Allen Halloween no Santiago Alquimista (27/02/2016)

Allen Halloween no Santiago Alquimista (27/02/2016)

#21 Allen Halloween

Fotos por Ricardo Almeida

O cansaço personificado nos “velhos all star”, o capuz na cabeça e a cadência na forma como entra em palco anunciam um concerto onde não se irá ouvir os constantes e saloios “façam barulho” e “vamos partir esta m**** toda”. Não, Allen Halloween não é vedeta. Halloween convida-nos a visitar e celebrar o seu trabalho, mas dispensa histerismos patetas.

Se enquanto ‘tipo que tira umas fotografias de vez em quando’ a confiança escasseia, como escriba esta roça a nulidade. Felizmente, a nossa Isabel encarregou-se de fazer a raportagem do concerto de Braga, pelo que o serviço público está assegurado. Vou, por isso, falar-vos um pouco de como descobri e como tenho acompanhado Allen Halloween ao longo dos últimos anos.

Lembro-me de andar na escola e de ver o pessoal fascinado com um tal de Halloween, um rapper que nos contava a história de um desgraçado que tinha de “dar o rabo para comprar cavalo”. Estávamos em 2006 e Projecto Mary Witch foi um soco no estômago de nós todos. Dos mitras aos betos, dos skaters aos jogadores da bola, dos “meninos do SASE” aos que “comem carne todos os dias”, todos levavam “Dia de um dread de 16 anos” na ponta da língua.

Projecto Mary Witch apresentou-nos um rapper diferente de todos os que já tínhamos ouvido. Halloween ‘não papava grupos’, mas também não era fanfarão nem se julgava ‘o maior lá da aldeia’. O flow rouco e pausado aliado ao realismo sujo das histórias que nos contava marcavam desde logo a trademark do rapper de Odivelas.

Era o (sub)mundo dessas histórias que nos fascinava. Afinal, para muitos de nós tratava-se um universo distante e desconhecido – um misto de curiosidade e receio. No entanto, afirmar que o disco vale pelo shock value seria injusto. Desde o início que Halloween provou ter uma visão muito particular para o seu trabalho, mostrando-se determinado em criar um estilo muito próprio sem se apoiar em moletas nem puxar o lustro a sapatos alheios.

Numa actuação tardia (o concerto começou às 02:00h) e relativamente curta, o Alquimista provou não se ter esquecido do álbum de estreia e clássicos como “S.O.S. Mundo” e “Mary Bu” foram recebidos calorosamente. “Fly Nigga”, esse, fez vir ao de cima um certo saudosismo. Seguiu-se “Drunfos”, o cartão-de-visita para Árvore Kriminal.

Mesmo sem a atenção da maioria dos órgãos de divulgação de música o nome de Halloween não havia caído no esquecimento em 2011- o underground trata bem os seus. Árvore Kriminal chegou e mostrou-nos um indivíduo amadurecido a viver as consequências das suas escolhas, a reavaliar as pessoas e o mundo à sua volta. Se Projecto Mary Witch é violento e criminoso, Árvore Kriminal é introspectivo e marca uma tomada de consciência, o dilema de um homem derrotado e exausto que quer mudar de vida mas por mais que fuja volta sempre ao mesmo lugar.

Com a experimentação e a ousadia como traços que lhe justificam o nome, Híbrido, o terceiro capítulo, chegou-nos no ano passado e, tranquilamente e ‘sem dar espiga’, trepou as listas dos melhores do ano. Enquanto produtor, Halloween poliu a sua sonoridade, inovou e como disse a Isabel, “explorou os seus limites”. Mais fluído que nunca, Halloween não é tipo de se preocupar demasiado com a métrica e artifícios bacocos do género, Halloween prefere concentrar-se em relatar-nos a sua verdade sem truques ou malabarismos.

Basta-nos ouvir a primeira faixa, “Bandido Velho”, para comprovar que Híbrido é, por um lado a evolução natural de Árvore Kriminal, por outro mais um ponto de viragem na carreira da Bruxa. Híbrido é o ‘cota’ Halloween que sabe que “já fez muita merda” a dizer aos mais novos, “Tu só arranjas problemas, tu não pensas no futuro. Que é que tu queres da vida? Tu já não és um miúdo” … mas, como sempre, “ninguém ouve”.

No Alquimista, Halloween fez a festa com os únicos que lhe interessam, os seus. Não o vamos ver nem em super-grupos nem nas festas do pessoal cool. Não, a cena do Halloween não é essa.

Ricardo Almeida

Nasceu em 89, não gosta de futebol e tem Demis Roussos como líder espiritual.