Florence + The Machine na MEO Arena (18/04/2016)

Florence + The Machine na MEO Arena (18/04/2016)

#15 Florence + The Machine

Texto por Henrique Mota Lourenço / Fotos por Andreia Vieira da Silva

Da passagem de Florence Welch por Lisboa sobram duas certezas inegáveis: a primeira, e mais óbvia, é a magistralidade da voz da britânica, a segunda, também ela bastante previsível, é a ideia de que a Meo Arena não foi mesmo feita para receber concertos.

Por mais que tentemos e nos queiramos abster, não é possível evitar menções óbvias ao fraco PA da maior sala de espetáculos do país. Vez atrás de vez, vamos ao antigo Atlântico na esperança de ouvir bandas e intérpretes com uma qualidade sonora que satisfaça o seu estatuto e dimensão, mas vez atrás de vez nos vamos enganando, até que decidimos que não pode nem deve haver mais abébias: a acústica da Meo Arena precisa de ser revista. Caso contrário, continuaremos a ver estrelas sabotadas por uma constelação de problemas óbvios perante qual os responsáveis em questão parecem ser cegos, surdos (e bem surdos) e mudos.

Deixemos as lamúrias e passemos ao que realmente importa: Welch, chegada depois de um vibrante Grabriel Bruce (a emular uma mistura agradável de Liam Fray com Theo Hutchcraft), aparece-nos visivelmente fatigada pelos seis concertos de uma assentada, e trouxe pouco de novo a quem assistiu ao triunfo das canções de How Big, How Blue, How Beautiful no verão do ano passado. O alinhamento, apesar da vinda em nome próprio, pouco se alterou em relação ao que tínhamos visto no Super Bock Super Rock. As canções, também elas pareciam ter menos brilho; a multidão do festival esboroou-se e só restaram os fãs mais fiéis, que se aguentaram firmes e hirtos na passagem indolor da mulher ídolo por Portugal.

Mas não se pense que tudo é crítica: mesmo estafada, Florence correu público adentro até onde lhe restaram forças; o público “mais alto” da digressão fez muito por isso: Mother ou Shake it Off foram vividas com o fervor da adolescência em sincronismo com o rigor da dupla Ackroyd e Saunders, que segura as cordas e o concerto em mais de metade das músicas; o corpo opulento do baixo e o som trebly das guitarras vistosas mantêm a coesão que os sopros ocasionais não destroem e ainda acabam por polir; com nota altíssima os dois rapazes não dão hipótese para criticar milímetro que seja da Machine bem oleada que acompanha a senhora de Camberwell, Londres.  Estivesse o som à altura da banda…

No desfile de canções passam a meio gás as acústicas Sweet Nothing e Cosmic Love, havendo por seu turno espaço para temas menos aguardados como Long & Lost e Spectrum, que nos acabaram a fazer olhinhos e ficaram como crowd pleasers. A irregularidade parece, de facto, ser palavra-chave no coração da máquina.

Pouco óbvia também nos encores, Florence Welch não tem por hábito guardar trunfos para a despedida (Dog Days Are Over, canção mais ovacionada, ficou para pré-saída de palco). What Kind of Man (um não single) e Drumming song (single discreto) ficam para o final e deixam as despedidas em dois níveis: um vibrante, para quem não pode viver sem a artista, e outro francamente adormecido, vindo este de quem esperava folia e novidade, mas acabou por receber alinhamentos curtos e repetidos, com menos luz e chama do que havia sido prometido nesta não-tão-longa espera.

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