Linda Martini no Coliseu dos Recreios (02/04/2016)

Linda Martini no Coliseu dos Recreios (02/04/2016)

#26 Linda Martini

Fotos por Hugo Rodrigues

Ao fundo do palco um pano negro cai e temos Sirumba aberta no Coliseu dos Recreios em Lisboa, para o tão esperado e merecido concerto de consagração dos Linda Martini. Sente-se orgulho e alguma comoção no público desta noite que, ao ver finalmente a sua banda pisar um dos mais míticos palcos portugueses, tem consciência que é parte basilar da ascenção consistente e sem aparatos dos Linda Martini, após mais de uma década decorrida de música e de entrega.

Prova desta dedicação fiel são os coros que acompanham o praticamente acabado de estrear “Unicórnio de Sta. Engrácia”, primeiro avanço do novo LP Sirumba que nos surpreendeu ao revelar uma nova forma de explosão controlada da banda. A urgência e o atropelo parecem ter ficado lá atrás, nesta Sirumba com nome de brincadeira de crianças há afinal maturidade, contenção e tempo para definir um caminho mais concreto. Nestas mudanças de rumo haverá sempre quem se renda a novos sons e quem continue a preferir navegar por águas mais antigas, é que a banda de “parecemos putos, não temos aulas amanhã” sempre trouxe consigo uma promessa de juventude infindável e há quem não queira ainda abandonar essa ideia. E “Juventude Sónica” chega-nos assim a rasgar, avistamos os primeiros crowd surfers e o Coliseu sofre o primeiro tremor da noite.

#10 Linda Martini

Reorganizam-se emoções ao som de “Preguiça” para preparar a nova descarga com aquela que será uma das maiores culpadas de ali estarmos todos hoje, “Amor Combate” é cantada a peito aberto, a única maneira possível, e o nó na garganta desfaz-se quando as luzes iluminam a plateia em uníssono, fica mais fácil quando não estamos sós. O arrebatamento também já sente em palco com os agradecimentos honestos da banda que dedica a próxima a todos os putos bons na casa e esta nova “Putos Bons” parece ganhar outra força ao vivo, com um varrimento sónico no instrumental final a arrancar mais uma ovação. Voltamos em velocidade máxima à Casa Ocupada com a “Mulher-A-Dias”, directa e imediata, que contrasta com as oscilações e os crescendos intensos de “Estuque”, uma antiga e boa surpresa para esta noite, num bonito jogo de luzes azul que nos recorda a capa de Olhos de Mongol. Nada parece ter sido deixado ao acaso nesta setlist e, embora a noite seja de Sirumba, a banda revisita toda a discografia, mostrando-nos como sempre tentou explorar diferentes caminhos através destes contrastes, chegando agora a vez da labiríntica “Volta” de Turbo Lento.

Por esta altura a comunhão é total e já nada separa o público da banda, nem mesmo a altura do palco, mas de onde nasce afinal esta relação tão visceral que sentimos com as músicas de Linda Martini? Será a catarse dos seus instrumentais pujantes que nos libertam as dores mais profundas ou serão as suas palavras que, mesmo por vezes parcas, são certeiras e desenham emoções quase impossíveis de atingir? Parece-nos que sim e mesmo com dez anos a separar “Dá-me A Tua Melhor Faca” da recente “Dentes De Mentiroso” são ainda estes os argumentos que procuramos nas suas músicas. “Bom Partido”, “Farda Limpa” e “Ratos”, todas elas lidam com dores de crescimento e chegam de seguida, prova mais uma vez que esta setlist foi desenhada com intenção, e derrubam todos aqueles que por aqui hoje que se sentem “partidos” e sem qualquer vontade de “assentar”. Outra capacidade inegável das músicas de Linda Martini, de nos fazer virar para dentro e enfrentarmos os nossos medos e demónios.

#22 Linda Martini

A primeira despedida faz-se com “O Dia Em Que A Música Morreu”, que mesmo sugerindo um dos mais desoladores cenários de sempre, o de um mundo sem música, é em si a própria contradição, de terrivelmente bela que é de testemunhar ao vivo, tal como a tínhamos ouvido em disco, e que se despede com um bonito assobio de Cláudia. A Sirumba está fechada e os ladrões saem de palco num abraço sentido, mas por pouco tempo, porque em breve o público reclama em uníssono os versos do amor tortuoso de “Cem Metros Sereia”, ao qual Hélio reage emocionado com um “assim fica difícil”, quando regressam para o primeiro encore. E de um encore assim tão generoso ninguém se pode queixar, somos embalados na cadência melancólica de “Dez Tostões”, agarramo-nos ao arroubo de “Panteão”, sorrimos quando a força inquebrável das ondas de “Este Mar” provoca abraços espontâneos ao nosso lado, cerramos os dentes para a explosão de “Belarmino Vs.” até que chegamos à muito pedida “Cem Metros Sereia”, que nos deixa a habitual rouquidão. Não sabemos de onde transborda mais emoção se da plateia se da banda e Pedro ainda se lança num mergulho para os braços do público antes de saírem de palco.

Perto de duas horas de concerto e ainda ninguém quer arredar pé, afinal nem a chuva nos demoveu de marcar presença neste dia tão importante para os Linda Martini e o segundo encore é quase um direito de ambas as partes. E a derradeira despedida faz-se com “O Amor É Não Haver Polícia” e todos “sentimos no ar a melodia etérea, é a nossa música, cantamos e dançamos como se fosse a última vez” e à voz epiléptica de André junta-se a nossa e todos nós queríamos tanto parar aqui nesta noite e deixar a chuva lá fora.

Vera Brito

É developer nas horas vagas e agarrada a música a tempo inteiro. Não gosta de pessoas com preconceitos nos ouvidos. Prefere sagres a super bock mas sente-se dividida entre Alentejo e Douro.