Ce Sentiment de L'été

Ce Sentiment de L’été

Ce sentiment de l'été

Mikhaël Hers apresentou no IndieLisboa 2016 aquilo que pode ser considerado um filme típico do cinema francês moderno; em primeiro lugar o conteúdo e os diálogos frequentes, em segundo está tudo o resto. Definir um momento-chave e observar a construção e desconstrução das personagens a partir daí é aquilo a que se propõe Ce Sentiment de L’été. Partimos de um momento num único espaço físico e vemos como a acção se desencadeia em vários espaços físicos e temporais, com consequências para aquilo que é cada uma das personagens.

Sasha, uma jovem francesa a viver em Berlim com o namorado, morre de forma súbita e inesperada. Este é o momento-chave que vai causar uma transformação em várias outras personagens, de onde vai ser dado maior destaque a Lawrence, o namorado, e Zoé, a irmã. Em diferentes momentos no tempo acompanhamos a evolução das personagens em Berlim, Paris e Nova Iorque, sendo perceptível o efeito que a morte de Sasha teve em cada um dos momentos. Acompanhamos também, com menos destaque, outros elementos que de algum modo fizeram parte da vida da personagem central que, não tendo muito tempo de ecrã, acabam por ser importantes no modo como contribuem para a evolução dos outros elementos.

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Os diálogos são o principal veículo da mensagem que Mikhaël Hers quer transmitir acerca da evolução no tempo, mas não só. Recorre-se muitas vezes a planos mais fechados e demorados nas expressões das personagens que por vezes transmitem tanto como os próprios diálogos. O modo como acompanhamos várias conversas à medida que vemos também as diferentes cidades como background lembra um pouco o estilo utilizado por Richard Linklater nos três filmes Before que realizou. A diferença aqui passa pela qualidade dos mesmos, que acaba por ser inferior e também o modo mais pausado como acontecem, não havendo um fluxo continuo. Ainda assim, torna-se fácil perceber as emoções que se pretende transmitir e compreender o porquê das acções das personagens e aqui também as cidades representadas desempenham um papel importante, aparecendo como mais do que um cenário bonito.

Ce Sentiment de L’été, que podemos traduzir como este sentimento de Verão, pretende passar exactamente isso, sentimentos. De um modo humano e por várias vezes simpático, consegue fazê-lo, ainda que nem sempre com muito brilho. Enquanto que é fácil gostar das personagens de Lawrence e Zoé, a fase inicial que antecede a morte de Sasha parece muito pouco conseguida. Mais relevante do que dar a conhecer a personagem que motiva tudo o que se passa no filme seria dar a entender a relação próxima e importante que esta tinha com as restantes.  Seguimos as diversas personagens a partir daí, mas quase que nos esquecemos de qual a razão de tudo estar a acontecer daquele modo.

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Sintetizamos tudo e temos um filme bastante agradável, com algumas sequências mais memoráveis do que outras, aqui com uma nota especial para a acção em Nova Iorque e para a personagem de Thomas. Sentimo-nos bem a acompanhar as personagens e respectivas evoluções e isso acontece especialmente pela forma como estas se mostram humanas nas decisões que tomam. Mikhaël Hers pretende passar um sentimento e consegue fazê-lo, sendo esse o principal ponto forte de um filme que não conta com muitos altos nem muitos baixos.

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Sandro Cantante

Adepto com H grande de videojogos e cinema. Gosto de bons filmes e de bons jogos, acima de qualquer género ou plataforma. Uma pessoa simples que gosta do que é bom apenas.