Dead Combo no Teatro São Luiz (16/03/2016)

Dead Combo no Teatro São Luiz (16/03/2016)

Dead Combo

Na passada quarta-feira foi noite de guitarradas, entre mais uns quantos cordofones, numa sala bem no centro da capital portuguesa, ali mesmo ao lado da praça com o nome de Camões e de onde Fernando Pessoa permanece sentado já faz tempo. Qual conjunção de fatores tão interessante que é juntar a isto o “fazer chorar” guitarras tão tipicamente português e no qual os Dead Combo (apesar de não usarem a típica guitarra portuguesa) fazem tão bem, aliando isto a sons mais burlescos e fanfarrões, outra coisa que não é de todo estranha à maneira de ser portuguesa.

Faziam-se ali acompanhar mais uma vez pelas Cordas da Má Fama, um trio de violino, violoncelo e viola. A justificação para o lado burlesco dos Dead Combo e a má fama das cordas é facilmente enquadrada com a cenografia do palco do São Luiz nesta noite. Ao abrir das portas da sala principal do teatro vislumbrava-se de imediato no palco muitas mesas, muitas pessoas sentadas e um balcão, tudo a rodear os instrumentos musicais que estavam mais ao centro, ou seja, o palco estava transformado numa verdadeira tasca tipicamente lisboeta e sim, não era tudo a “fazer de conta”, havia mesmo cerveja, vinho e comida por ali a circular e com direito a empregado. O ambiente era e foi bastante informal durante todo o concerto e, ao mesmo tempo que os Dead Combo deliciavam auditivamente todos os presentes na sala, havia também quem no palco esticasse a mão para fazer um pedido que lhe deliciasse também o paladar. Tudo isto ajudou a justificar a fama das cordas, pois havia nelas um gosto especial por ficar na zona do balcão e sempre de copo cheio, como os Dead Combo fizeram questão de referir.

Quanto à música propriamente dita, não houve lugar para a “sujidade” das guitarras elétricas e dos seus amplificadores, a noite foi dos cordofones mais tradicionais e com uma pequenina ajuda da melódica de Pedro Gonçalves em músicas como Waits, Sopa de Cavalo Cansado ou Pacheco. O alinhamento foi bastante eclético, passado por toda a discografia da banda e por grandes músicas como Eléctrica Cadente, Putos a roubar Maçãs, Cachupa Man ou as melancólicas como Esse Olhar Que Era Só Teu, Death Drive ou Povo Que Cais Descalço, a última com direito a uma justificação das motivações que levaram à sua composição, nomeadamente os tempos que o país viveu e que, confessaram, achar não serem tão melhores agora. Ainda houve tempo para uma dedicatória de Anadamastor a uma amiga do duo e para a nova Fado a pilhas, mas o auge festivo do concerto foi mesmo em Lisboa Mulata, como não poderia deixar de ser.

Foi uma sala muito bem composta que recebeu mais um excelente espetáculo dos Dead Combo, com direito a um ambiente muito bem pensado e ainda melhor ornamentado pelo som que ali se gerava e se ouvia. Apesar de todo o ar burlesco que os Dead Combo trazem consigo a casa era composta por público de todos os quadrantes, misturando um público mais rockeiro com um mais erudito e lá nisso os Dead Combo são perfeitos.

João Neves

Licenciado em Música Electrónica e Produção Musical é um apaixonado por música e artes em geral. Interessado na área das novas tecnologias relacionadas à música e membro de uns quantos projectos.