Gelo

Gelo

Gelo

O tema não é novo (quantos o são?). Há, aliás, um título que nos vem facilmente à memória quando vemos Gelo. É ele The Fountain, filme de Darren Aronofsky, com Hugh Jackman e Rachel Weisz. Têm ambos uma relação mais espiritual do que real entre passado, presente e futuro. Abordam a concepção existencial da vida humana, a imortalidade e a preservação dos tecidos através do frio. E, acima de tudo, são bonitas, improváveis e comoventes histórias de amor.

Gelo tem ainda um dado adicional: a fusão entre realidade e ficção. E vemos isso desde a cena inicial. Joana é uma jovem estudante de cinema ou, mais propriamente, de argumento (e o filme cita o mestre Billy Wilder logo na fase inicial). E nada será como dantes quando conhece um colega, o estranho Miguel. Em paralelo, Catarina é uma miúda criada em cativeiro, descendente do ADN de um homem que viveu milhares de anos antes. Qual a relação entre as duas partes da narrativa? Caso isso interesse, e o filme é muito mais do que isso, é um dos mistérios de Gelo. E fica a pergunta da sinopse: “Quantos segundos te restam para viver”. Ou como é possível sobreviver quando se sonha viver no mundo dos sonhos?

Gelo - Catarina e Samuel

Esta é uma produção ibérica. Por um lado, a protagonista é a espanhola Ivana Baquero, a estrela de O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro. Por outro, os realizadores são portugueses e o filme junta alguns actores relevantes nacionais, como Albano Jerónimo, Afonso Pimentel e Ivo Canelas. E, dentro da fusão de conceitos, cada um fala apenas a sua língua nativa, como se português e espanhol fossem uma só.

Se considerarmos Gelo como um filme português, foge a muito do que estamos habituados (ou, por vezes, preconceituosamente habituados). Não tem aqueles tiques pseudos de algum cinema de autor que, mais do que parado, é cadavérico. Nem é uma a tentativa de fazer um cinema comercial simplório ou de pura imitação de alguns cânones internacionais. Há semelhanças com The Fountain, mas este é um filme com uma linguagem, uma narrativa e um olhar próprios. E, do ponto de vista estético, o minimalismo do piano de Filipe Raposo marca a cadência do filme com subtileza e há momentos visuais maravilhosos, como a simplicidade das imagens da neve ou a câmara a rodar no encontro no café entre Joana e Miguel.

Gelo - miguel e Joana

Foquemo-nos no essencial: esta é uma história de amor. Também existe na forma de casal, mas é um amor mais espiritual, complexo e abrangente. Aliás, não deixa de ser curioso que o filme seja dedicado aos pais e filhos, quando, pelo menos em termos estritamente biológicos, não existe aqui nenhuma relação maternal ou paternal. Acontece que os dois realizadores são Luís e Gonçalo Galvão Teles. São pai e filho e essa cumplicidade sente-se, mesmo que de forma subliminar, em muitos aspectos do filme. E também isso, essa ternura familiar, contribui para que Gelo seja uma das grandes estreias de 2016.

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João Torgal