O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente)

O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente)

O Abraço da Serpente

A estreia da Colômbia nas nomeações para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro faz-se com uma história sobre… a Colômbia. Não a Colômbia actual, dos cartéis de droga, do crime organizado ou de aspectos que fujam a esse estigma. Esta é uma viagem ao lado ancestral e profundo do país sul-americano, ao domínio espiritual da floresta amazónica.

Abraço da Serpente I

O Abraço da Serpente passa-se em dois períodos do século XX. Seguimos as pisadas de dois cientistas e de uma pesquisa botânica. Seja pela sobrevivência ou em nome do puro conhecimento sobre uma planta rara. Pelo caminho, vamos verificando os rituais índios e absorvendo toda a rivalidade conhecida entre as populações nativas e os caucasianos colonizadores. Tome-se, como caso paradigmático e forte, o diálogo com o missionário. Ou, num sentido inverso, a eliminação dessas barreiras através da música.

Com uma fotografia a preto-e-branco e imagens bonitas, O Abraço da Serpente é um filme lento que capta, de forma interessante, a atmosfera amazónica. Seguimos os ritos pagãos e nos perigos naturais. E, ao contrário de algum cinema fechado, tem o mérito de entrar num caminho desconhecido de uma forma minimamente familiar. Não é a espiritualidade dentro da espiritualidade… que a anula. Não é, pensando em outras latitudes geográficas, o insuportável Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores que, mesmo assumindo que é um retrato fiel da espiritualidade tailandesa, é um aborrecimento inclassificável.

Abraço da Serpente II

Contudo, o filme de Ciro Guerra arrasta-se em demasia e, a uma dada altura, sentimo-nos demasiado perdidos neste percurso pelos mistérios da natureza e da humanidade primitiva. Focamo-nos apenas nisso e quase que abandonamos as diferenças culturais e s personagens que estão fora do habitat. Ou seja, desperdiça-se o drama de Theo e a busca de Evan. E, nesse momento, as hipóteses de uma história forte são substituídas por um conjunto de imagens bonitas, mas algo repetitivas.

P.S. Fica uma sugestão: quem achou The Revenant um filme demasiado parado, esqueça O Abraço da Serpente. Dificilmente terá paciência para um filme onde se passa tão pouco, muito menos do que no filme de Iñarritu.

5

João Torgal