Mustang

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Nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Mustang vem rotulado como uma espécie de Virgens Suicidas turco. Percebe-se a ideia, mas a referência é algo enganadora. A cadência dramática do filme de Sofia Coppola não está ausente, mas surge diluída num olhar bem mais leve e propositadamente cómico desta família.

Estamos na Turquia rural e seguimos o crescimento de cinco irmãs órfãs. É a história da descoberta adolescente numa sociedade rural e conservadora. Assim, vamos vendo os sucessivos casamentos combinados, que mostram os diferentes feitios das miúdas, entre a submissão e a rebeldia. E, em vez de enfiadas num quarto (como em Virgens Suicidas), vão sendo criadas grades para impedir a “fuga” ou libertação individual destas jovens.

Mustang

O maior problema está na ausência de um foco narrativo mais forte. Os momentos mais cómicos desviam as atenções do lado mais dramático e, quando ele surge de forma mais intensa, não é muito convincente. Talvez o filme ganhasse em focar-se num número mais reduzido de personagens, permitindo uma maior complexidade psicológica e uma empatia mais forte com o espectador. Ou então em manter, do princípio ao fim, o ponto-de-vista de uma das miúdas (algo que promete, mas não chega a cumprir), o que legitimaria alguma leveza e ingenuidade do olhar.

Enfim, Mustang não é um filme desprezível. Do ponto de vista estético, tem uma fotografia e imagens bem bonitas e, no contraste entre o conservadorismo rural e a modernidade urbana na Turquia, tem uma imagem de descoberta de Istambul que é bastante forte. Mas, demasiado dividido entre uma perspectiva naif de que se afasta e um peso dramático que não atinge, sabe a pouco. Especialmente dado o rótulo demasiado ousado com o que o filme é “vendido”.

5

João Torgal