Sam Alone & The Gravediggers no RCA Club (19/03/2016)

Sam Alone & The Gravediggers no RCA Club (19/03/2016)

#26 Sam Alone & The Gravediggers

Fotos por Hugo Rodrigues

Sam Alone e os seus Gravediggers vão em breve seguir viagem para vários concertos Europa fora e a festa de partida fez-se no passado fim-de-semana, depois do concerto em Paços de Ferreira, no RCA Club em Lisboa, onde a boa disposição e o ambiente familiar nos fizeram sentir em casa e entre amigos. Esta digressão europeia acompanha a recente reedição do último álbum da banda, Tougher Than Leather, agora com o selo da editora internacional People Like You Records, que promete dar um novo impulso além fronteiras à música de Poli Correia (ou Sam) e dos seus companheiros.

E quem melhor para abrir esta festa do que Fast Eddie Nelson que entra em palco descontraído e “no class”? É que a amizade de Nelson Oliveira e Poli Correia já tem alguns anos de estrada e a cumplicidade deste bromance traz-nos sempre os momentos mais divertidos da noite, como quando chama Poli para o acompanhar na música seguinte e lhe dedica um pequeno solo de guitarra dizendo galhofeiro “fiz para ti!”. A velocidade com que Fast Eddie desbrava blues e folk na sua guitarra explica o seu alter ego e nem a plateia mais apática seria capaz de ficar indiferente a este vendaval em palco com o diabo no corpo. A sua música está impregnada da poeira da folk americana no seu estado mais puro e parece ter atravessado um oceano até ter chegado a nós, mas as suas raízes estão bem vincadas nas margens do Tejo, afinal como o próprio brinca “podes tirar um gajo do Barreiro, mas não consegues tirar o Barreiro de um gajo”.

#6 Fast Eddie Nelson

Fast Eddie despede-se deixando o ambiente aceso, pronto para receber Sam Alone & The Gravediggers, já perto da meia-noite, que abrem a setlist com “Gardens of Death” do novo álbum. Poli aproveita para nos perguntar se já temos o novo disco e pede a quem não tem para sacar da internet e fazer uma cópia para um amigo, já lhe ouvimos estas palavras em outras ocasiões para sabermos que não ironiza e que o que mais quer é que a sua música chegue a todos. Afinal o genuíno músico é aquele que acima de tudo não quer a sua música fechada em caixas.

Acabaria por ser uma noite com uma setlist a percorrer toda a discografia da banda, desde “Deathproof” de 2008 do álbum estreia Dead Sailor, “Guillotine” de Restless com direito a solo de guitarra de João Brito, passando pelas obrigatórias “Gallow” e “Warm” de Youth in the Dark de 2012. De Tougher Than Leather chegariam várias dedicatórias, primeiro ao público com “Believers e Renegades”, porque são estes os verdadeiros heróis de Sam, e depois “Another Mile” dedicada a todos aqueles que vieram das chamadas “terrinhas”, porque Sam também não esquece a sua terra Quarteira e esta “Another Mile” é um hino à sua juventude e aos seus amigos de infância.

#33 Sam Alone & The Gravediggers

As surpresas da noite estariam guardadas para as covers e a primeira foi falsamente anunciada como uma malha de metal, mas que serviu para brincar com a recente “polémica” do “racismo musical” e soltarmos umas gargalhadas. A cover seria afinal “Man’s World” de James Brown, acompanhada pelo saxofone de André Murraças, revelando-nos que Sam para além da garra que lhe conhecemos a interpretar, também consegue ter muita soul na voz, oferecendo-nos o momento mais voluptuoso da noite. Ainda nas covers, a surpresa mais interessante foi uma versão bastante própria e rock de “Drunfos”, da “Bruxa” ímpar do hip hop português, Allen Halloween, de quem Poli se confessa grande fã. No final assume honestamente “eu tentei… com todo o respeito ao Allen” e são estas pontes improváveis entre universos musicais opostos que nos fazem perceber que na música as barreiras só existem na cabeça de cada um.

A despedida da noite foi feita com “No Class” que representa na perfeição a afirmação musical de Sam Alone & The Gravediggers, uma luta justa e optimista contra a opressão e as classes, e a “working class riffle” de Sam, assim como a “máquina que matava fascistas” de Woody Guthrie há muitas décadas atrás, promete continuar a inspirar-nos a todos na procura de um mundo mais igual e mais humano.

Vera Brito

É developer nas horas vagas e agarrada a música a tempo inteiro. Não gosta de pessoas com preconceitos nos ouvidos. Prefere sagres a super bock mas sente-se dividida entre Alentejo e Douro.