Sul Concetto Di Volto Nel Figlio Di Dio: O teatro e o dever do desconforto

drama-berlin.de 19.07.2011 Avignon Festival 2011 "SUL CONCETTO DI VOLTO NEL FIGLIO DI DIO" (von Romeo Castellucci / Societas Raffaello Sanzio), Regie: Romeo Castellucci, Buehne: Istvan Zimmermann und Giovanna Amoroso, Musik: Scott Gibbons, Produktion: Festival d'Avignon und Theater der Welt 2010, Premiere am 20.07.2011 im Opera-Theatre. Szene mit Gianni Plazzi (als Vater). // Avignon Festival 2011 'ON THE CONCEPT OF THE FACE, REGARDING THE SON OF GOD' by Romeo Castellucci / Societas Raffaello Sanzio, directed by Romeo Castellucci, stage design Istvan Zimmermann and Giovanna Amoroso, music by Scott Gibbons, produced by Festival d'Avignon and Theater der Welt 2010, opening July 20, 2011 at the Opera-Theatre. Scene with Gianni Plazzi (as Father).

Dez anos depois da última passagem por Portugal, o encenador italiano Romeo Castellucci apresenta em Lisboa e no Porto Sul Concetto Di Volto Nel Figlio Di Dio, uma peça criada em torno de uma reprodução da obra do pintor Antonello Da Messina, Salvatore Mundi (1965). A tela gigante, que nos coloca perante o rosto de Cristo, ocupa o centro do palco e serve de ligação entre três actos independentes que se desenrolam sob o olhar imperturbável desta figura icónica.

No primeiro segmento, um homem cuida abnegadamente do velho pai que sofre de incontinência fecal, num acto de extrema compaixão perante a exposição da decadência humana, da velhice e da dependência. Há um contraste estranho entre o minimalismo imaculado do mobiliário branco que compõe a cenografia e a terceira personagem em cena, o Cristo impassível perante tamanha angústia. O espaço vai-se ocupando de todo um manancial de objectos destinados a estancar a tragédia (metaforizada na incontinência fecal daquele pai) – baldes, fraldas, toalhas, remédios – e a acção, hiper-realista, desenvolve-se como num longo plano-sequência ocupado por muitos afectos contraditórios, num contínuo entre a compaixão e a náusea. O escatológico é levado a um tal extremo que quase se transforma num número de circo, que em momentos fugazes pode até tornar-se risível ainda que crueza da acção e das interpretações seja constrangedora. O encenador considera que ali se expõe um acto de amor – o cumprimento do quarto mandamento bíblico, Honra o Teu Pai e a Tua Mãe – mas é a humilhação e a raiva que tomam conta do espectador, para não falar da sugestão dos odores, que pode tornar-se até mais desconfortável do que as próprias imagens. No segundo acto, a parábola do sagrado converte-se numa instalação em que um grupo de crianças arremessa granadas contra o enorme retrato de Cristo, debaixo do som ensurdecedor de explosões, que inscreve na mente do espectador o espanto e o medo. O quadro termina com a imagem de mais uma trindade: do lado esquerdo do palco uma criança, do lado direito o velho incontinente, e ao centro a figura de Cristo. No terceiro acto, a imagem faz-se verbo: sozinha em palco, começa lentamente a desintegrar-se por via de chagas de tinta que a vão cobrindo e depois desagregando, revelando no seu substrato uma mensagem perturbadora: (não) és o meu pastor.

Para Castellucci, uma imagem tem sempre que se apresentar como problemática: se não o fosse seria uma mera ilustração. A estratégia do choque tem um propósito – primeiro para o próprio como encenador, que se confessa desde sempre fascinado pela figura de Cristo, e depois para o público, a quem o espectáculo poderá suscitar questionamentos e emoções muito distintos. Se num primeiro momento há uma projecção pessoal no primeiro quadro (a da contemplação da inevitável decadência física, da consciência e do espírito, bem como da transformação da natureza dos laços afectivos à mercê da corruptibilidade do corpo), há questões filosóficas e espirituais de segunda ordem que dialogam com o significado da própria existência, os desígnios do divino e o papel da crença. A encenação parte portanto da certeza naturalista caminha na direcção da metafísica e da fé, sem pretender acorrentar o espectador a nenhum dos momentos. Num tempo de clara crise dos valores religiosos, este é sem dúvida que é um espectáculo com uma dimensão política – chega-nos aliás já marcado pela sua polémica passagem por Paris, onde foi alvo de críticas ferozes por parte de fundamentalistas católicos – mas o encenador concebe-o antes como uma armadilha, que é ao mesmo tempo um presente ou um convite à reflexão. No caso, um comentário sobre os limites e o propósito do sagrado. Se a mensagem que se imobiliza em palco é uma contraversão do salmo 23 – Deus é o meu pastor (nada me faltará), a Castelluci interessa mais o salmo anterior – Pai, porque me abandonaste? O espectáculo explora a noção de abandono do divino que também nos abandonou e que aqui é representado no quadro de Messina, um fantasma singular ora acusador ora acusado, um salvatori mundi sem poderes para intervir no sofrimento humano ou impedir a cruel banalidade dos dias. Ao confrontar-nos com esta imagem e inserindo-a numa montagem cénica ambígua e carregada de contradições, Castellucci propõe não uma trama mas antes um conceito imaterial que serve de base ao diálogo entre o teatro e o público, obrigando-nos a contemplar a imagem do filho de Deus não como um objecto ou artefacto teatral mas como um enigma a ser desvendando – como o próprio mistério da fé. É nesta dialéctica da imagem que assenta o poder do espectáculo – presença e ausência em simultâneo, que nos contempla e é comtemplada – e dela surge a sua rejeição visceral ou o deslumbramento. Aqui, não há lugar a qualquer leitura conclusiva que nos possa devolver a paz de espírito. Aqui, o teatro é o lugar do incómodo e da epifania.

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Ficha técnica:

Criação e direcção: Romeo Castellucci
Em colaboração com: Centrale Fies/Dro

Música: Scott Gibbons
Interpretação: Gianni Plazzi, Sergio Scarlatella e Dario Boldrini, Vito Matera and Silvano Voltolina
Assistência à direcção de cena: Giacomo Strada
Construção de objectos: Istvan Zimmermann, Giovanna Amoroso
Preparação das crianças: Silvano Voltolina
Técnico de som: Matteo Braglia, Marco Canali
Técnico de luz: Fabio Berselli, Luciano Trebbi
Adereços: Vito Matera
Agenciamento: Gilda Biasini, Benedetta Briglia, Cosetta Nicolini, Valentina Bertolino
Administração: Michela Medri, Elisa Bruno, Simona Barducci
Consultor financeiro: Massimiliano Coli
Produtor executivo: Societas Raffaello Sanzio
Em co-produção com:Theater der Welt 2010; deSingel international arts campus / Antwerp; Théâtre National de Bretagne / Rennes; The National Theatre / Oslo Norway; Barbican London and SPILL Festival of Performance; Chekhov International Theatre Festival / Moscow; Holland Festival / Amsterdam; Athens Festival GREC 2011; Festival de Barcelona; Festival d’Avignon; International Theatre Festival DIALOG Wroclav / Poland ; BITEF (Belgrade International Theatre Festival); Foreign Affairs I Berliner Festspiele 2011; Théâtre de la Ville–Paris; Romaeuropa Festival; Theatre festival SPIELART München (Spielmotor München e.V.); Le-Maillon, Théâtre de Strasbourg / Scène Européenne; TAP Théâtre Auditorium de Poitiers- Scène Nationale; Peak Performances @ Montclair State-USA

Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

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