Louder Than Bombs (Ensurdecedor)

Louder Than Bombs (Ensurdecedor)

Ensurdecedor

A história de Ensurdecedor centra-se na personagem interpretada por Isabelle Hupert. Chama-se também Isabelle e é uma mediática fotógrafa de guerra. Contudo, Hupert pouco aparece no filme. Aliás, a personagem está morta ao longo da narrativa

Ensurdecedor foca-se na memória e no peso da ausência. No caso, na família nuclear, no marido e nos dois filhos e nas relações humanas entre eles. E também na verdade sobre a vida e a morte de Isabelle, na que se conhece, na que se esconde e na que queremos recordar. Gabriel Byrne é Gene, o pai que mantém uma difícil relação com o filho mais novo, Conrad, o adolescente marcada pela falta da mãe. Há uma barreira entre eles, muito bem explorada nos pequenos, inconsequentes e vazios diálogos. Algo que ajuda a construir a figura deste adolescente anti-social. E não é todos os dias que se vê uma personagem deste calibre, misteriosa, subtil e fascinante. Vem à memória, ainda que ao de leve, o belíssimo retrato outsider e interior da adolescência em Beleza Americana.

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A divulgação mediática do passado de Isabelle leva a transformações nesta família. Conrad não sabe, de forma exacta, como morreu a mãe. E fica a pergunta, talvez respondida de forma demasiado fechada: o que se ganha em saber a verdade em relação à nossa recordação idílica? É todo este dilema que aproxima da restante família o filho mais velho, Jonah, já adulto no momento da morte da mãe. Casado, com um filho e um percurso académico de excelência, seria o símbolo da maturidade e do equilíbrio. Mas será que sim? É a ele que cabe a exploração do espólio da mãe, ainda que Ensurdecedor assente muito mais  na memória da fotógrafa do que dos fotografados. Segundo o ângulo do filme, as imagens de guerra ajudam a construir a história de vida de quem está do lado de cá da câmara e não do lado de lá.

Ensurdecedor sucede, na filmografia de Joachim Trier, a Oslo 31 de Agosto. E é a primeira incursão do cineasta norueguês pelo universo anglo-saxónico. No caso, com resultados positivos. O filme anterior era uma visão pessimista de uma realidade negra. Partia de um antigo toxicodependente, na sua batalha para reiniciar a vida do zero, para exorcizar os fantasmas dos atentados noruegueses de 2011 e para apresentar uma sociedade fútil e desumanizada. Embora com peso psicológico, Oslo 31 de Agosto tornava-se demasiado contemplativo, demasiado difuso, com uma certa inconsequência que alguma crítica tanto adora. Não é o que acontece aqui…

Louder Than Bombs

A evolução dramática e o final de Ensurdecedor podem não ser arrebatadores. Há até uns pozinhos de freakalhice hedonista que nos deixam surpresos (pode ser bom ou escusado, depende do ponto-de-vista). Contudo, nada que diminua a complexidade e o peso psicológico das personagens. Tão bem espelhado num simples, bonito e sóbrio momento de ternura familiar. Sem clichés ou lamechices baratas. Aí, terminam as dúvidas: Joachim Trier é alguém que sabe construir uma história com um realismo espiritual, carinho pelas personagens e intensidade dramática. Não o vamos perder de vista.

7,5

João Torgal