para este papel, Bale teve de perder dezenas e dezenas de quilos. Estes dois papéis destacam-se de um conjunto de outros mais que demonstram que Bale é exímio em interpretar personagens sombrias, com segredos terríveis, com uma naturalidade que só é permitida a actores de topo.

Mas falar de Bale é falar também da inesquecível trilogia de Batman idealizada por Christopher Nolan. No papel de Bruce Wayne / Batman, conquistou os milhões de fãs da saga de banda desenhada por todo o mundo com uma personagem bem construída e cuja inserção num contexto actual a torna credível. E foi este carácter de seriedade conferido a uma personagem intemporal que fez com que Nolan e Bale tenham conseguido algo que dificilmente outros conseguiram ultrapassar.

Se o grande público já estava rendido, também a Academia aprendeu a reconhecer o talento de Christian Bale: The Fighter, onde interpreta um ex-boxeur viciado em crack que começa a treinar o irmão, valeu-lhe o primeiro (e até agora único) Óscar para Melhor Actor Secundário. Por outro lado, a comédia negra Golpada Americana valeu-lhe a primeira nomeação para Melhor Actor Principal, pela subtileza com que interpreta um vigarista forçado a trabalhar com o FBI para desmascarar uma poderosa mafia. Este ano, em dose dupla, é o actor principal do novo trabalho de Terrence Malick, o Cavaleiro de Copas, com estreia prevista para o início de Março e está agora nos cinemas com The big short, um dos filmes favoritos na corrida aos Óscares, e que lhe valeu a sua terceira nomeação, como Melhor Actor Secundário. Cláudia Filipe

Leonardo DiCaprio

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Nomeado na categoria Melhor Actor por “The Revenant

Sejamos realistas, se o Leonardo DiCaprio não ganhar o Oscar este ano a Internet insurge-se contra a academia. É verdade que talvez fosse justo DiCaprio já ter pelo menos uma estatueta, mas a questão agora é: será que merece por The Revenant? Talvez, mas a probabilidade de ganhar aumenta um pouco por falta de real concorrência. DiCaprio está muito bem em The Revenant, com um papel marcado muito mais pela expressividade do que pelos diálogos, mas não será o melhor da carreira do actor. Ironicamente é por este que, com quase toda a certeza, vai ganhar o Oscar e não há nada de errado com isso. Sandro Cantante

Matt Damon

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Nomeado na categoria Melhor Actor por “The Martian

Goste-se ou não, Matt Damon tem feito alguns bons papéis, sendo, provavelmente, este o melhor nos últimos anos. É verdade também que já levou para casa o Golden Globe pela prestação no filme de Ridley Scott, mas será um potencial vencedor ao Oscar? Dificilmente. Não é regra que todos os actores nomeados tenham de ter prestações dignas de nomeação, mas é ainda mais raro um actor ganhar o Oscar sem que a sua nomeação seja muito compreensivel. Matt Damon esteve bem em The Martian, como Johnny Depp em Black Mass, por exemplo, numa categoria mais abaixo. Um papel sofrido não deve ser sinónimo de Oscar. Sandro Cantante

***

O único Oscar vencido por Matt Damon foi o de “Argumento” e durante uns tempos, o rapaz pareceu ser outro Leonardo DiCaprio: actor popular, carinha laroca e um rapaz que escolhe muito bem com quem trabalha. Outra coisa: precisou de esperar até 2010 para finalmente ser nomeado numa categoria de representação, a de Actor Secundário por Invictus. Percebe-se: Damon não é dado a histrionismos ou excessos de dramatismo: com o cabelo alourado e uma inteligência nata, é um Robert Redford que vai passando despercebido, mas consegue ser, em todos os filmes em que entra, a ponte entre a audiência e o filme. É por ele que The Martian resulta: perdido no espaço, sozinho num planeta deserto e tendo para contracenar, muitas vezes, os seus píxeis num ecrã, ele é a Humanidade num filme onde nos é pedido, como colectivo, que nos importemos com este botânico abandonado algures e que obriga a quebrar e dobrar regras para trazê-lo de volta. Bring him home, diz-se muitas vezes no filme… e concordamos. Afinal, ele é Matt Damon, o elemento humano do cinema comercial norte-americano. Bruno Ricardo

Mark Rylance

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Nomeado na categoria Melhor Actor Secundário por “Bridge of Spies

A carreira de Mark Rylance começou em 1985. Desde então, até Bridge of Spies, o filme que marca a sua primeira nomeação aos Óscares, o actor britânico, fez onze filmes. Onze. Não dá sequer um por ano. Rylance é daqueles actores que afirmam o seu amor ao teatro e não é só paleio: o homem é um ídolo nas tábuas do palco, tendo ganho um prémio Olivier no Reino Unido e três Tonys nos EUA. É um ídolo entre actores e isso poderá carrega-lo até aos Oscar. Ajuda que a sua performance em Bridge of Spies seja muito boa. Não é emocional nem exagerada, e não tem de ser ambígua porque mal este thriller de espionagem começa, a culpabilidade ou não do seu Rudolph Abel fica estabelecia aos nossos olhos. O poder de Rylance está na maneira como nos controla naquilo que deixa transparecer. Conhecemos o que ele quer e interpretamos os seus silêncios grávidos de significado, os olhares que cortam o estuque da sala, todo o calor que pode vir de uma pequena piada ou de um aparentemente vulgar aperto de mão. É uma lição de minúcia e observação por um actor que respira Teatro e expira a psicologia humana que revela, nas sombras, o mundo interior de homens numa altura e num contexto onde era perigoso fazê-lo abertamente.  Bruno Ricardo

Mark Ruffalo

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Nomeado na categoria Melhor Actor Secundário por “Spotlight

Mark Ruffalo é daqueles actores tão consistentemente bons ao longo dos anos e tão permeável na memória da sua imagem que eu achava, genuinamente, que já tinha sido nomeado mais do que as três vezes que constam do seu currículo (em 2011, por The Kids are Allright, o ano passado por Foxcatcher e este ano). Começou por ser indie darling, mas rapidamente evoluiu para aquele tipo de papéis secundários curtos mas marcantes que ficam connosco pela vulnerabilidade, pela exposição, pela empatia (You Can Count On Me, Zodiac, Blindness entre tantos outros). Ah e, claro, também houve o Hulk no The Avengers. Este ano é um jornalista workaholic, solitário que é incapaz de permanecer imparcial perante a monstruosidade que relata. Não vai ganhar, mas merecia. Quantos mais homens comuns competentes (mas algo falhados), sensíveis (mas fugidios) terá de desempenhar para isso? Raquel Sampaio

Sylvester Stallone

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Nomeado na categoria Melhor Actor Secundário por “Creed

Stallone não vai para novo e quer queiramos quer não é uma das figuras mais emblemáticas de Hollywood desde os anos 70, muito devido ao cinema de acção mas também a Rocky Balboa. Stallone agradeceu à personagem, seu melhor amigo imaginário, no momento em que recebeu o Globo de Ouro de melhor actor secundário por Creed, e tem motivos para isso. É a personagem, escrita pelo próprio, que o marca. Foi com Rocky  em 1977 que obteve a sua única nomeação para Óscar (actor e argumento) e agora encerra esse ciclo, essa personagem, com outra nomeação que provavelmente irá premiar a sua carreira. Em Creed, Stallone tem um incomum desempenho dramático que merece ser recordado e celebrado com a estatueta dourada. David Bernardino

Eddie Redmayne

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Nomeado na categoria Melhor Actor por “The Danish Girl

E se o Eddie Redmayne ganhasse o Óscar de Melhor Actor dois anos seguidos? Pode ser estranho, mas não é improvável. A poderosa interpretação da transformação de Einar Wegener em Lili Elbe tem deixado uma inúmera quantidade de críticos rendidos. E são, aliás, as interpretações dos dois actores principais (juntamente com Alicia Vikander) que tornam A Rapariga Dinamarquesa num filme relevante para a temporada dos Óscares. Redmayne está irrepreensível, provando novamente que é um dos melhores actores da sua geração: é intenso na construção da sua personagem, é complexo quando o papel assim o exige. E encarna o crescendo dramático de Wegener até ao ponto em que não consegue mais reprimir a mulher que sempre viveu dentro de si de uma forma tão realista que nos dói na pele. Cláudia Filipe

Bryan Cranston

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Nomeado na categoria Melhor Actor por “Trumbo”

A carreira de Bryan Cranston, já longa e multifacetada, tem apenas conhecido um sentido nos últimos dez anos: o ascendente – em ambos os ecrãs. O seu papel em Trumbo, na personagem titular, o argumentista, realizador e escritor Dalton Trumbo, é um papel de prestígio – isco para Óscar, portanto. Polémico, irascível e cheio de contradições, é um desafio para actores de gabarito e alvo de prováveis encómios. Uma interpretação que desabrocha e se agiganta ao longo de um filme que não lhe faz jus. Ainda que deixando de fora a irascibilidade de Trumbo e abordando superficialmente as suas convicções (mais pelo argumento do que pela interpretação), Cranston dá-nos um Trumbo com todos os tiques de quem vive na bolha de Hollywood de então; um herói de biopic mavioso mas pleno de contradições: burguês mas comunista; quer justiça mas é injusto com a família; pretensamente anónimo mas orgulhoso da própria obra, entre outras. Justamente nomeado, com um argumento e filme melhores seria a interpretação de toda uma carreira. José Raposo

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