Festival Rescaldo na Culturgest (19-20/02/2016)

Festival Rescaldo na Culturgest (19-20/02/2016)

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A 9ª edição do Festival Rescaldo desdobra-se novamente pela Culturgest e pela Galeria Zé dos Bois, tendo arrancado com Filipe Felizardo e OZO na passada sexta-feira e Timespine e Norberto Lobo no sábado. Ao longo da próxima semana a Galeria Zé dos Bois acolherá Acid Acid e Plus Ultra, no dia 25, e a 26 será a vez dos Papaya e dos barcelenses Black Bombaim, acompanhados pelo convidado especial Peter Brotzmann, invadirem a Garagem da Culturgest. O Rescaldo termina no dia 27 com HHY & the Macumbas, Tren Go! Sound System e Gala Drop, mais uma vez na Garagem da Culturgest. Estivemos presentes nestes dois primeiros dias e não poderíamos ter ficado mais satisfeitos.

I don’t care much about music. What I like is sounds!”, Dizzy Gillespie.

Terminadas estas duas primeiras noites são duas as certezas: a de querer voltar e a de tão cedo não me propor a escrever sobre o que se passa no Pequeno Auditório da Culturgest por estes dias – por falta de engenho, claro está.

Norberto Lobo era, possivelmente, o nome mais estabelecido deste fim-de-semana. Daí a lotação da sala, que esteve pela metade no primeiro dia, ter esgotado no segundo. Porém, uma das grandes vitórias do festival foi o facto de nenhum concerto ter sido, de forma alguma, “melhor” que outro. Este Rescaldo fez-se de somas; somas e sobreposições de personalidades bem vincadas, de músicos genuínos que não pisam o palco para “dar espectáculo”. E já que enveredamos pela aritmética, acrescentemos que até a prova dos nove nos falhará se em algum momento nos cingirmos ao palpável. Quantificar, qualificar e categorizar a natureza de Timespine ou Filipe Felizardo seria o mais crasso dos erros.

Às 21h45 em ponto já Felizardo enchia o Pequeno Auditório com severas ressonâncias. Nome emergente da experimentação a seis cordas, Felizardo relembrou-nos que no fundo somos carne e ossos, que somos apenas Homens, com todo o fardo e todo o maravilhoso que isso acarreta. Básico no melhor dos sentidos, Felizardo traduz o homem introspectivo para o dialecto da distorção. Poderíamos ter fechado os olhos e dado com o passado a sair da penumbra, a mandar-nos tudo à cara, a rir-se de nós. No entanto o que encontrámos naquela mescla de distorção e feedback rudes foi mais serenidade e aconchego do que raiva ou frustração. Degustado o mata-bicho, Felizardo cedia o palco a OZO.

Quem disse que um piano não é um instrumento de percussão? Quem disse que uma chávena de chá, umas correntes e três ou quatro pauzinhos chineses são menos pertinentes que um violoncelo? Os OZO não acreditam em manuais de instruções, e se os consultam é apenas em tom de desafio. A mim, tiraram-me o ar, atrapalharam-me o ritmo cardíaco e relembraram-me o porquê de saber na ponta da língua a resposta à pergunta, “Preferias ficar cego ou surdo?”. Pensava que era uma espécie de jazz, mas não. Era mesmo OZO. Terminado o concerto, deixaram-nos mudos por uns instantes.

Adriana Sá, John Klima e Tó Trips são os xamãs que evocam Timespine, legitimando assim o termo ‘música exploratória’. Se algo de pretensioso havia nesse rótulo, os Timespine trataram de dissipar essa ideia. Até porque bastou fechar mais uma vez os olhos e a bolha da banda levou-nos até à alvorada numa ilha tropical perdida algures no triângulo das bermudas. Os três músicos desbravavam floresta nos limites da intuição enquanto nos testavam a percepções. Já não estávamos cá quando terminaram o concerto e cederam o palco a um Norberto Lobo que nos devolveu à terra.

Fala-se em Teoria da Tradução, da impossibilidade da mesma. No entanto, por mais quimérico que seja o empreendimento do tradutor este é, acima de tudo, necessário. Há também quem diga que só um poeta pode tentar, sublinhemos, tentar traduzir um poeta. Pois que o que Norberto Lobo fez com aquelas guitarras (uma eléctrica e outra acústica) foi poesia; poesia livre das jaulas da métrica. Não há tradutor que lhe valha.

A 9ª Edição do Festival Rescaldo não poderia ter começado melhor. A música, a arte – chamem-lhe o que quiserem – pode e deve ser experimentação, uma exploração de novas formas e técnicas que no final só vai aprofundar a experiência humana. Num Portugal que muitas vezes insiste em cheirar a bafio, em relembrar-nos as opções decorativas da casa da nossa tia-avó (Menino da Lágrima, esse ex-libris kitsch), eventos como o Rescaldo são o que nos salva. Relembram-nos – até porque às vezes é preciso – que há mesmo coisas extraordinárias a serem produzidas por cá, projectos que em nada ficam atrás do que se faz lá fora e que não precisam de seguir nenhuma fórmula ou tradição específicas. Por isso, sim, precisamos do Rescaldo, precisamos de pessoal que não vive envolto num apego crónico ao passado e que também não quer saber de modas. Pessoal que cria pelo gozo de criar. Pessoal que não se inscreveu no concurso de popularidade lá do liceu e que se está nas tintas para os likes no facebook e as visualizações no soundcloud.

Ricardo Almeida

Nasceu em 89, não gosta de futebol e tem Demis Roussos como líder espiritual.