Deafheaven no RCA Club (04/03/2016)

Deafheaven no RCA Club (04/03/2016)

#37 Deafheaven

Não há luz sem trevas, nem beleza que se eleve sem bestialidade, foi isso que os Deafheaven provaram num concerto tremendo na passada sexta-feira no RCA Club em Lisboa, onde fomos violentamente sacudidos entre momentos tortuosos de espírito e estados de graça transcendentes.

A noite caiu soturna pela voz misteriosa da nórdica Amalie Bruun com o projecto Myrkur, criando aquela névoa mágica onde habitam seres mitológicos, mas num registo melódico e etéreo que pareceu ficar um pouco longe da agressividade presente nos álbuns. Ou talvez isto fosse também reflexo da nossa impaciência por ver por fim os senhores da noite, Deafheaven que, após um curto intervalo, apresentaram-se em palco com George Clarke a anunciar o que acabaria por ser o alinhamento da noite, New Bermuda, o sucessor de Sunbather, tocado na íntegra e pela ordem em álbum.

Os californianos dividem públicos e a verdade é que após o estrondo que foi o LP de estreia Sunbather, em que receberam os mais rasgados elogios vindos não só de publicações de metal como foram também elevados aos píncaros dos escaparates indie da Pitchfork, tornaram-se em pouco tempo para uma massa generalizada o rosto bonito do black metal (e ainda há quem diga que nos dias de hoje as críticas musicais já não têm qualquer influência naquilo que nos chega aos ouvidos). A fama bafejou os Deafheaven e o sucesso, já se sabe, incomoda muita gente. Em tempos perguntei a um amigo metaleiro qual a razão de tanta animosidade para com os Deafheaven: “O problema é que as pessoas do black metal levam isto muito a sério”. A mim parece-me que os géneros e os rótulos musicais é que continuam a ser levados demasiado a sério, se gostas de metal não podes gostar de hip-hop, se gostas de electrónica não podes gostar de rock, etc, etc, etc, premissas falsas que em nada se enquadram no momento actual, onde talvez já todos os géneros tenham sido inventados e a verdadeira surpresa surja naqueles que conseguem criar as pontes mais improváveis entre sonoridades opostas.

E os Deafheaven são essa amálgama de diferentes géneros, black metal, shoegaze, noise, post-rock, ambient, post-metal, conseguindo essa ponte entre públicos opostos, perfeitamente palpável na plateia diversificada de sexta-feira passada, quer dizer, até eu estava lá. O seu maior mérito, aquele que ninguém lhes tira, é trazerem até si um público que dificilmente se interessaria por sons mais pesados, e que mundo melhor seria este se todos deixássemos de lado os rótulos e os preconceitos, abrindo a mente e os ouvidos para a diferença.

Claro que falta falar da monstruosidade que são os Deafheaven em palco. Nada na aparência dos cinco denuncia o que vai acontecer. George Clarke de camisa impecável e cabelo alinhado parece saído de um desfile de moda, Kerry McCoy tem a aparência inofensiva de nerd, não há indumentária preta, ou maquilhagem que ajude à teatralidade, a explosão visual só acontece mesmo quando George se derrama de microfone sobre o público numa agressividade com alguns toques de poser, é verdade, mas numa entrega genuína, arrancando-nos emoções com os seus vocais guturais que não saberíamos sequer pôr em palavras. Foi a alternância entre instrumentais de beleza quase intocável para as descidas a sons pujantes da reverberação das guitarras sustentados pela bateria implacável de Daniel Tracy num absoluto controlo, que nos fizeram andar numa montanha russa na passada sexta-feira. E nem me façam falar dos solos irrepreensíveis da guitarra de McCoy, com especial destaque para “Baby Blue”, não se brinca assim com o coração de uma pessoa.

Tudo isto dito a única coisa que soube a pouco foi a duração do concerto. Com as cinco longas faixas de New Bermuda, tocado na íntegra, apenas sobrou espaço para “Sunbather” e “Dream House” no encore, logo quando já estávamos preparados para ouvir também Sunbather por completo, perdoem-nos o egoísmo, eu por mim com a “Vertigo” já teria ficado feliz. Ainda alimentámos a esperança de um segundo encore que caiu por terra quando Shiv Mehra regressou para desligar o amplificador, terá de ficar para uma outra vez. Mas sabemos que vimos um grande concerto quando pelos dias seguintes os ecos dessa noite ainda nos perduram no espírito, as guitarras ressoam nos ossos e a bateria ainda lateja nos tímpanos, equilibrando o caos dos dias, colocando tudo novamente no seu sítio certo.

Vera Brito

É developer nas horas vagas e agarrada a música a tempo inteiro. Não gosta de pessoas com preconceitos nos ouvidos. Prefere sagres a super bock mas sente-se dividida entre Alentejo e Douro.